“Padeira de Aljubarrota”, Maria João Lopo de Carvalho

capa

CARVALHO, Maria João Lopo de – Padeira de Aljubarrota, [s.l.], Oficina do Livro, 2013

Sinopse: Muitas histórias correram sobre a humilde mulher que, em 1385, numa aldeia perto de Alcobaça, pôs a sua extrema força e valentia ao serviço da causa nacional, ajudando assim a assegurar a independência do reino, então seriamente ameaçada por Castela. É nos seus lendários feitos e peripécias, contados e acrescentados ao longo dos tempos, que se baseia este romance, onde as intrigas da corte e os tímidos passos da rainha-infanta D. Beatriz de Portugal se cruzam com os caminhos da prodigiosa padeira de Aljubarrota, Brites de Almeida, símbolo máximo da resiliência e bravura de todo um povo

Opinião: Comecei esta leitura com expectativas bastante altas. Não só Romance Histórico é um dos meus géneros favoritos, como o misticismo da Padeira de Aljubarrota é um dos que mais me atrai – há algo de awsome numa mulher que encontra sete marmanjos escondidos no forno do pão, e os manda para sete palmos debaixo da terra. Mórbido ao nível das versões originais dos contos de fadas, talvez, mas ainda assim com o seu quê de épico, ainda para mais quando atendemos a que o seu mito a coloca numa altura em que se uma mulher encontrasse sete soldados em sua casa, o mais provável era acabar vítima de violação colectiva.

Infelizmente, à medida que avançava na leitura ia ficando mais e mais desiludida. É verdade que Brites, a afamada padeira, não é a personagem que esperava, mas isso é um risco que sempre se corre e esteve longe de ser a razão da minha desilusão. Achei a ideia da construção da personagem – deformada, donzela-guerreira e tendo como primeiro amor outra mulher – interessante, mas não bem desenvolvida. A sua evolução de “menina maltratada pela aldeia pela sua deformidade” para “donzela guerreira”, por exemplo, não foi demonstrada ao leitor, pelo que este não acompanhou a sua evolução. Num capítulo ela encontra o seu mentor, no capítulo seguinte que a retrata, já considera o seu “treino” completo e parte sozinha. Estes saltos de acontecimento para acontecimento, que decorrem durante toda a narrativa e em relação a todas as personagens, impedem que o leitor veja o desenvolvimento que levou a personagem àquele evento ou personalidade em específico, qual o caminho para aquele resultado, e, como consequência, não há qualquer tipo de laço formado – eu não gostei ou desgostei das personagens, elas foram-se simplesmente indiferentes porque não contactei com o que as levou a serem o que são. Ao mesmo tempo, também o enredo é afectado ao ser apresentado nestes moldes de “nacos”: dá a impressão que se anda a fazer zapping numa televisão, apanhando um bocadinho de cada canal, e nunca vendo um programa no seu todo.

O modo de desenvolvimento do enredo é, portanto, o que considero um dos pontos negativos. Ademais, juntam-se-lhes detalhes que me pareceram muito pouco credíveis. Que em tempos de guerra o exército inimigo raptasse crianças do rei ou de nobres para resgate, ok, mas que vissem um miúdo qualquer de baixa categoria social sair do palácio e decidirem “Vamos levá-lo, que também deve ser bastardo do rei” já me parece puxar um bocadinho a corda. O mesmo para a paixão à primeira vista desse mesmo miúdo pela princesa Isabel, ainda para mais quando ela acaba de nascer, e ele deve estar no início da puberdade. Mais tarde a autora ameniza com a sugestão de que a personagem sente mais a possibilidade de subir na vida do que amor propriamente dito, mas os sentimentos permanecem ambíguos e a rejeição inicial já é algo que não se apaga.

Um outro ponto que mereceria trabalho e polimento refere-se às personagens, nomeadamente à sua caracterização: pareceram-me estereotipadas e unidimensionais, sendo o maior exemplo disso D. Leonor. Esta não foi uma rainha que ficou com boa fama na História, e a autora segue essa má fama. D. Leonor é representada como uma mulher ambiciosa, sem escrúpulos, má mãe, má esposa e, no geral, má pessoa. Tornou-se difícil encontrar uma única qualidade redentora, o que a desumaniza e torna pouco credível.

Por fim, a escrita: a autora segue um estilo trabalhado, “barroco” – a chamada purple prose. Trata-se de um estilo com o qual é necessário cuidado para não correr o risco de entrar em exageros. Durante grande parte da leitura, não achei que tivesse havido esse exagero, no entanto, este aparece vez ou outra, em especial durante os capítulos referentes a personagens de nível social mais baixo – desconfio que um monarca, sujeito à educação rígida que lhe era imposta, não falasse da mesma forma que alguém do povo, que na sua maioria não chegava a saber ler e escrever.

Concluindo, foi uma leitura da qual esperava bastante mais. Julgo que ainda não estava pronto a ser publicado, falhando-lhe uma maior profundidade histórica, uma construção mais sólida de personagens, e um enredo mais contínuo e credível.

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