“Soberba Tentação”, Andreia Ferreira

capa

FERREIRA, Andreia – Soberba Tentação, Alcochete, Alfarroba, 2012

Sinopse: Depois de descobrir que o sobrenatural não representa um medo irracional e que as criaturas caminham lado a lado com os humanos, Carla tem de enfrentar as consequências do seu envolvimento com o Caael.

Os demónios já deixaram marcas na vida da Ana e da Raquel e a Carla começa a sentir algumas dificuldades em encontrar-se.

Entre lacunas na memória, sentimentos e novas preocupações, surge uma existência virada do avesso com a linha da vida mais ténue do que nunca.

Com a ausência do Caael, assomam revelações que levantam um plano ancestral de uma disputa entre iguais. A Carla vê-se num tabuleiro de xadrez, como um rei isolado, com a rainha a jogar contra ela.

Opinião: Segundo volume da Trilogia Soberba, “Soberba Tentação” começa a afastar-se do romance usualmente esperado entre a protagonista e o seu grande amor sobrenatural. Enquanto no anterior o enredo gira essencialmente em torno da paixão imediata entre a Carla e o Caael, neste nota-se um afastamento não apenas físico, mas essencialmente psicológico, que dá a Carla a abertura para se questionar sobre o porquê de uma paixão tão súbita e praticamente sem explicação. E é isto mesmo que constituiu a melhoria em relação ao primeiro: a explicação do porquê de tão repentino amor/interesse, sem causa aparente, e no que é que isso se insere na macroestrutura.

Durante a maior parte da história, esta é-nos narrada pela própria Carla, em primeira pessoa, como se verificou no anterior. Contudo, de modo a fornecer ao leitor mais informação que aquela conhecida pela personagem, alguns capítulos alteram o narrador para uma terceira pessoa, o que implica que artigos definidos antes dos nomes, como “a Ana disse” ou “o Ricardo pensou”, sejam desnecessários.

Apesar destas melhorias, muitas outras coisas precisam ainda de trabalho e polimento. A nível da escrita, e de um modo geral, notei um abuso de reticências e pontos de exclamação; excesso de adjectivos durante os diálogos – a não ser quando se está a ser sarcástico, duvido que alguém diga “pelas mãos brancas do teu amigo pálido” –; erros ortográficos em inglês – “bully”, e não “bullie”, falta do “to” na frase “Just pretend not see her” – e em espanhol – “se passa” não fica igual em português e em espanhol, como é dito na nota de rodapé: em português é “passa”, em espanhol “pasa” –; uso do verbo “estrupar”, que existe no Português Brasileiro, mas não no Europeu; recurso a expressões que ou não existem, ou são utilizadas por um número muito restrito de pessoas; erros de construção frásica, como “fui o menos possível ruidosa” ou “Quanto tempo viveria mais ela?”; trechos que perdem sentido, ou se tornam ridículos, por querer embelezar demasiado o texto, exemplificando: “Era uma ordem metafórica que pedia o afastamento futuro” – num aparte “metafórica” não faz ali sentido nenhum, e pareceu-me que a pretensão era o afastamento imediato – “mas, mesmo assim, ele desencostou-se do carro, atónito, e com os olhos luminosos de tristeza. Uma película de lágrimas revestia a pupila.”; utilização errónea de vocabulário, como é o caso de “gafe” para referir uma falha física entre vegetação queimada e vegetação não queimada, salas de exames “concebidas” (duvido que as tivessem feito de raiz para os exames), “chutei o chão abaixo de mim”, “língua afiada” como sinónimo de fala-barato ou “não estava habituado a recolher-se perante ninguém” julgo que o pretendido seria “recuar”; recurso abusivo e desnecessário de itálicos, por exemplo, no uso de nicknames, na chamada do rol de Ana Ritas (by the way, não me cruzei assim com tantas no meu percurso, deve ser gosto das mães de Braga), e cada vez que a autora queria chamar atenção para alguma conclusão, facto, etc, cuja importância o leitor compreenderia sem os itálicos; falha de vírgulas, nomeadamente antes do uso do vocativo.

