“Ínclita Geração”, Isabel Stilwell

capa

STILWELL, Isabel – Ínclita Geração: Isabel de Borgonha, a Filha de D. Filipa de Lencastre, que Levou Portugal ao Mundo, Lisboa, Esfera dos Livros, 2013

Sinopse: Era feita de luzes e de sombras. O pintor flamengo Van Ecky havia entendido a sua essência como ninguém e pintado as linhas do seu rosto e o seu caráter, em dois quadros distintos, para mostrar ao noivo Filipe III, duque da Borgonha. Um feito de luzes, outro feito de sombras. Isabel, tal como a sua mãe, D. Filipa de Lencastre, casava tarde. E a ideia de deixar Portugal, o pai envelhecido, os cinco irmãos em constante desacordo, e Lopo, irmão de leite e melhor amigo, para partir para um país longínquo e gelado atormentava-lhe o coração. Era a terceira mulher de Filipe, já duas vezes viúvo, esperava vir a dar-lhe o herdeiro legítimo de que Borgonha tanto precisava. A sua fama de mulherengo atravessava fronteiras…

Mas Isabel sabia que nascera para cumprir um destino, ser a Estrela do Norte, que firme no céu indica o caminho. Saberia mudá-lo, torná-lo num homem diferente, acreditava Isabel. Na manga levava um trunfo que apenas partilhava com o seu irmão Henrique e com o seu fiel Lopo, na esperança de se tornar senão amada, pelo menos indispensável. Mas ao longo da sua vida, as sombras foram ganhando terreno e os acontecimentos precipitaram-se numa espiral que Isabel não conseguia travar, e de que apenas o seu filho a podia salvar. Isabel Stilwell, a autora de romances históricos mais lida em Portugal, regressa à escrita com a surpreendente história de Isabel de Borgonha, a única mulher da chamada Ínclita Geração. A geração perfeita, filhos de Avis, cantada por Camões, que marcou, cada um à sua maneira, a História de Portugal. Um romance empolgante que acompanha a vida desta mulher do século XV, que assumiu com inteligência e determinação o seu papel no governo de Borgonha urdindo alianças com França e Inglaterra, que procurou salvar Joana d’ Arc da morte, abriu os braços aos sobrinhos fugidos de Portugal, num período de tumultos e divisões. Foi aliada das descobertas do infante D. Henrique, assistindo impotente à morte do seu querido irmão D. Fernando às mãos dos infiéis… Uma mulher que nunca esqueceu que era filha de Filipa de Lencastre e princesa de Portugal.

Opinião: A minha relação com os livros de Isabel Stilwell tem sido atribulada. Depois de uma estreia em que me deixou decepcionada, seguiu-se uma segunda oportunidade que me subiu bastante as expectativas em relação à autora e, por fim, dois livros que considerei um bom, ainda que nada de extraordinário, outro novamente decepcionante. Chegada a vez deste, voltei ao patamar “bom, mas nada de extraordinário”. Apesar de o título dar a ideia de o foco ser em todos os filhos de João d’Avis e Filipa de Lencastre, o subtítulo encontra-se mais correcto: Isabel de Borgonha é a protagonista, sendo que a visão e o conhecimento que o leitor tem da Ínclita Geração une-se com a visão e o conhecimento de Isabel, a única sobrevivente feminina da “ninhada”. A caracterização de Isabel é um dos pontos fortes do livro. A duquesa é apresentada como uma mulher de personalidade forte, capaz e conhecedora, agindo ora abertamente ora nas sombras para alcançar os seus objectivos e aquilo que considera melhor para a sua família, para Borgonha e para Portugal. Apresenta defeitos, qualidades, e características que dependendo da situação são um ou outro, que lhe dão uma consistência realista, e não são forçados como razão de louvor ou censura ao leitor, mas apenas como existindo, como sendo parte da pessoa que Isabel foi, na imagem que a autora dela nos dá. A sua época também é uma das mais interessantes da História da Europa: em Portugal vive-se a questão de Ceuta, enquanto na Borgonha Joana d’Arc lidera a revolução francesa contra os ingleses.

Não achei, contudo, que a personagem e o seu contexto estivessem aproveitados em todo o seu potencial, essencialmente devido ao estilo narrativo. Apesar dos diálogos e da descrição de vários episódios, a autora opta por, com frequência, dizer que a personagem sentiu X ou que se deu o acontecimento Y: há um desequilíbrio entre o tell e o shownão tanto por a autora abusar de um em desfavorecimento do outro, como é mais costume de encontrar, mas por me parecer não escolher tão bem quando é mais vantajoso usar um em vez do outro.

Mais interessante do que encarar este livro de forma independente, contudo, é compará-lo com D. Filipa de Lencastre. O livro mencionado é o primeiro livro publicado da autora, tendo como ponto principal a mãe da protagonista de Ínclita Geração, último livro publicado da autora até ao momento. Fazê-lo permite notar a evolução da autora, sendo dois pontos os que mais se destacam: a caracterização da protagonista, que em D. Filipa estava muito próxima de “endeusificação” – ao passo que neste já a apresenta como mais realística – e o estilo narrativo, que em inícios de carreira continha expressões modernas, desadequadas a um romance histórico, e falha que agora já não encontrei.

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