“D. Sebastião e o Vidente”, Deana Barroqueiro

capa

BARROQUEIRO, Deana – D. Sebastião e o Vidente, Porto, Porto Editora, 2006

Sinopse: As vidas de el-rei D. Sebastião e Miguel Leitão de Andrada entrelaçam-se desde o nascimento até ao desastre de Alcácer-Quibir.

O rei-menino, corajoso mas ingénuo, e o leal fidalgote de Pedrógão Grande, reconhecido na região como vidente e protegido de Nossa Senhora da Luz, vêem-se implicados numa secreta e perigosa intriga de espionagem, com contornos sexuais.

O rei mais desejado de toda a nossa história é, apesar de todas as esperanças da nação, um órfão falto de afectos, criado e educado por velhos, como a avó sedenta de poder e o tio cardeal, ambicioso e fraco. Caprichoso e insolente, D. Sebastião cresce atormentado pelos seus traumas e complexos de adolescente, sublimados nos sonhos de glória de mancebo visionário, senhor de um poder absoluto que o arrasta ao desastre, profetizado pelas dolorosas visões de Miguel Leitão de Andrada.

Este romance fascinante foi construído a partir de uma rigorosa investigação de fontes históricas documentais – portuguesas, espanholas, italianas, francesas e holandesas – e condimentado pela exuberante imaginação de Deana Barroqueiro.

Opinião: Dividida em quatro partes – cada qual com um poema de Pessoa – e avançando com capítulos curtos, a obra inicia a sua narração aquando o nascimento de D. Sebastião, momento pressentido por Miguel, o Vidente, e desenvolve-se até aos momentos finais da batalha de Alcácer Quibir. Ainda que usando estas duas personagens, as suas vidas privadas, momentos do dia-a-dia, desejos, birras, esperanças e acontecimentos cruzados, como âncoras para o enredo, este não deixa de abordar uma grande variedade de factores caracterizadores daquela época e reinado, sejam os meandros políticos, as dificuldades económicas, as teias conspirativas, o cortejo de donzelas e a literatura – representada em Camões – entre outros.

A maior falha, parece-me, encontra-se nas personagens – a grande maioria dos seus sentimentos são-nos dados a conhecer porque nos é dito e não porque nos é demonstrado. Tal levou a que não criasse empatia com nenhuma delas, tendo como consequência a falta de interesse pelos seus destinos.

Já o estilo de narração procura um equilíbrio entre o Português da época e que simultaneamente seja perceptível ao leitor actual. Apesar da necessidade do uso de notas de rodapé para esclarecer alguns vocábulos – as quais são fornecidas –, no geral não causa problemas de compreensão, tendo sido bem conseguida. Torna, no entanto, a leitura mais morosa, consequência para a qual também contribuiu a profusão de detalhes. É ainda de salientar que o narrador, heterodiegético, não se limita a narrar a história, fazendo de vez em quando apartes dirigidos especificamente ao leitor que, não causando estranheza por manter o estilo narrativo, servem como pequenas explicações, aprofundamento da informação fornecida pelo diálogo entre personagens, ou pedidos de desculpa que denunciam a consciência da morosidade já acima referida, ou até mesmo a possibilidade de enfado, o qual é justificado não sem razão.

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