“D. Maria I”, Jenifer Roberts

maria i

ROBERTS, Jenifer – “D. Maria I: A Vida Notável de uma Rainha Louca”, Alfragide, Casa das Letras, 2009

Sinopse: A história da primeira rainha portuguesa, uma mulher frágil apanhada nas redes da principal disputa do século XVIII entre a Igreja e o Estado, entre as velhas superstições e a época da Razão, entre uma religiosidade poderosa e uma ditadura tirânica. D. Maria encarna fielmente as contradições desse tempo, pois, apesar do seu conservadorismo religioso, soube compreender, pelo menos em alguns aspetos, o Iluminismo, adotando uma abordagem humanitária dos assuntos de Estado. Desde o seu tão aguardado nascimento em Lisboa, então a cidade mais opulenta da Europa, até à sua morte, num ambiente austero no Brasil, esta biografia lê-se como um romance histórico. A autora revisita a história política da época, as complexidades da vida privada da rainha, os principais acontecimentos e a vida das personalidades desse período histórico. D. Maria I – a Vida Notável de Uma Rainha oferece aos seus leitores uma visão íntima do mundo das monarquias absolutas, da vida quotidiana na corte portuguesa e na velha Europa, antes da Revolução Francesa e da ascensão de Napoleão que levou a dinastia de Bragança à beira da ruína.

Opinião: D. Maria I é usualmente reconhecida como a primeira Rainha a governar Portugal por direito próprio, mas pouco mais marcou a memória do povo português – aventurarei que tal se deve às grandes figuras e acontecimento que lhe balizam o reinado: Marquês de Pombal no reinado que a precedeu, e as invasões francesas, seguidas da independência do Brasil e da Guerra Fraterna nos que se lhe seguiram. A isso, junta-se-lhe a personalidade de D. Maria, que ficou registada como sendo uma mulher carinhosa, bondosa e muito – talvez excessivamente – devota, características que apesar de apreciadas, pouco contribuíram para a tornar numa regente de destaque. Possivelmente por não se encontrarem associadas a outras mais firmes e confiantes.

É esta figura que o livro – a biografia – em questão pretende retratar, partindo do reinado de seu pai, D. José, marcadamente influenciado por Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, e seguindo até à sua morte, mencionando ainda a guerra civil levada a cabo pelos seus netos, Pedro e Miguel. Como conseguiu fazer isso em pouco mais de 200 páginas, sendo parte delas anexos, notas iniciais e árvores genealógicas? Seguindo uma narração com citações que a corroboram e que apresenta os acontecimentos de forma muito geral. Os pormenores não abundam. Trata-se portanto de uma leitura útil para quem não detém grandes bases para o período histórico ou a monarca em questão e deseja ter um ponto de partida, mas que se demonstra abaixo das expectativas para quem deseja conhecer mais do que umas ideias gerais temporalmente organizadas.

Talvez por a autora considerar que a presença de D. Maria I não era de peso – ou porque efectivamente não o foi – em algumas das questões retratadas, pareceu-me por várias vezes que se fugia ao foco. Para uma biografia de D. Maria I, a senhora foi bastante deixada de lado no que se referiu à sua infância, educação, opiniões e atitudes, em especial no período em que Carvalho e Melo gozou da preferência do rei, tendo-lhe sido dada bastante relevância, ao ponto de assombrar D. Maria I e esta pouco ser mencionada.

Pergunto-me se não haverá à disponibilidade do público, ou pelo menos de investigadores, cartas, diários, confissões escritas, qualquer coisa, capazes de exprimir em primeira mão a visão de D. Maria I. Notei a falha de tal instrumento de apoio que seria primordial, no entanto, dado o meu próprio desconhecimento, não saberei dizer se se trata de uma falha da autora, ou se efectivamente não existe – ou mais provável, se perdeu – qualquer documento do género.

Em relação à estrutura, esta encontra-se bem conseguida. A autora opta por colocar nas notas iniciais esclarecimentos sobre nomes, títulos, moedas e câmbio correntes da época, evitando futuras dúvidas ao leitor, bem como a árvore genealógica tanto da Casa de Bragança como da Casa de Bourbon, permitindo assim uma rápida e mais organizada assimilação das relações entre os principais intervenientes. A divisão em três partes da biografia seguindo os períodos de princesa herdeira, Rainha e decadência têm razão de ser (mais um vez apenas lamento que o conteúdo em si não tenha sido capaz de acompanhar devidamente aquilo a que os títulos se propuseram). O prólogo é que considerei desnecessário – retratando o momento crítico em que foi considerada como definitivamente louca, dando assim uma “espreitadela” ao momentos finais, não fornece qualquer tipo de informação que já não se soubesse pelo título, e não espicaça em particular o continuamento da leitura, sendo, portanto, inútil.

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