Ainda dentro da narração, e mantendo um problema que já advinha do livro anterior, esta cai no erro de entrar em divagações que nada acrescentam à história ou às suas personagens, tanto quando temos o narrador em primeira pessoa como em terceira. Logo no primeiro parágrafo do livro, temos a questionação sobre se a ave que “crocitava” era uma coruja ou um mocho. Começar um livro com divagações que em nada ajudam à história e pouca possibilidade têm de captar a curiosidade do leitor? Isto mantem-se ao longo do livro, com infodump sobre incêndios de Verão, descrições do vestuário em alturas desadequadas do enredo, e afins.

De igual forma, não compreendi o relevo das notas de rodapé. Explicar o que são elementos da cultura pop como Harry Potter, Twillight, True Blood…? Ou gíria generalizada como “cotas”? Referências comummente conhecidas como “Némesis”?

As personagens apresentaram, na sua maioria, uma evolução. Em “Soberba Escuridão”, sabíamos que o Caael era um anjo caído por querer sexo, sendo bonito, misterioso e apaixonado pela Carla. Nesta sequela, o anjo não se encontra tão presente, contudo, através daquilo que nos é dito por outros – e pelo final – ele desenvolve-se numa criatura mais dissimulada, agindo com um plano que o tira do papel de herói para o colocar no de vilão, provavelmente algo que atingirá o seu alto no terceiro volume, a publicar, da trilogia. O Ricardo aprofunda a sua relação com a Carla, tornando-se numa ponta do triângulo (quadrado? O Miguel ainda conta?) amoroso, e adquirindo um background, enquanto a Ana e a Raquel, sendo menos referidas, lidam com as consequências do que respectivamente lhes aconteceu no final do livro anterior. Penso que estas duas, em particular, poderiam ter sido melhor desenvolvidas.

A Carla permanece uma das piores personagens principais femininas que já li. Honestamente não me recordo se ela já era assim no primeiro livro, ou se piorou, mas que a jovem se esforça por se manter burra e cabra, esforça-se. Sendo personagem principal, ela pouco faz ao longo do livro além de ser salva, reclamar por tudo e por nada – colocando-se sempre no centro das suas queixas, qualquer que seja o tamanho do problema que os outros estejam a ter –, deixar-se levar e acreditar em tudo o que lhe dizem, mantendo atitudes estúpidas, rudes e surreais: em relação ao Miguel (magoar para o proteger? Os romances paranormais precisam de colocar um ponto final nisto), em relação à Ana (expulsá-la de casa porque se alimentou/matou o irmão, que a maltratava a todos os níveis e de quem a Ana salvou a Carla de ser violada? Ainda para mais depois de ter dito ao Ricardo que não a incomodava que ele tivesse assassinado uma rapariga inocente durante o S. João para se alimentar dela?), em relação à Ana Rita na sua primeira aparição (a rapariga apoia-a num momento de fraqueza e a Carla reage gozando interiormente com o aspecto dela, achando-se muito boa por se conter e não lhe mandar bocas, não por se sentir grata pela sua ajuda, mas “porque a minha condição social actual não se podia dar ao luxo de menosprezar ninguém”?), em relação ao irmão, que obviamente está a ter problemas sobrenaturais por ele mesmo e ela tão egoisticamente concentrada está nos seus problemas que nem isso nota, em relação ao Sean e à família americana, que por não saberem português e sorrirem quando alguém se lhes dirige – aquele acto de educação que algumas pessoas adoptam – são tratados como idiotas e abusados…

Já as Anas Ritas, as duas novas personagens de relevo, não constituíram surpresa. Facilmente se adivinha as suas verdadeiras identidades, uma logo no início, a outra, quanto muito, na sua segunda aparição.

