“O Inverno das Fadas”, Carolina Munhóz

capa

MUNHÓZ, Carolina – O Inverno das Fadas, [São Paulo], Leya Brasil, 2013

Sinopse: EXISTEM PESSOAS NORMAIS em nosso planeta. Homens e mulheres simples que nascem e morrem sem deixar uma marca muito grande ou mesmo significativa na humanidade. Mas existem outros que possuem talentos inexplicáveis. Um brilho próprio capaz de tocar gerações. Como eles conseguem ter esses dons? De onde vem a inspiração para criar trabalhos maravilhosos? São cantores com vozes de anjos, artistas com mãos de criadores e escritores imortais.

Existe uma explicação para isso.

Sophia é uma Leanan Sídhe, uma fada-amante, considerada musa para humanos talentosos. Ela é capaz de seduzir e inspirar um homem a escrever um best-seller ou criar uma canção para se tornar um hit mundial. A fada dá o poder para que a pessoa se torne uma estrela, um verdadeiro ícone, ao mesmo tempo em que se aproveita da energia do escolhido para alimentar-se.

Causando loucura.

E MORTE!

Opinião: Eu tinha expectativas para este livro, não particularmente altas, mas ainda assim boas expectativas. Contava com pelo menos gostar dele, visto que a temática me atrai, a sinopse tem o seu interesse, apesar do dramatismo exagerado, e eu já tinha ouvido falar da autora como sendo um sucesso no Brasil.

Todas essas expectativas foram goradas. Começando pelo básico, o enredo é simples, retratando o romance entre William, um talentoso aspirante a escritor, e Sophie, uma Leanan Sídhe, ou uma fada-musa-amante que inspira os seus artista em troca de alimento, vulgo alma. Apesar da sua simplicidade, continuo a achar que é uma premissa com pernas para andar dentro do género paranormal. Mas infelizmente não foi bem trabalhada. Logo no início temos infodump, uma prática que se mantém ao longo da história. Toda a informação que o leitor precisa de saber é dada de supetão num só momento, em vez de ser espaçada pela história, aos poucos, não tornando a leitura aborrecida e dando tempo ao leitor de absorver a nova informação.

Isto, no entanto, não é tão problemático quanto poderia ser não por uma boa razão, mas porque a autora não desenvolve o seu worldbuilding, não havendo portanto tantas informações quanto isso para dar ao leitor. Um dos encantos de um livro sobre fadas é a possibilidade de trabalhar com o mundo feérico, utilizando os recursos que já existem e até criando alguns novos. Mas aqui não vemos isso. Há um ou outro vislumbre do mundo de Sophia, mas este é fugaz e pouco desenvolvido. A ideia com que se fica no final é que não tem nada que o diversifique do mundo dos humanos, tirando ser habitado por fadas e elfos.

Outra grande falha são as personagens e as relações entre si: nem uma nem outra estão grandemente desenvolvidas. Pegando em Sophia como exemplo, todas as suas características são-nos ditas pela narração, mas raras são aquelas que o leitor efectivamente vê. É-nos dito, mas não mostrado, o que gera uma má caracterização da personagem. Ela levanta, ainda, uma questão em relação aos seus comportamentos: Sophia é uma fada já com vários anos, vivida e com bastante experiência de vida. No entanto, porta-se como uma adolescente de quinze anos. Neste caso, o que é dito e o que é demonstrado parece entrar em conflito. Talvez se siga o conceito de que para as fadas o tempo passa de modo diferente dos humanos, o que leva a um crescimento tardio?

Quanto às relações entre personagens, revelam as mesmas falhas já mencionadas: são-nos ditas e não demonstradas. Tal faz com que a separação entre Sophia e Guillian, por exemplo, não afecte o leitor: sabemos que são amigos de infância, mas não temos contacto com a carga emocional que essa relação traz consigo e, por consequência, também não partilhamos qualquer emoção com eles.

O mesmo vale para as restantes relações, e para a de Sophia e William em especial: a paixão deles não tem bases. São especiais porque sim, não sendo apresentado nenhum motivo convincente para Sophia ter considerado William como diferente de todos os seus anteriores amantes logo desde o primeiro encontro. E quando são enumeradas as características que tornam William diferente desses tais amantes, bastante depois, não encontrei nada de especial. Elas correspondem às características de uma pessoa normal que seja uma boa pessoa – e felizmente ainda conheço muitas, o que de certa forma também retira o carácter “especial” de William.

A aparição das personagens é outro ponto a focar: estas parecem surgir e desaparecer conforme são necessárias ao casal principal. Estão lá para os servir e nada mais, surgindo abruptamente quando um confronto ou auxílio é necessário, e desaparecendo com igual repentinidade quando cumprem essa função. Até a grande vilã do final não escapa a esse fado.

Possivelmente por isso, e jogando em simultâneo com o excesso de telle falha de show já mencionados, também os confrontos parecem forçados, como que surgindo do nada.

Em relação à listagem dos amantes de Sophia, não tenho muito a dizer. Pareceu-me algo desnecessário, que não caracterizou Sophia nem fez muito mais do que dar nomes às almas penadas do final. Ainda não sei o que sentir quanto ao uso de Michael Jackson na personagem de Mickey, mas justo para o artista não foi. Ficou retratado muito mais pobremente do que realmente foi.

Por fim, e não menos importante, a escrita. Quando se lê um livro é preciso, naturalmente, atender à temática, ou género e ao público-alvo. Em consequência, não esperava encontrar nada de rebuscado, nem experiências literárias à lá Jorge de Sena. Mas, e vou ser dura, também não esperava ficar com a sensação de estar a ler uma redacção escolar. Tal resultou da conjugação de três factores: vocabulário básico, conectores básicos e construções frásicas básicas. Note-se que disse “básico” e não “simples”, que são conceitos muito diferentes, e com consequências igualmente diferentes.

Concluindo, gostei da ideia subjacente à história, mas a prossecução falha em praticamente tudo em que pode falhar. Expectativas destruídas: check. Esperança em outros livros da autora: talvez. Não nos próximos tempos, visto que ainda há muita coisa a ser trabalhada, e duvido que haja uma evolução satisfatória no espaço de dois ou três livros, especialmente vendo o ritmo de escrita e publicação actuais. No entanto, se as ideias tiverem o mesmo potencial deste, e se a autora estiver disposta a ouvir as críticas/resenhas/opiniões mais negativas e a trabalhar a partir delas, acredito que melhore.

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