“Histórias de Amor”, Rubem Fonseca

capa

FONSECA, Rubem – Histórias de Amor, Porto, Campo das Letras, 1999

Sinopse: O título romântico deste livro dificilmente enganará os leitores de Rubem Fonseca. São histórias de amor, certamente, mas sem o sentimentalismo convencional do gênero. Nas mãos de Rubem Fonseca, um anjo da guarda exorbita de suas funções, o amor de Jesus no coração pode ter conseqüências trágicas, a esposa submissa de um bandido é capaz de pedir-lhe uma violência inaudita como prova de amor, o amor de duas mulheres resulta numa busca desesperada de vida em comum, uma lua-de-mel que tem tudo para acabar mal é salva pela aceitação da imperfeição humana do Outro, os planos homicidas de um casal de amantes sofrem reviravoltas irônicas. De inequívoco, resta o amor.

Opinião: Sete contos de tamanhos variados, tendo em comum o tema “amor”. Não é, no entanto, o amor que usualmente se espera, mas sim facetas que quando representadas na arte são-no como secundárias. Aqui, ganham o foco principal, desenvolvidas num estilo bastante próprio, em que o autor parece brincar e fazer experiência com o formato da literatura.

Betsy: Um curtíssimo conto construído propositadamente para chegar ao twist final. Torna-se particularmente apreciável à segunda leitura, quando compreendemos a dubiedade de todas as palavras que julgávamos ser bastante claras.

Cidade de Deus: Se o conto anterior deixa o leitor numa tristeza enternecedora, esta explora uma faceta do “amor” de causar arrepio na espinha. Uma perspectiva out of the box para quem pega num livro intitulado “Histórias de Amor”, e que dificilmente encaixada na noção que eu tenho de amor, mas potente.

Família: Conto em torno de um casal homossexual – e que se depreende bastante no início, quando a amizade das meninas ainda está em desenvolvimento – e da pressão social que existe para uma mulher casar e ter filhos, preferencialmente um varão “que herde”. Com algo que se justifica como caridade, o velho é eliminado para dar lugar ao novo.

O Anjo da Guarda: Novamente um conto construído com o propósito de chegar ao twist final. Tem um estilo desprendido e de parágrafos curtos, onde os discursos directo e indirecto se encontram separados apenas por parágrafos, e pela formulação do sujeito e do verbo.

Noite de Núpcias: O setting é estabelecido no início para ser desconstruído e subvertido à medida que o conto avança, e o reconhecimento da imperfeição humana do outro salva um casamento aparentemente perfeito, estando longe de o ser. A nível da forma destaca-se a numeração dos trechos, e o uso de vocábulos ingleses quando adequados.

O Amor de Jesus no Coração: Um conto de assassínio, mistério e fanatismo religioso. O final dá sentido ao título, desviando também o foco de atenção do assassinato para o fanatismo: inverte os elementos secundário e primordial.

Carpe Diem: O conto mais longo da antologia, e também aquele onde mais “experiências” o autor parece realizar com a forma. Irónico e divertido.

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