“O Funeral da Nossa Mãe”, Célia Correia Loureiro

capa

LOUREIRO, Célia Correia – O Funeral da Nossa Mãe, Alcochete, Alfarroba, 2012

Sinopse: Quando, aos 58 anos, Carolina Alves decide pôr termo à vida, deixa um pedido concreto às suas três filhas: que se reúnam na festa em honra da padroeira da vila e que recuperem os laços de sangue que as consagram irmãs.

Luísa emigrou para Paris, decepcionada com a frieza da mãe; Cecília é pianista e vive num alheamento artístico constante e Inês refugiou-se na política para fugir à negligência da família.

Com a ajuda da tia Elisa, vão regressar aos campos de alfazema da infância e desvendar ao longo de quatro dias o passado inesperado de Carolina. Os seus erros, as suas fraquezas e, numa reviravolta inesperada, o acto vil que permitiu prender a si à trinta e oito anos aquele que viria a ser o pai das suas filhas…

Opinião: Quando Carolina Alves leva avante o desejo de se suicidar, a sua acção – e o pedido que deixou às filhas em carta – serve não apenas como uma oportunidade para desvendar o passado, como também de catalisador para a alteração das vidas algo restritivas que as filhas tinham escolhido levar. O romance familiar e dramático desenrola a sua acção ao longo de cinco dias, os quais estruturam e dividem o livro, alternando entre reflexões, acções, pensamentos e diálogos do presente (Julho de 2011), com aqueles que remetem ao passado de Carolina e do marido, Lourenço – estes primeiramente dados a conhecer pela irmã de Carolina, e mais tarde por correspondência entre Lourenço e uma outra mulher que se revela tão fulcral para a história como a própria Carolina. Com excepção das cartas referidas, o autor é sempre heterodiegético, mesmo quando a irmã de Carolina toma a palavra.

Este passado, desconhecido para as irmãs, vai-nos sendo revelado aos poucos, sendo que a cada novo desenvolvimento, uma nova perspectiva é fornecida tanto às irmãs como ao leitor. Fiéis às suas personalidades, cada uma das irmãs reage de modo diferente às alterações daquilo que julgavam conhecer, ou às confirmações das suas suspeitas – essas mesmas reacções são um dos pontos fortes do livro. Mais do que o próprio enredo em si, que honestamente contém demasiado drama para o meu gosto pessoal, aquilo que cada uma das personagens retira dele é o que me captou o interesse.

Mas já iremos falar sobre as personagens. Primeiro, e antes de avançar para esse ponto, vou abordar o que ainda precisa de “polimento” – para além de um excesso de vírgulas e de páginas e páginas de blocos de texto sem um parágrafo à vista, o que de forma mais evidente precisa de melhoramentos na narrativa da autora é o excesso de palha. Há demasiada enrolação, quer no próprio enredo, durante o qual são-nos fornecidos detalhes sobre personagens sem grande importância e que nunca mais voltamos a ver, ou episódios inteiros que pouco fizeram para o desenrolar da acção ou fornecer informações sobre as personagens, como na própria escrita em si – um exemplo encontra-se na página 34 “molhando-o em seguida com uma substância morna que continha cloreto de sódio”, vulgo, lágrimas.

Eliminada toda esta enrolação, a autora tem uma escrita aprazível. Não acho, realmente, que escreva mal, pelo contrário. Bastará deitar fogo à palha e voilá.

Algo que também não gostei prende-se com este trecho:

“- Só és assim, flexível, permissivo, porque és homem.

– Não sejas feminista.”

Eu tenho perfeita noção que uma grande parcela da sociedade vê feministas como “odiadoras” de homens, pessoas que propagam a superioridade da mulher, a inferioridade do homem, que rebatem os seus argumentos com “porque és homem”, e usualmente não num bom sentido, etc, etc. Essa é uma ideia falsa e errónea, infelizmente gerada por uma parcela mais radical do feminismo – mas feminismo nasceu e mantém-se como a procura de IGUALDADE entre os sexos, e não do predomínio de um sobre o outro, seja ele masculino ou feminino.

Now, sendo justos, não me parece que tenha aqui havido qualquer intenção política ou ideológica. Nem sequer tenho bases para achar que a personagem do “homem” realmente confunde feminismo com esta nova degeneração – no entanto, e devido à agressividade actual que se gera face à afirmação “eu sou feminista”, não consigo deixar passar algo que possa fomentar essa ideia errónea, por mais pequeno que seja e insignificante que pareça.

Voltando às personagens – são possivelmente os ovos de ouro do livro. Diversas, com histórias, sentimentos e personalidades que lhes conferem palpabilidade, são de um grande realismo, desde as principais até às mais secundárias. A autora teve sucesso em apresenta-las como aquilo que são: seres humanos; e se por vezes eu sentia desprezo ou vontade de esbofetear alguma, no final acabei por não as conseguir odiar, nem nos seus piores momentos. Interessei-me por elas, quis conhece-las, saber o seu passado e adivinhar o seu futuro – observar o seu crescimento. Algo com o qual não estava propriamente a contar.

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