“Face Negra”, Elizabete Cruz

capa

CRUZ, Elizabete – Face Negra, [Porto], Elizabete Cruz, 2013

Sinopse: Esta podia ser a história de uma menina amorosa e inocente marcada pelo passado. Mas não, esta é a história de Daniela, a rapariga que sobreviveu a esse passado e se tornou naquilo que nunca pensaria ser, não olhando a meios para atingir os fins. Para tal conta com a ajuda do seu bizarro melhor amigo, que daria tudo para dormir com ela, e que é bem mais do que aparenta ser. E ainda tem Dyre, o seu primeiro amor e actual namorado, que definitivamente não a conhece.

Ela julgava-se forte, perspicaz e dona do seu destino. Mas o destino provar-lhe-á que estava errada. Alguém com tantos segredos, artimanhas, rancor e maldade dentro de si não poderá ter um final feliz. E o reaparecimento de um fantasma do seu passado levá-la-á a fazer algo extremo e irremediável, fazendo-a perceber que os fins nem sempre justificam os meios.

Conheçam Daniela, a jovem e inocente estudante de Medicina, que encerra em si uma terrível face negra.

“Um dia vais acordar, e não vais ter nada além de arrependimentos.”

Opinião: “Face Negra” é essencialmente a história de Daniela – começa por nos estabelecer a sua situação familiar e a sua infância, onde uma inocência domina apesar do abandono pela mãe dela e dos irmãos, e das dificuldades de uma criança criada num orfanato. Um ponto de viragem, no entanto, ocorre numa viagem oferecida por uma amiga, e a partir daí é-nos apresentada uma Daniela que não olha a meios para atingir os fins – uma atitude que parece dar os seus frutos.

Contudo, os problemas quando surgem fazem-no em cascata, levando-a a atitudes cada vez mais negras, acompanhadas de um despojar de sentimentos. À medida que tal acontece, compreendemos que o título se encaixa em algo bem mais grave – e negro – da sua personalidade, do que os empregos como stripper e prostituta de que Daniela vive, como ao princípio é dado parecer.

Durante a narração, a autora aborda temas como o abandono infantil, famílias destruturadas, prostituição, toxicodependência, síndrome de Down e os problemas que acompanham aqueles que têm as capacidades mas não os meios. Todavia, estes não têm o desenvolvimento nem o aproveitamento que os levaria de quase referência a mais-valias essenciais ao livro, o que por vezes leva inclusive ao questionamento por parte do leitor – um exemplo começa logo pelo porquê de Daniela não ter direito a bolsa para continuar os estudos na Faculdade. Dada a situação económico-social dela, e as suas notas suficientemente boas para entrar na Faculdade de Medicina do São João, porquê que não tem hipóteses de conseguir uma? É-nos dito simplesmente que não tem, não havendo qualquer justificação.

A narração encontra-se na terceira pessoa, acompanhando várias personagens, contudo, Daniela é aquela que mais predomina, levando a que seja a sua perspectiva a que mais determina o curso da história. Como personagem principal, Daniela tem potencial. Apesar da quantidade de personagens que no fundo gostam dela e insistem na ideia de que apesar de tudo ela tem bom coração – e espero que tal não tenha sido por se tentar convencer o leitor disso –, ela é a vilã da sua própria história, assumindo esse papel não só em relação aos outros, mas para consigo mesma. Também por isso me desiludiu o final, que apesar das dificuldades temporárias, a livrou das consequências dos seus actos.
Sobre as restantes personagens, pareceu-me haver a mesma falha já mencionada anteriormente sobre outros aspectos: faltou-lhes desenvolvimento, uma importância por si mesmas e não apenas em relação a Daniela, de quem são dependentes. Um ponto positivo, é que apesar de inicialmente haver infodump sobre as personagens, este fica-se aqui, acabando por haver uma distribuição mais equitativa da informação à medida que a história avança.

No que respeita ao estilo narrativo, este é adequado a uma faixa etária jovem, havendo no entanto algumas arestas a limar: o vocabulário utilizado varia pouco, dando uma ideia de repetição, e predominando “lá fez isto, lá fez aquilo” ou “mas no entanto”. No primeiro caso, o “lá” transmite uma ideia de desleixo e contrariedade que uma vez por outra não levanta problemas, mas em excesso, destaca-se pela negativa, além de ser um recurso mais adequado ao discurso directo que ao indirecto. No segundo, ao utilizar-se “mas” ou “no entanto” já se está a transmitir a ideia de contrário, sendo o seu uso em simultâneo um duplicado desnecessário. Um outro exemplo, mas de vocabulário mal escolhido, é “o hotel ficava colocado” – “colocado” dá ideia que alguém pegou no hotel e o colocou lá, enquanto “situado”, por exemplo, seria uma opção mais correcta.
O que para mim se tornou num dos pontos mais positivos no livro foi a contextualização – a maioria dos eventos decorre no Porto, tendo tido a autora o cuidado de inserir descrições da cidade em geral, e da vida académica em especial, não esquecendo a Queima das Fitas. Não posso é deixar de ressalvar a diferença entre um anti-Praxe, que é contra a Praxe, e um não-Praxe, que não participando, também não é contra.

Trata-se, portanto, de um livro cuja proposta chama a atenção, estando, no entanto, ainda aquém do seu potencial, o qual poderá ser bastante desenvolvido caso se aposte mais na parte psicológica e no maior desenvolvimento dos temas que já escolheu abordar.

O livro, edição independente, pode ser adquirido directamente com a autora através do email awonderfulworld2@gmail.com, ou no linkhttps://www.smashwords.com/books/view/328753  para versão em ebook.

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