“Por Mundos Divergentes”, VVAA

capa

VVAA – Por Mundos Divergentes, Aveiro, Divergência, 2014

Sinopse: Num futuro por vezes próximo, por vezes distante, Portugal sucumbe dos mais variados estados ditatoriais. Aquele que pensa é um inimigo do Estado. Um inimigo da pátria que tem de ter cuidado… e os que não têm cura, devem ser sacrificados pelo bem maior.

Por mundos divergentes conta com cinco contos distópicos escritos por Ana C. Nunes, Nuno Almeida, Pedro G. Martins, Ricardo Dias e Sara Farinha.

Opinião:

“O Patriarca”, Ricardo Dias: Narrado em primeira pessoa, o conto apresenta uma boa estrutura e uma clara inspiração em Orwell. A maioria das personagens não apresenta complexidade, centrando-se a caracterização no protagonista – sendo esta bem doseada ao longo do conto. Apesar das limitações de um narrador autodiegético, o leitor não só compreende o que está a ocorrer, como o faz ainda antes da personagem – inclusive o final, que se torna evidente um pouco cedo demais.

“Em Asas Vermelhas”, Nuno Almeida: O wordbuilding fez-me considerar uma inspiração “ariana” como base: divisão da sociedade entre os loiros, de pele branca e olhos azuis/verdes a viverem no luxo tecnológico, e os morenos, vivendo na lixeira da cidade muralhada. O enredo centra-se na revolução que inevitavelmente advém, mais tarde ou mais cedo, de tal conceito, partindo dos pontos de vista – ainda que em terceira pessoa – de três personagens que, como se tornou bastante comum, são como que forçadas a assumir um papel na revolução. A estrutura está evidente: apresentação das personagens e worldbuilding, evento que despoleta os acontecimentos, clímax, e resolução. Fica, no entanto, a sensação de que seria uma história para um formato maior.

“Dispensáveis”, Ana Nunes: Recordam-se de ouvir sobre sociedades em que os filhos, chegada certa altura, abandonavam os pais numa montanha? É o ponto de partida para esta distopia, situada em Portugal, e com um travo de ditadura salazarista. Narrado em primeira pessoa, segue a visão parcial de um idoso que se tornou “dispensável” e deve, por isso, abandonar a sociedade: ou, mais correctamente, ser abandonado por esta. Uma premissa interessante, com um final ajustado ao que foi demonstrado sobre o wordbuilding. Apresentou, no entanto, algumas falhas e gralhas, como por exemplo uma troca de nomes, e a personagem do neto mais novo, cuja construção o faz parecer irreal.

“Arrábida8”, Pedro G. P. Martins: Apesar de ter sido o worldbuildingque mais me despertou o interesse, foi o conto que menos gostei. Julgo que ficou um grande potencial por desenvolver, não apenas no mundo criado, mas também no enredo. Não se percebe bem qual a importância do evento que se encontra no centro do enredo, nem o porquê de ser “ilegal”, algo a que o grande cariz científico não ajuda.

“Somos Felizes”, Sara Farinha: O meu conto favorito da antologia. A premissa é simples, mas poderosa: um mundo onde ser infeliz não é opção. Todos devem ser felizes. Tendo presenciado um momento marcante, o protagonista tem não só de lidar com uma depressão, como com a pressão de fingir tê-la ultrapassado. Uma situação pela qual bastantes pessoas passam na actualidade, e que está bem adaptada ao wordbuilding do conto. A autora consegue manter o interesse do leitor nesta “batalha” do protagonista, e do percurso que este percorre.

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