“No Coração do Império”, Alexandra Vidal

capa

VIDAL, Alexandra – No Coração do Império, Lisboa, Matéria-Prima, 2012

Sinopse: Numa manhã fria no início do século XVI, chega a Portugal um carregamento de escravos vindos do Congo. Os melhores negros são encaminhados para a corte de D. João III, para servir a rainha D. Catarina de Áustria. Entre eles segue Imani, baptizada como Maria da Esperança pelos frades portugueses. Pela sua inteligência e natural elegância, destaca-se entre os escravos – é ensinada a ler e a aprender a religião católica. O seu mestre é o gramático Rodrigo Montalvão, um nobre de alta condição, que por ela se apaixona. Nasce, entre ambos, um amor intenso e proibido, que é posto à prova no dia 26 de Janeiro, quando se dá o grande terramoto de 1531 que causou a morte de mais de 30 mil pessoas e a fuga de milhares de lisboetas. A maioria das igrejas e edifícios da cidade de Lisboa foi atingida pelo abalo, tornando irreconhecível aquela que era a grande capital do Império, no auge dos Descobrimentos.

É a história de uma paixão controversa, vivida numa corte de riqueza e intriga, em que uma mulher e um homem testam o valor do amor e da liberdade. Um romance que começa nas terras quentes de África, atravessa o oceano, e termina vendo renascer Lisboa dos escombros para onde a ira da terra a empurrou.

Opinião: É possível verificar que o que mais destaque tem na sinopse deste livro é a relação de amor proibida entre Maria/Imani e Rodrigo, bem como o terramoto que abalou Lisboa em 1531. Consequentemente, as expectativas em relação a estes dois elementos são elevadas, e infelizmente não cumpridas. É notável a rapidez excessiva com que as relações entre as personagens se desenvolvem, sendo um exemplo o modo como Rodrigo é demonstrado como avesso a ensinar Maria, uma escrava e ser humano inferior, e umas duas ou três páginas depois não só já a admira, como sente por ela carinho e desejo. O mesmo se verifica em relação a Maria, e até mesmo Leonor, a “inimiga no amor”, cujos sentimentos por Rodrigo parecem ocorrer de um momento para o outro. Tal deveu-se, em grande parte, ao facto de o romance e os sentimentos das personagens, bem como o seu crescimento e desenvolvimento, não nos serem demonstrados, mas apenas ditos, por vezes até mesmo em diálogos entre terceiros. Esta fuga do show, com grande dependência no tell, é algo que se alastra por toda a obra.

Simultaneamente, as personagens pareceram-me unidimensionais. Recorrendo mais uma vez a exemplos, Maria é-nos apresentada com um conjunto de características positivas, sem defeitos visíveis, e assim permanecendo ao longo da narrativa. Inversamente, D. Leonor é caracterizada pela negativa, tendo apenas a beleza a seu favor – e um final mal explicado demasiado conveniente. Que ser humano é totalmente “mau” ou totalmente “bom”, à falta de melhores termos? Onde se encontra a diversidade de facetas inerentes ao ser humano?

A forma narrativa, desenvolvendo-se através de um narrador heterodiegético, peca apenas por uma grande repetição da conjunção “mas”, e de uma constante referência ao cargo de retrete de D. Leonor, algo que o leitor fixa logo nas primeiras referências, bem como a importância que tal detinha na altura, sem necessidade de ser constantemente relembrado. Também alguns dos diálogos ou monólogos me pareceram questionáveis, visto que as personagens expunham as suas intenções em voz alta – e a outras que não eram necessariamente aliadas – numa corte que o próprio livro classifica como sendo de murmúrios e representações. No geral, contudo, apresenta uma leitura agradável, com excelente escolha vocabular.

É ainda de referir o afamado episódio do terramoto. Durante o romance, fiquei com a impressão que mais do que uma história ficcional, o enredo servia como um condutor para uma melhor demonstração ao leitor dos hábitos e comportamentos da corte portuguesa no século XVI – nisso, houve sucesso. A pesquisa histórica e conhecimentos da autora são notáveis ao longo da leitura do romance, e ficou-me a sensação de que muito do que é seu conhecimento não chegou ao meu, sob o risco de se tornar o livro numa obra demasiado pesada. Com a descrição do terramoto, passou-se o mesmo – assemelhou-se mais a um inventário dos edifícios caídos e da referência aos delitos cometidos, que a uma descrição do romance. Tal levou a que a mesma parecesse superficial, carecendo de um desenvolvimento que partisse mais dos sentimentos das personagens e, por via delas, chegasse aos do leitor.

Em conclusão, trata-se de uma obra cuja componente ficcional e romanesca não acompanha a pesquisa histórica realizada, ficando o desejo de que em possíveis futuros projectos a autora desenvolva mais as personagens e as suas relações, bem como os eventos que pelas suas consequências mais as afectam.

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