“Nós Matamos o Cão Tinhoso”, Luís Bernardo Honwana

capa

HONWANA, Luís Bernardo – Nós Matamos o Cão-Tinhoso, Porto, Afrontamento, 1972

Escritor moçambicano, Luís Bernardo Honwana nasceu em 1942, vivendo parte da sua vida ainda durante a época colonial. Em 1964 publicou “Nós Matamos o Cão-Tinhoso”, uma narrativa que compila sete contos, onde o visual domina a escrita, e a hierarquia colonial, nas suas marcas do dia-a-dia, domina as temáticas.

Nós Matamos o Cão-Tinhoso: O Cão-Tinhoso já não tem grande pêlo, substituído por feridas que são um nojo. Os outros cães não brincam com ele, a professora expulsa-o e o Veterinário tem ordem para o matar, que aquelas crostas são um perigo à saúde pública. O Cão-Tinhoso também tem grandes olhos azuis que não brilham, mas estão sempre a chorar, e parecem pedir sempre alguma coisa. Só a Isaura gosta do Cão-Tinhoso e faz festas ao Cão-Tinhoso.

O Veterinário diz aos miúdos para matarem o Cão-Tinhoso em vez dele, que o Veterinário sabe que eles volta e meia vão aos tiros com as armas dos pais, e naquele momento não lhe dá jeito ter de ir matar o Cão-Tinhoso.

E é basicamente a partir daqui que a história começou a fazer efeito em mim. O grupo de miúdos lá vai, com o narrador, também um deles, para o meio do mato, levando o Cão-Tinhoso preso por uma corda, a “chiar” sem abrir a boca e os “ossos a chocalhar”. E surgem aqui duas questões: o narrador não quer realmente matar o Cão-Tinhoso: do grupo é que o que mais resistência faz, mas acaba por disparar. Porquê? Pressão social, no meu entender.

A segunda: todos os rapazes hesitam e pretendem adiar ou afastar o gesto de si mesmos, utilizando subterfúgios que lhes permita sair com a cara limpa. Matar uma outra criatura não é tão fácil quanto isso, mas não deixa de causar impressão quão dispostos estão a deliberar sobre isso. No fim fazem-no, como é evidente pelo título do livro. Apesar da resistência inicial, apesar da intervenção da Isaura, que surgiu do nada, agarrando-se ao Cão-Tinhoso, apesar da figura digna de pena do próprio Cão-Tinhoso. E quando o fazem, é como se as dúvidas se dissipassem, ou o desejo de mostrarem “homens” se sobrepusesse a tudo. A conversa no regresso recai inevitavelmente sobre o tiro que cada um mandou, e como esse tiro deformou o Cão-Tinhoso na sua morte.

Inventários de Móveis e Jacentes: O pai do narrador, um rapaz, jovem, mas do qual não sabemos muito mais, está doente e muda de quarto. A partir daí, o narrador segue descrevendo a casa, pequenas e de poucos compartimentos, e os móveis que a constituem. O que parece algo simples acaba por ser uma janela para o dia-a-dia e modo de viver daquela família. Pelos seus hábitos e desejos tão simples, como passar o dia deitado no colchão da mãe, que é o melhor colchão da casa, vemos um pouco da hierarquia social em que se encontram. Pelas revistas e sua reacção a elas, a vontade – ou falta dela – de educação.

Dina: O primeiro conto deste livro cujo narrador é heterodiegético. Também carregado de forte simbolismo: caso encaremos o capataz como o colonizador, Madala como o colonizado, e Maria, filha de Madala, como a própria África, o conto ganha proporções extraordinárias a nível de exposição do colonialismo na sua vertente mais negativa, e torna as reacções de cada personagem ainda mais interessantes.

A Velhota: Bateram-lhe e na humilhação ele fica zangado. Zanga-se, essencialmente, pela noção de que não pode fazer nada, pela crença de que quando os miúdos crescerem, vão perder a infância ao descobrir o mesmo que ele já sabe. Mas a velha quer dar-lhe de comer, chama-lhe “meu filho” e, na sua quase normalidade, dá-lhe esperança de que as coisas não sejam assim quando os miúdos crescerem.

Papá, Cobra e Eu: Logo no começo sentimos um certo desprezo – que mais tarde ele admite ter sido o começo de ódio – do narrador autodiegético pela família, visível no modo como ele, um rapaz, possivelmente algures entre a infância e o começo da vida adulta, descreve a rotina mundana daquele dia da família, da empregada (protegida? Ajudante?) e do cão. A narrativa avança dando foco ao aparecimento de uma cobra dentro do galinheiro, a qual acaba por matar o cão do vizinho quando o jovem narrador resolve ir procurá-la, e acaba por se concentrar nas consequências desse evento: o vizinho chega, ainda o pai do protagonista não sabe de nada, exige a indemnização pela morte do cão, estabelece essa indemnização, e regressa a casa sem que o outro tuja bem muja. Sem que nos seja dito, sabemos que o vizinho, o Senhor Castro, é branco e colonizador.

O narrador podia ter impedido a morte do cão – no entanto, não fez, nem o pai se zangou por isso, antes lhe diz que preferiu assim. Encontramos aqui, parece-me, uma grande quantidade de interpretações. Talvez um gesto de revolta contra a opressão?

Outra coisa que deixa a pensar neste texto, é a constante troca entre o Português e o Ronga, língua originária de Moçambique, que a mãe do protagonista exerce, dependendo do interlocutor, e aliando assim a linguística à cultura e à identidade.

As Mãos dos Pretos: Porquê que as palmas das mãos dos negros são brancas? Cada resposta sua sentença, e cada sentença um reflexo da personalidade de quem a dá. Um dos meus contos favoritos.

Nhinguitimo: O conto final aborda a um nível geral as injustiças levadas a cabo durante o colonialismo, e de um modo mais particular os “furtos” de terras férteis aos que as trabalhavam e sempre as haviam tido na família, desejando e vendo nelas a base que com trabalho os levaria a um melhor futuro. A esperança na figura de Nhinguitimo lembrou-me ainda o sebastianismo português.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s