“Filipa de Lencastre: A Rainha que Mudou Portugal”, Isabel Stilwell

capa

STILWELL, Isabel – Filipa de Lencastre: A Rainha que Mudou Portugal, Lisboa, Esfera dos Livros, 2007

Sinopse: Filipa de Portugal morreu de peste negra, tal como a sua mãe, a 15 de Julho de 1415. Com 55 anos. No dia 25 partiam de Lisboa 240 embarcações e um exército de 20 mil homens, entre os quais D. Duarte, o Infante D. Henrique e D. Pedro. A Praça de Ceuta caía cerca de um mês depois. D. Filipa não esperaria outra coisa dos seus filhos… Mulher de uma fé inabalável, conhecida pela sua generosidade, empreendedora e determinada a mudar os usos e costumes de uma corte tão diferente da sua, Filipa de Lencastre deu à luz, aos 29 anos, o primeiro dos seus oito filhos. A chamada Ínclita Geração, que um dia, como ela, partiria em busca de novos mundos e mudaria para sempre os destinos da nação. Frei John, o tutor já tinha previsto o seu destino nas estrelas. Nasceu Phillipa of Lancaster, filha primogénita de John of Gaunt, mas aos 29 anos deixou para trás a sua querida Inglaterra para se casar com D. João I de Portugal. A 11 de Fevereiro de 1387 o povo invadiu as ruas da cidade do Porto para aclamar carinhosamente D. Filipa de Lencastre, Rainha de Portugal. Num romance baseado numa investigação histórica cuidada, Isabel Stilwell conta-nos a vida de uma das mais importantes rainhas de Portugal. Desde a sua infância em Inglaterra, onde conhecemos a corte do século XIV, à sua chegada de barco a Portugal onde somos levados numa vertigem de sentimentos e afectos, aventuras e intrigas.

Opinião: O livro divide-se em duas partes: a primeira centra-se na infância e juventude de Philippa enquanto solteira e princesa de Inglaterra, com especial atenção aos acontecimentos revolvendo o pai da jovem. A segunda narra a vida de Filipa em Portugal, o casamento, o reinado e os filhos, a quem mais tarde se chamou “a Ínclita Geração”. A vida e o contexto desta rainha são sem dúvida interessantes, capazes de fascinar o leitor e despertar a sua curiosidade. E apesar de haver sempre um pézinho atrás ante aquilo que nos chega sobre figuras históricas – afinal, registos não só não chegam todos, como expressam sempre o ponto de vista de alguém –, as probabilidades e o imaginário indicam Filipa como tendo sido uma mulher de admirar, e sem dúvida com um grande potencial enquanto protagonista de um romance histórico.

No entanto, não fiquei completamente agradada com esta leitura, essencialmente por três motivos: a construção das personagens, a forma de narrar o encadeamento dos acontecimentos, e a própria maneira de escrever.

Naturalmente que a autora pesquisou antes ou mesmo durante a escrita. Conhecia as figuras históricas e os acontecimentos que as envolviam, algo essencial no género a que o romance pertence. Contudo, tal também fez com que pegasse em algumas características mais marcantes, e, em alguns casos, fosse unicamente isso o que demonstrasse nas personagens do livro. Em consequência, estas perderam complexidade e tornaram-se previsíveis e unidimensionais. Tornou-se difícil estabelecer qualquer tipo de empatia com elas: ao longo da minha leitura, não se materializaram para mim, nunca chegando a ser mais do que palavras em papel, mesmo quando algum acontecimento as magoava ou alegrava em profundidade. Senti-las como sendo um reflexo dos actos que lhes ficaram conhecidos, e não como os seres humanos que exerceram esses actos fez com que me fossem indiferentes.

Quanto à narração dos eventos, senti existir um desequilíbrio. Ora saltava de um acontecimento importante para outro, sem que a ponte entre ambos fosse apresentada ao leitor, ora se alongava em pensamentos e considerações constantemente em torno do mesmo temor ou convicção – neste último caso, a intenção seria, com certeza, consciencializar bem o leitor dos medos e convicções que moviam as personagens, mas não confiou na capacidade perceptiva do receptor e abusou.

Por fim, a linguagem com que o romance foi escrito: na narração de uma acção que se passa no século XIV/XV, com personagens do século XIV/XV, não consegui ver com bons olhos os maneirismos e expressões do Português do nosso tempo. Tanto na narração em si quanto nos diálogos das personagens. Isso, mais do que o já mencionado, foi o que mais contribuiu para me fazer torcer o nariz ao longo da leitura. Impediu a ambientação na época e, por consequência, no romance e na leitura.

“D. Filipa” foi um romance que não esteve à altura das expectativas. Infelizmente não é o primeiro da autora que não o consegue fazer: “D. Amélia”, também de Isabel Stilwell, foi um livro que me elevou bastante a fasquia no que se refere a esta autora, e talvez esteja aí uma quota-parte da razão do defraudamento. As restantes partes estão nas razões que foram acima expostas. Resta-me a confiança de que tal fasquia nas expectativas não seja demais para o romance mais recente da autora, e outros que ainda venha a publicar.

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