Da arte de enviar emails

Enviar um email não é o mesmo que começar uma conversa num chat. O contexto é diferente, o objectivo é (maioritariamente) diferente, a linguagem também deveria ser diferente: especialmente quanto o email não se destina a enviar a um amigo aqueles apontamentos bestiais que arranjamos daquela disciplina do Diabo que ninguém consegue fazer, mas sim a assuntos mais ou menos comerciais, mais ou menos formais, mais ou menos laborais, mais ou menos isto, mais ou menos aquilo… Ou mesmo totalmente tudo isto. Por conseguinte, saltam-me os olhos das órbitas com casos em que um email começa por “Oi como vais” (sem o ponto de interrogação, vírgulas e que tais) e avança num gatafunho de letras comidas, abreviações internáuticas e tratamentos de quem deve ter sido colega na tropa, lá nos grandesRangers de Lamego.

“Ó Maria Inês, mas isso são coisas óbvias, caramba!”, dizem vocês, que são pessoas com lógica e bom senso, e não tratam o desconhecido como se fosse o amigo de longa data, inseparável desde o infantário, ou se lhe dirigem com o vocabulário do gangster lá do sítio. São, pois são, mas nem isso previne que tal aconteça.

Há uns meses, deu-se a situação de ter de trocar uma quantidade de emails num contexto que, sendo a pessoa em questão desconhecida e de haver contrato envolvido – um negócio, portanto –, considerei haver razão para um tratamento, pelo menos, semi-formal. Em resposta, recebia textos alérgicos ao uso de maiúsculas (fosse o valter hugo mãe, e eu teria compreendido, mas não, não era), sem qualquer tipo de cumprimento e despedida, e uma total falta de pontuação, chegando ao ponto de eu ter de fazer um esforço desmesurado para traduzir o que ainda hoje suspeito ser uma variante manhosa do Português. A pessoa em questão era um editor – e logo ali decidi nunca mais assinar fosse o que fosse com a editora em questão. Pois se um dos seus editores não era capaz de escrever convenientemente num simples email! A situação teria sido outra caso estivéssemos a trocar mensagens numa rede social, mas não, não foi o caso, não havia essa atenuante. A minha confiança naquela editora morreu ali, e nem com o funeral me preocupei.

Esta situação é apenas um exemplo das consequências que a falta de noção da linguagem apropriada a cada situação pode acarretar. Eu não chego ao pé dos meus professores/patrões/orientadores com a mesma linguagem que tenho perante os meus amigos/familiares. Qualquer pessoa com um mínimo de noções sociais faz o mesmo. Se eu, iniciante, sem qualquer tipo de rendimento da escrita, sem grandes reconhecimentos, recuso voltar a tratar com uma editora que não sabe escrever emails, que farão os grandes autores? É cavar a própria cova, perfumá-la, e chafurdar nela.

E por isso, deixo alguns pontos que deveriam ser básicos e instintivos:

1 – Cumprimentar e despedir

É verdade que por vezes chego ao pé de alguém começando logo a falar – no entanto, é algo que faço com alguns poucos escolhidos, quando assim o calha. De um modo geral, é considerado rude saltar o cumprimento ou meter-se na alheta sem dizer “água vai”. O mesmo serve em relação aos emails, com a possível excepção dos amigos e familiares, dependendo do tipo de relação em questão.

2 – Em caso de dúvida, formal ou semi-formal

Mais uma vez, excepção para os amigos e familiares. Mas aquela pessoa que não te conhece de lado nenhum, aquele email laboral, aquela situação no limbo que não tens bem a certeza que estilo adoptar… Formal ou semi-formal, alterando depois consoante o tipo de resposta recebida.

3 – Pontuação

Porque eu vou começar a esganar quem finge que ela não existe! Lembram-se daquele testamento cujo autor morreu antes de o pontuar, e que cada um dos possíveis beneficiários pontuou conforme lhe era mais conveniente, causando uma salgalhada do catano? É um dos exemplos que os professores primários dão aos seus pequeninos alunos para estes compreenderem a importância da pontuação, o quanto esta pode alterar o significado e a compreensão de um texto, e caramba, é um exemplo que funciona.

4 – Evitar abreviaturas

Ou escrita similar à que a juventude gosta muito de levar para facebooks, twitters, ask.fm, tumblrs, e todas as demais redes sociais, com a possível excepção do hi5, apenas e só porque este se encontra às moscas. Já ocorreu que quem está do outro lado, mesmo o amigalhaço das cervejas, pode não fazer ideia do que aquilo significa? Até o “yolo” eu já tive de explicar o que era, e numa altura em que já estava mais do que disseminado.

5 – Assunto

Evitar o (Sem Assunto), fazendo-o ir directo ao ponto, nem demasiado extenso, nem tão enigmático que tê-lo ou não tê-lo vai dar ao mesmo.

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