“O Nobre Sequestrador”, Antônio Torres

capa

TORRES, Antônio – O Nobre Sequestrador, Parede, Fio da Navalha, 2004

Sinopse: René Duguay-Trouin, corsário francês dos tempos de Luís XIV, senhor das águas e das tempestades, arauto do medo em guerras quando o mundo era outro, é um dos protagonistas desta história.

Transfigurado em herói e imortalizado em estátua, narra as suas aventuras com a habilidade de um bailarino, cujos movimentos fazem tremer terras e mares. Encanta o autor e o leitor ao descrever as suas aventuras com a destreza de um esgrimista, cuja espada submete navios, sequestra cidades, intimida vontades e conquista corações.

Nascido numa família de corsários de Saint-Malo, a sua primeira batalha foi enfrentar o destino que lhe reservara a família, trocando o seminário pela escola da vida. O seu espírito inquieto sucumbiu à sedução das ruas, dos duelos, das tabernas e das mulheres. Tornou-se num libertino, tão à moda do espírito do seu tempo.

A sua redenção foi confrontar-se com o mar, ao comando dos navios na guerra que devastava a Europa, os seus mares e as suas colónias.

Foi então que o seu destino se cruzou com o dos portugueses, numa intrincada trama de aventuras e desventuras que teceram, e ainda tecem, o passado e o presente da História. Trama/drama com muitos protagonistas. Entre eles a cidade do Rio de Janeiro, cidade que nasceu portuguesa e que se fez com actos de bravura e gestos de cobardia, entre festas vitórias e derrotas.

Opinião: O corsário francês René Duguay-Trouin ficou na História como um herói da França e um vilão para o Brasil e Portugal, ao “sequestrar” a cidade do Rio de Janeiro, depenando a galinha e rapando o tacho em ordem a libertá-la sem que o fogo lhe causasse moléstia. É este o acontecimento histórico que serve de ponto de partida para a premissa do livro em questão.

Dividido em três partes, a primeira apresenta-nos como narrador autodiegético Duguay-Trouin, não em carne e osso, mas na figura da estátua que lhe foi mais tarde erigida, quando o passar dos tempos o foi repescar como herói ao passado. Tal permitiu-lhe um punhado de considerações post mortem durante a narração do episódio do sequestro do Rio, e da sua vida em geral, num diálogo com o leitor em que um humor depreciativo de si e dos outros lhe domina as palavras, ao mesmo tempo que dá a conhecer parte da História de Portugal, do Brasil e da França.

Após um intervalo em que se apresenta o receio dos habitantes do Rio de assaltos e mortandade pelo crime, demonstrado por elevadas estatísticas, entramos na segunda parte, pormenorizando-se os eventos do sequestro do Rio por Duguay-Trouin, agora num narrador heterodiegético e seguindo um estilo mais de registo, em que a linha temporal segue sem distúrbios – tanto na primeira como na segunda parte, a ordem do tempo não parece importar e, de facto, não afecta a leitura.

A terceira parte retoma o narrador na primeira pessoa, mas desta vez sendo a personagem a própria cidade do Rio, humanizada pelas suas palavras e descrições. Mais uma vez, o narrador não se limita à narração do evento do sequestro, mas prolonga-se para dar a conhecer a sua história.

Num post scriptum final, uma notícia dá a conhecer o domínio dos delinquentes sobre o Rio. Tanto isto como o intervalo já referido levam inevitavelmente a uma comparação entre o sequestro de Duguay-Trouin, e a todos os roubos e guerras que a cidade sofreu no passado, com os actuais – nada deixou de acontecer, nenhuma motivação esmoreceu, nenhum “vilão” desapareceu. O modo como são encarados é que parece ter-se alterado. A cidade, no entanto, continua a ser alvo de sequestros, ontem e hoje.

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