“Exilados”, Manuel Arouca

capa

AROUCA, Manuel – Exilados, Lisboa, Esfera dos Livros, 2010

Sinopse: O brilho dos seus olhos tinha-a marcado para sempre. Cecília era casada com um homem que não amava, era herdeira do império financeiro Mendes Silva que se estendia até Angola e, sabia que a agitação política que se vivia em Portugal, depois da revolução do 25 de Abril de 1974, ameaçava fazer ruir o mundo em que vivia. Manuel Arouca traz-nos a história dos Exilados, dos muitos portugueses que se viram obrigados a abandonar Portugal, com destino ao Brasil, depois de verem nacionalizados os seus negócios, as suas contas bancárias congeladas e as suas casas ocupadas, com a Revolução dos Cravos. Ali encontraram um porto de abrigo, um país novo, com costumes diferentes, onde, do zero, tiveram de reconstruir as suas vidas. Quando desembarcou no Rio de Janeiro Cecília sabia que o futuro dos Mendes Silva estava nas suas mãos. Era ela que teria de recomeçar do nada. Mas entre a tentadora praia de Ipanema, o conhecido restaurante do Copacabana Palace, ou a imagem apaziguadora do Cristo Redentor Cecília não conseguia esquecer a imagem daqueles olhos marcados pela tragédia. Tinha de descobrir José, resgatá-lo da sua dor, estender-lhe a mão e, quem sabe, libertar-se das regras sociais que a estrangulavam, de um marido que a traía e a desrespeitava e aprender, de uma vez por todas, a ser feliz.

Opinião: As nacionalizações levadas a cabo após o 25 de Abril trouxeram a ruína a muitas famílias que de um momento para o outro viram-se sem nada, acusadas de fascistas e reduzidas à pobreza, quando não presas. É com este ponto de partida que Manuel Arouca desenvolve o seu romance, pegando numa família que num repente vê o fruto do trabalho de gerações ser-lhes roubado, tendo de recomeçar do zero. Fá-lo, entre outras estratégias, através da acção de Cecília, filha da actual “cabeça” da família, que, deixando o marido em Portugal, viaja para o Brasil de modo a prosseguir (ou renascer) nesse país os negócios bancários dos Mendes Silva.

Cecília representa uma mistura da mulher ideal daquele tempo (pelo menos) – enquanto preserva os valores morais com os quais foi educada, os seus pensamentos e atitudes representam-na também como uma mulher moderna e sofisticada, implacável nos negócios, capaz de equilibrar o melhor das duas realidades. No geral, é uma personagem forte, que falha apenas no campo amoroso: com isto não me refiro aos riscos que correu para reabilitar, até mesmo salvar, José, o homem de estatuto social inferior pelo qual se apaixonou, mas sim pela incapacidade de pedir o divórcio ao marido, mesmo depois de saber da sua hipocrisia e maquinações. Cecília acaba por o fazer, mas não por ela – apesar de ter estado várias vezes próxima de o fazer para bem dela mesma, o que na verdade lhe deu o empurrão foi encontrar José, sabê-lo livre e também apaixonado por si. Ou seja, o que a levou a libertar-se foi a força de outro homem, e não dela mesma. Não posso fingir que tal não me decepcionou, ainda para mais quando esteve tão perto de o fazer, e em tudo o mais ela se mostrou como uma mulher cuja força era ela mesma.

O próprio início da paixão de Cecília e, mais tarde, José, não me convenceu, tal como não me convenceu o início do romance secundário de João e Juliana. Tratou-se de algo demasiado repentino, forçado… Novelesco – aliás, uma característica que polvilha pela generalidade do romance. Não me admiraria nada em o ver adaptado a novela, e com sucesso. O drama dos episódios que estamos habituados a ver no pequeno ecrã encontra-se aqui por todo o lado, até mesmo na passagem do foco de atenção de uma personagem para outra, que por vezes chegava a acontecer de um parágrafo para outro, estando nós no primeiro com uma, e no segundo com outra num espaço geográfico completamente distinto.

Num ponto mais negativo, não posso deixar de referir a quantidade de gralhas que não esperava encontrar num livro d’ “a esfera dos livros”. Que aconteceu na revisão para não se notar a falta de artigos, letras, pontuação?

Por fim, e porque o que de bom também deve ser destacado, a descrição dos locais – quer directa quer indirecta – revela-se um talento do autor. As cores de África encontram-se bem presentes e rapidamente se atravessam para o leitor, enquanto a instabilidade do Portugal revolucionário também não fica de fora. Mas o Brasil… O Brasil deu-me vontade de emigrar para lá, e comparando com as minhas próprias experiências, tratou-se quase de um recordar.

Em tudo isto temos um leque de personagens distintas que marcam com mais ou menos ênfase a história, pouco significando para o leitor, e procurando representar não apenas uma variedade de ideias e educações, mas sobretudo de modos de agir.

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