“Mar Humano”, Raquel Ochoa

capa

OCHOA, Raquel – Mar Humano, Barcarena, Marcador, 2014

Sinopse: Mar Humano parte da ligação turbulenta entre duas pessoas e penetra em temas como a longevidade da vida humana, a responsabilidade que os sentimentos acarretam, a luta pela liberdade de expressão e o impacto da ciência na evolução da consciência. Um brinde à coragem de cada indivíduo em ser autor da sua própria vida.

Opinião: Ler o título deste livro é a melhor definição que se pode encontrar sobre o mesmo. De facto, tudo parece ser tratado de forma a dar a sensação de um mar humano pelo qual os protagonistas vão seguindo a sua jornada, umas vezes encontrando-se, na maior parte do tempo por si sós. Assim, apesar de ambientado durante o Estado Novo, parece haver uma intemporalidade capaz de colocar as personagens noutras épocas e noutros espaços. A caracterização que é feita do ambiente surge apenas em detalhes, quando conveniente às personagens, ou através da interpretação dos acontecimentos no enredo. Do mesmo modo, a grande maioria das personagens pode encarnar qualquer pessoa, em qualquer momento e local: pouco mais que o essencial é dito sobre elas, e uma grande parcela nem nomes tem, sendo referidas por características impessoais como “Médico Sem Sentimentos” ou “Filha de Pai Rico”. A única excepção é o casal protagonista, sobre o qual nos é dado a conhecer bastante a partir das suas acções e sentimentos, mas do qual não gostei. Não os considerei inverosímeis ou mal caracterizados/construídos, considerei sim com graves lacunas de personalidade, as quais os levam a desenvolver uma relação que me pareceu não de amor desencontrado, mas doentia. A sinopse não engana, então, ao mencionar uma “relação turbulenta”. Os temas que alega serem levantados é que já me parece puxar demasiado a brasa à sardinha: verdade que o são, mas não em particular profundidade ou desenvolvimento.

Durante a maioria da narração é adoptada a terceira pessoa: apenas no final o protagonista “interrompe” a narradora, dá indicação de estar consciente da sua “presença”, e pega em mãos o término da narrativa, agora em primeira pessoa. Foi neste “romper” de um ponto de vista narrativo para outro que o caldo se entornou para mim. A história, de que eu estava a gostar até ao momento, seguiu uma linha que se aproxima ligeiramente da ficção-científica. A minha reacção teria sido outra caso tivesse havido antes alguma indicação disso, ou se tivesse havido maior desenvolvimento, mas não, tratou-se de algo que caiu de pára-quedas nas últimas páginas e pronto, toma lá, leitor. Não julgo que alguns dos diálogos tidos antes tenham sido suficiente para serem considerados foreshadowing, na medida em que foram demasiado abstractos e generalistas, e ainda se perdem no meio do “mar” que avança pelo enredo.

Por fim, o que realmente me fez apreciar o livro: a escrita. Raquel Ochoa conseguiu aqui um estilo de escrita bonito, sem cair nos exageros da purple prose. Não fosse este bem conseguido equilíbrio, e provavelmente já teria encarado o livro como um “yah, está ok” em vez de um “gostei”.

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