Fornada de Contos II [Fantasy&Co]

Por razões pessoais (no estilo “tenho viajado que me farto”), o blog não tem tido grandes actualizações, é verdade, mas como com snackstambém se engana a fome, eis mais um dezena de contos, onde o Fantasy volta a dominar. Fazer o quê? É onde os encontro de graça e com regularidade. Temos então os autores Pedro Pereira, Pedro Cipriano, Carlos Silva, Vitor Frazão, Carina Portugal e Sara Farinha.

“O Túmulo de Cristal”, Pedro Pereira: Um conto de scifi através do qual espreitamos para um mundo mais vasto do que aquilo que era possível colocar num conto. O enredo decorre a um ritmo lento, havendo uma repetição da palavra “cristal” e as personagens pouco interesse despertam no leitor. Já o wordbuilding tem bases bastante boas, com uma Igreja autoritária cujos deuses talvez não sejam tão divinos quanto isso, e a origem e conceito do próprio Mar de Cristal.

[“é que toda água se” a água]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/o-tumulo-de-cristal/

“O Guarda-Livros”, Pedro Cipriano: O conto parece desenvolver-se a dois níveis: o do livreiro, e o do worlbuilding. Na primeira parte é-nos introduzido Carlos, o livreiro, e o conhecimento de que Portugal deixou de existir, encontrando-se os territórios do que antigamente era um país em guerra constante – como consequência, uma entre várias, todo e qualquer livro que demonstrasse Portugal como país uno tornou-se proibido.

Durante as duas partes que se seguiram, em que Carlos, ante um bombardeamento inimigo, fica preso com os vizinhos no abrigo do prédio, desejando o resgate e simultaneamente temendo que o mesmo leve à descoberta dos livros escondidos, pareceu-me que o mesmo era utilizado como ponto de partida para expor o wordbuilding, a situação de futuro ficcional criado pelo autor. Na última parte, contudo, a personagem volta a ganhar maior relevância, demonstrando uma evolução (ou regressão, conforme o leitor o interprete), fruto das experiências vividas.

A nível da narração, esta não se destacou nem positiva nem negativamente, com excepção das partes 2 e 3, em que os saltos temporais não detinham qualquer marca distintiva, o que por vezes levou a confusão, obrigando à releitura do trecho.

[“A som estridente” O som (2/4); “vicissitudes da vida tinha ditado” tinham (3/4)]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/o-guarda-livros/

“A menina que não digeria os livros”, Carlos Silva: Qualquer coisa que na sua primeira frase tenha “Harry Potter” apanha-me de imediato a atenção. À medida que o conto avança, contudo, torna-se perfeitamente capaz de a manter por si mesmo: porque é uma crítica algo humorística de uma situação actual, tornando o metafórico no literal, que se tem vindo a desenvolver na blogosfera e que já vi muitas vezes a causar confusão. Esta foi a abordagem que mais apreciei, fazendo lembrar o utilíssimo conselho de Gaiman: make good art.

[“sobre mesinha” sobre a; “página e mansinho” de mansinho]

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/06/18/a-menina-que-nao-digeria-os-livros-carlos-silva/

“A Escuridão”, Pedro Cipriano: O conto contextualiza-se num cenário apocalíptico, onde a situação actual ainda é incerta, centrando-se num grupo de cientistas e militares fechados no que me pareceu ser um centro de pesquisa, dado que o ar exterior os levaria à sua morte. Até que se verifica uma série de assassínios, demonstrando que também no interior se encontram em perigo. Infelizmente, não me achei que o mistério se encontrasse bem aproveitado, e o triângulo amoroso Rui-Rita-Débora é dispensável e pouco contribui para o enredo.

[“com intuito ver familiares” de ver; “Milhares de linhas com definiam” com o quê? (1/5)]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/a-escuridao/

“Roy just wants to have fun”, Vítor Frazão: Um conto vampiresco que vira as ideias pré-concebidas do avesso, numa escrita descontraída e quase irónica. Simples e eficaz.

[“era capaz tirar-lhe as” de tirar-lhe]

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/roy-just-wants-to-have-fun/

“Pão para a alma”, Sara Farinha: Um dos poucos medos universais que será capaz de ladear o medo da morte é provavelmente o medo de uma degeneração e atrofiamento lentos, tanto do corpo quanto do espírito. Neste conto, a autora visualiza um futuro onde a raça humana se encontra a caminhar lentamente para a extinção exactamente através dessa degeneração. Miguel, no entanto, não desiste de encontrar de procurar a cura, sendo nessa insistência que encontra a pior das degenerações.

Um bom tema para exploração, em que o final incerto resultou a favor.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/pao-para-a-alma/

“Pele de escrava”, Carina Portugal: Com a escravatura, os abusos que esta trouxe sobre muitos, e o desejo de liberdade como base, o conto assume ainda um cariz de fantasia que muito levou ao desenvolvimento do enredo. Não sendo particularmente original, é uma leitura que agrada.

http://blocodedevaneios.blogspot.co.uk/2013/08/conto-pele-de-escrava-de-carina-portugal.html

“Embalada no teu silêncio”, Sara Farinha: Numa ideia simples, revolve em torno do amor entristecido entre um selkie e uma mulher. Os diálogos constituem-se por frases curtas, julgo que exactamente numa tentativa de acentuar a tristeza e uma certa hesitação gerada por culpa, pelo saber de não ser aquilo o melhor. Não me pareceu que o seu desenvolvimento fosse dos melhores, e volta e meia há um exagero na purple prose.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/embalada-no-teu-silencio/

“Perdidos”, Carlos Silva: Encontramos aqui os atritos e arrependimentos entre casais que já se tornaram comuns nos dias actuais, não apenas pela situação em que se encontram, mas também pelos factores que elevaram à sua existência – perfeitamente encaixados num conto de sci-fi, com a escrita sem falhas a apontar que já se espera do autor. Apesar da simplicidade do momento apanhado e de o fim se tornar esperado a partir de certo momento, tem um resultado final favorável.

http://fantasyandco.wordpress.com/2013/08/08/perdidos-carlos-silva/

“Estilhaços”, Carina Portugal: Há alguma coisa de atractivo em histórias sobre casas assombradas, e ainda mais quando temos criancinhas desobedientes pelo meio. Pareceu-me, no entanto, que a autora conseguiu utilizar bem os elementos que tinha para funcionarem a favor do conto, tanto na parte que mais se assemelha a um mito que se conta à beira da lareira em noites de Inverno, como no final, que apesar de já adivinhado, não deixou de manter a atenção e interesse do leitor.

http://fantasyandco.wordpress.com/category/contos/estilhacos/

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