Por fim, existem algumas falhas de congruência do enredo. Logo no prólogo é-nos dito que a personagem em fuga tem noção de estar em Trás-os-Montes “pois acabara de passar por um vilarejo dedicado ao cultivo da uva.” Embora isto pudesse ser um factor de localização, sozinho nunca ajudaria por aí além – Portugal é um país com uma grande variedade de regiões que se dedicam ao cultivo da uva. Mais adiante, quando a Carla encontra a Ana pela primeira vez neste volume, a autora descreve “mas sim à Ana, que era amarrada por Ricardo”. Ora pouco depois, a Ana anda em liberdade como se nunca tivesse estado amarrada – embora agora me esteja a surgir a possibilidade de o problema se encontrar no verbo utilizado, sendo o pretendido “agarrada”.
Seguem-se afirmações como os gatos terem autismo, a homossexualidade não ser natural (ok, isto ainda dá debate. Um dia deixará de dar), e o já mencionado Sean ser constantemente referido como “o inglês” quando nos foi dito ser americano – isto é semelhante a chamar um brasileiro de português.

Por fim, o episódio da vaca. Este tem como propósito explicar à Carla – e aos leitores – como é que o Ricardo, que até certo ponto da sua vida viveu como um humano normal, se tornou vampiro, visto que o é de nascença e não por ter sido mordido. Alerto que se seguirão spoilers, embora a esta altura da opinião, tal aviso já não faça grande efeito.

Ricardo diz-nos que não conseguia dormir devido à fome, pois apesar do jantar, ultimamente a comida não o satisfazia, pelo que decidiu esgueirar-se até à vaca leiteira do senhor a cujo cargo se encontrava (a família toda morta levou a esse encargo por um vizinho e antigo apaixonado da mãe do vampiro) e mugir um pouco a vaca. Os “borregos”, vendo-o, correram de imediato até à mãe, querendo para si o leite que Ricardo pretendia levar. Estranhei esta competitividade dos animais, mas sendo possível que os bichinhos quisessem mama, deixo passar. Agora, o que não faz sentido é que a vaca se encontre deitada enquanto os “borregos” mamam e o Ricardo a tenta mugir. Uma coisa e outra fazem-se com a vaca em pé.

Avançando – como os “borregos” são arrogantes e não respeitam as ordens de Ricardo, ao qual já se encontram habituados (diria que esta seria mais uma razão para ser obedecido que para não ser), este, frustrado, atira com um dos “borregos” para longe da teta. E é aqui que acontecem os milagres da biologia. O “borrego”, que ainda não tinha desmamado, adiantara-se à natureza e já desenvolvera dentes, fazendo com que ao ser atirado para longe, tivesse levado consigo parte da teta da mãe – naturalmente a ferida sangrou, despertou o desejo do Ricardo, e este bebeu o sangue das tetas da vaca enquanto com o braço elasticamente esticado lhe segurava a cabeça contra o solo.

Ainda dentro da história do Ricardo, salienta-se este trecho:

“Lembrava-me do seu nascimento e de como o pai dela me sovara ao constatar que o meu parto fora grotesco em relação ao da Cleo. Fora forçado a ouvir mais uma vez a história horrenda de como eu esventrara o corpo da minha mãe e de como ela me apunhalara querendo evitar que eu nascesse, mesmo que isso significasse perder a sua vida.

Claro que a Cleo não tinha magoado a mãe ao nascer. Ela era o símbolo da sensualidade e com certeza fluíra para a vida num deslize quase indolor.”

Enquanto por um lado temos tareias administradas a alguém por ter nascido de forma grotesca – ainda que quisesse demonstrar a crueldade da personagem, existiriam razões mais lógicas, ou simplesmente dizia que não eram necessárias razões –, por outro, um parto com menos dores é associado à sensualidade da criança.

Estas falhas, umas pequenas, outras maiores, afectaram grandemente a leitura, tendo sido evitáveis com uma revisão mais atenta e uma escrita mais cuidadosa e menos preocupada com utilizar palavras bonitas.

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