Fornada de Contos V

Opinião a doze contos publicados de forma independente e disponibilizados gratuitamente no Smashwords. Convosco, senhoras e senhores, os autores Carina Portugal, Ana C. Nunes, Ágata Ramos Simões, Manuel Alves e Olinda P. Gil.

“Duas Gotas de Sangue e um Corpo para a Eternidade”, Carina Portugal: Alicerçado numa boa estrutura, o conto apresenta um bom enredo e uma ideia-base interessante das personagens, em particular as gémeas. Contudo, tanto as personagens (sua natureza e acções) como os acontecimentos poderiam ter sido mais subtis no seu desenvolvimento, dados a entender ao leitor em vez de descritos preto no branco. Tal influenciou a sensação de as coisas se sucederem sem aviso prévio, de que são exemplo o desgosto de Cris pelo irmão – que a ser introduzido mais cedo não só teria feito mais sentido, como teria dado tempo de lhe atribuir uma razão mais sólida –, e a coincidência do aparecimento do novo xerife e a sua ida à casa das gémeas na noite do assassinato.

“Coração de Corda”, Carina Portugal: Mais uma vez, um conto que se destaca pela sua estrutura, desta vez aliada a um bom uso de elementos steampunk, tanto na ambientação como nas personagens e no enredo. Gostei em particular do twist final em relação às verdadeiras intenções e motivações do protagonista, mas as suas tendências altruístas poderiam ter sido melhor dadas a entender, torna-las conhecimento também do leitor e não apenas daquelas personagens que lhe são próximas, de modo a torná-lo mais consistente. Considerei ainda que seria de mais-valia desenvolver melhor as motivações do vilão.

“A Heroína e o Guerreiro”, Ana C. Nunes: Trata-se de uma paródia aos clichés de aventura e fantasia, em especial a alguns conceitos de personagens e suas respectivas vestimentas. Contém algumas vírgulas mal colocadas, mas nenhuma “falha técnica”, salvo seja, de maior. Uma leitura rápida e bem-disposta, acompanhada por ilustrações da própria autora.

“A Maldição do Ventre”, Ágata Ramos Simões: A história de um monstro canibal, dos seus pais, e do que lhe sucedeu. A narração por vezes alonga-se desnecessariamente, mas é boa no geral e contém um forte traço irónico.

“Vénus 12”, Manuel Alves: Sexo, acção, mistério e falta de escrúpulos em negócios são os elementos primordiais deste conto. Nota-se, ao longo da leitura, que a única função de alguns diálogos é apenas dar informação ao leitor, e com excepção de Vénus 12 e Ana, a maioria das personagens é unidimensional. O enredo, bem estruturado e desenvolvido, é o melhor conseguido do conto.

“Orin”, Manuel Alves: A criação, do Nada ao Tudo. Uma narrativa longa e psicológica, que usa noções que temos como diárias e nem as pensamos, aliadas à criação bíblica. Não gostei de algumas das ideias usadas como sendo verdades, e considerei-o demasiado longo. Nota-se, também, algumas falhas de pontuação. A forma de escrita é, no geral, aprazível, e o processo de consciencialização e criação está bem expresso.

“A Linha Recta do Corvo”, Manuel Alves: Possivelmente o conto do autor para o qual maiores expectativas tinha, mas fiquei desiludida. A sinopse dá mais importância ao aviso do corvo do que este realmente tem: poucas vezes é referido, nunca explicado, e pouca importância tem na história. Mesmo a sua aparição final é irrelevante, na medida em que tanto o leitor como o protagonista se apercebem da “revelação” que o corvo supostamente traria consigo antes da sua aparição. A narração engonha com um excesso de repetições (já percebemos que o gordo é gordo, que custa metê-lo na cova, e que Lince não gosta lá muito disso), e detalhes desnecessários (a origem familiar de Lince em nada influenciou a história), deixando de lado, por sua vez, respostas não dadas que seriam de maior interesse: quem e por que querem matar Lince, por exemplo? Por que é ele avisado pelos corvos? Numa nota mais positiva, gostei da escrita irónico, reflexo da personalidade de Lince, e do twist final, que apesar de perceptível antes de verdadeiramente “lançado”, não deixa de estar bem conseguido.

“Legado Vermelho”, Manuel Alves: Início lento e final apressado. Julgo que teria sido melhor descrever os acontecimentos da guerra com os dragões, em vez de os narrar. As personagens pareceram-me unidimensionais, faltando-lhes maior consistência e desenvolvimento. A ideia-base é boa, mas deixa perguntas por responder (dois irmãos para manter a Humanidade viva noutro planeta?)

“Equador Morto”, Manuel Alves: Um wordbuilding que desperta a curiosidade, com um enredo cimentado numa boa estrutura, e personagens que prometem. Deixa, contudo, a sensação de se tratar mais do começo de uma história maior do que propriamente um conto.

“Coração Atómico”, Manuel Alves: Uma história pequena num universo maior. “Amorosa” é o primeiro adjectivo que me vem à cabeça, contendo ainda diálogos curiosos. De certo modo, fez-me lembrar “O Soldadinho de Chumbo”. Abusa um pouco dos itálicos.

“Lili”, Manuel Alves: Um conto para crianças que também agrada a adultos. As personagens são cativantes, a linguagem é adequada sem ser redutora, e a história está bem imaginada, apresentada e conduzida.

“Na Estrada de Mértola”, Olinda P. Gil: Uma narrativa curta de suspense e terror onde o leitor fica até à última com esperanças de que a coisa reverta a favor da protagonista. Com uma escrita geralmente aprazível, vez ou outra parece haver um deslize, ora por tentativa de complexidade que acaba sem sentido (“Filomena sentiu nesse momento uma tontura a subir-lhe pelo estômago”?), ora por frases mal formuladas (“Teria o homem tinha recuperado e se levantado?”).

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