“O Que Diz Molero”, Dinis Machado

capa

MACHADO, Dinis – O Que Diz Molero, Lisboa, Bertrand, 2001

Sinopse: «Teve uma infância estranha», disse Austin. «Em última análise, todas as infâncias o são», disse Mister DeLuxe. «Molero Diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava , muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva».

Opinião: Publicado pela primeira vez em 1977, “O que diz Molero” tornou-se no maior sucesso literário de Dinis Machado, tanto ao nível da crítica como ao do público. Em vez da habitual estrutura por capítulos, a obra segue num só bloco de texto, fazendo as separações entre a leitura do relatório de Molero sobre o rapaz e os diálogos/comentários entre Austin e Deluxe, os leitores do dito relatório, através do duplo espaçamento. Também em relação aos diálogos não temos os costumeiros parágrafos, recorrendo-se às aspas e texto corrido, que melhor transmitem a fluidez do discurso oral.

O enredo é-nos dado a conhecer através da referida leitura do relatório de Molero sobre a vida e origens de um rapaz, do qual nunca sabemos o nome, nem o porquê do interesse que desperta em Austin e Deluxe. Poder-se-ia dizer que a intenção seria descortinar a motivação de procurar a razão da existência, ou o modo como as pequenas coisas que usualmente nos passam despercebidas – por vezes representadas em simbolismos como o do escarrador ou da tatuagem do rato Mickey – podem influenciar a formação do ser humano, o seu comportamento e os seus relacionamentos, contudo, não tendo a própria obra fornecido as respostas para tal, não serão mais do que suposições.

Um ponto negativo é a precipitação que ocorre no final – enquanto no início a história, os comentários e as divagações decorrem a bom passo, nem demasiado lento para a leitura, nem demasiado rápido para a tornar inverosímil, tal perde-se no final, que parece ter sido apressado, quase com urgência de colocar o derradeiro ponto final.

É ao nível linguístico que obra melhor se faz valer: o “tom” é usualmente associado à comunicação oral. O A., no entanto, não hesitou em utilizar meios da oralidade – tais como bordões, gíria, termos como “camones” referindo-se aos ingleses, dispersão do diálogos, como, por exemplo, a interrupção sobre a dissertação do nome das estrelas para pedir um cigarro, retomando logo de seguida ao assunto original, entre outros. A “adaptação” da oralidade à escrita permitiu uma narração mais próxima ao leitor e que, variando com as personagens em questão, servia como uma caracterização imediata, tornando assim a obra num estudo à utilização das técnicas de comunicação.

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