“O Penico do Céu”, Hermínio C. Francisco

capa

FRANCISCO, Hermínio C. – O Penico do Céu, [Lisboa], Chiado, 2012

Sinopse: Ainda o jovem Afonso Henriques não tinha tomates para encher os calções, já a padralhada andava com ele ao colo a preparar a caldeirada que levaria à criação de um novo reino.

Tanto a padralhada (a Igreja) como a maioria das famílias ditas nobres, assim como muitos homens de negócios – e negociatas – pareciam descontentes com as directrizes vindas do Norte.

Dona Teresa e apoiantes teimavam por seguir políticas que na maioria das vezes não lhes davam aquilo a que se julgavam de direito.

A padralhada que desde que pregaram Cristo na cruz tinham tido tempo de afinar as mil e uma maneiras de alapar a peida à mesa e encher o papo à conta dos crentes, viu ali uma oportunidade de agitar as águas e criar um novo reino.

O jovem Afonso Henriques estava ali mesmo à mão de semear e a padralhada, onde capitaneava um tal Dom Paio – “arcebispo de Braga” – arranjou maneira de o fazer cavaleiro e rei.

Esse mesmo Afonso Henriques, mais tarde ainda tentou fazer um manguito à padralhada, mas lá em Roma o Papa não foi na conversa e mandou-lhe o recado, não há dinheiro, não há rei.

Ele até podia ter dito, não há dinheiro não há palhaço, pois fazer política sem dinheiro ou sem poder, é uma palhaçada.

Opinião: Apesar de o título e da capa poderem levar o leitor a julgar tratar-se de algo virado para a bandalheira, “O Penico do Céu” aproxima-se mais de ficção histórica, ou pelo menos de época. Uma breve introdução à comunidade do Vale de Midões, e à sua vizinha do outro lado da fronteira, é seguida por uma analepse até ao século XII, quando Gualdin de Midões encontra a estátua perdida de Santa Luzia, e “faz o acordo” que ao fim de algumas peripécias o leva a reformular de tal modo a aldeia de origem da Santa que praticamente se tornou no seu fundador – dando-lhe, inclusive, o seu próprio nome num re-baptismo. Finda a analepse, a qual decorre durante cerca de metade da obra, retornamos aos finais do século XX, inícios do século XXI, onde o foco principal se mantém nos descentes Midões e nas adaptações que o Vale – e a sua vizinha espanhola – têm feito ao longo dos tempos, temperando com o romance da juventude.

A obra está estrutura por capítulos extremamente curtos, com pouco mais de meia dúzia de páginas os mais compridos, desenvolvendo-se o texto em grandes quantidades de parágrafos, a pesada maioria separados por um duplo espaço que não compreendi. Não há travessões, itálicos ou aspas a separar os diálogos do restante do texto, algo que usualmente me incomoda, mas acabou por não ser aqui o caso, talvez porque acabaram por se encaixar perfeitamente no panorama geral. A escrita é informal, com recurso a gírias e calão, e apesar de poder causar algum estranhamento ao início, rapidamente acaba por “embalar” o leitor. Notei-lhe, no entanto, algumas gralhas e o uso desnecessário do duplo ponto de exclamação, que teriam sido facilmente perceptíceis por um revisor.

Já o narrador apresenta algumas incongruências: enquanto começa e se mantém durante a maioria da escrita com a terceira pessoa, volta e meia nota-se o uso da primeira, sem razão que o justifique, e por vezes alternando mesmo dentro de capítulo, estando um parágrafo em primeiro pessoa e o seguinte na terceira, por exemplo.

As personagens são essencialmente planas, mas o suficiente para o estilo de narração e de enredo, não havendo necessidade de se lhes exigir mais. No geral, tornou-se uma leitura que me agradou, de certa forma original em relação ao meu horizonte de expectativas.

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