“Segredos de Amor e Sangue”, Francisco Moita Flores

capa

FLORES, Francisco Moita – Segredos de Amor e Sangue, Alfragide, Casa das Letras, 2014

Sinopse: Quando a força da Paixão e das Letras derrota o maior assassino de todos os tempos: Diogo Alves.

Segredos de Amor e Sangue é um regresso do autor à época em que Diogo Alves, o célebre galego que matava no Aqueduto das Águas Livres, era o grande protagonista do crime em Lisboa.

Em 1997 escreveu o argumento para o filme A Morte de Diogo Alves que venceu o Grande Prémio de Ficção da RTP. Agora, traz o célebre criminoso de volta como pretexto para reconstruir a Lisboa popular dos anos trinta do século XIX, um tempo em que a cidade se despia dos antigos trajes pré-liberais e dava os primeiros passos no Liberalismo emergente. Marcado pela violência e pela pobreza, este romance é uma história de ternura e de paixão, num tempo agreste, onde a força do Amor e das Letras se impõe à voracidade da guerra e do crime, num país que tinha uma população com noventa porcento de analfabetos.

É um romance com histórias apaixonadas, de amor e morte, de fascínio pela descoberta das palavras escritas em português.

Manuel Alcanhões, o narrador, eternamente apaixonado por Isabel, taberneiro em Alfama, testemunha a chegada do Portugal Moderno que vai aprendendo com as lições de um padre miguelista.

Opinião: Peguei neste livro julgando que teria um mistério histórico em torno do famoso assassino em série do Aqueduto de Lisboa. Logo no início, contudo, apercebi-me do meu erro: tanto o narrador quanto o leitor sabe desde cedo a identidade do assassino, bem como o seu método de agir. Assim, o romance é mais um registar de memórias e considerações do narrador, um taberneiro de pensamentos bastante avançados para a época. O leitor acaba por se embrenhar nas suas considerações sobre a condição da mulher, o amor e respeito que tem pela esposa, a realização que sente – e o esforço que despende – com a aprendizagem das letras já em adulto, as descrições sobre o dia-a-dia na sua taberna e no bairro da Alfama, onde vive, e a culpa e receio que sente em relação ao famoso assassino, cujas acções não se atreve a denunciar. Uma vez que é escrito como sendo um registar de memórias, a linha temporal não é propriamente fixa, saltando o taberneiro de acontecimentos que vão desde o tempo de Maria I, até ao tempo de Maria II, a época em que decorre a acção principal, e mencionando ainda a Guerra Civil – no entanto, adopta a óptica de um português que, conquanto tenha conhecimento dos acontecimentos políticos, raramente se interessa pelos seus detalhes. Dá o suficiente para que um leitor que já o saiba compreenda ao que se refere, mas não para que um leitor que não o saiba o fique a saber.

Algo que apreciei deveras foi a ambientação: através da menção a locais, acontecimentos e pessoas, senti-me envolvida pela Mouraria e Alfama da época. Tratou-se de algo feito indirectamente, através de diálogos e comentários mundanos, e não através de descrição directa, o que, a meu ver, resultou muitíssimo bem. No entanto, mais uma vez, aposta bastante no conhecimento do leitor – imagino a confusão de alguns ao lerem o modo nem sempre apreciador com é usada a denominação de “fadista”.

Sendo mais um romance de reflexão que de acção, há a sensação de que esta apenas acontece quando o final se começa a desenrolar, ou seja, quando os acontecimentos alcançam um horror tal que o narrador ultrapassa o seus receios e age de modo a desencadear o desfecho do assassino do Aqueduto.

Não foi propriamente o tipo de leitura que esperava, e, com excepção da ambientação, não há muito que se destaque no romance, tanto a nível positivo quanto negativo. Não foi, no entanto, uma leitura que tenha desgostado ou deixe de recomendar: em especial para aqueles que desejem envolver-se pelo espírito dos bairros que ficaram na História como o berço do Fado.

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