“Boy’s Love: Histórias de Amor sem Preconceito”, VVAA

capa

VVAA – Boy’s Love: Histórias de Amor sem Preconceito, São Paulo, Draco, 2014

Sinopse: Boy’s Love ou yaoi são apenas formas de descrever esse fenômeno que surgiu no Japão e conquistou o mundo. E nos nove contos de “Boy’s Love: histórias de amor sem preconceitos” encontre o amor entre rapazes que se apresenta em uma variedade de situações, sejam eles jovens ou homens feitos, magos, robôs, sobreviventes em sociedades distópicas, cientistas e até mesmo alienígenas. Prepare-se para sentir intensamente: sem medo, nem preconceito. Seja por atração, seja por um capricho do destino, as vidas desses rapazes estão ligadas por laços de afeição que vão superar barreiras sociais, conflitos e distâncias para viverem juntos essa paixão.

Opinião: Organizada pela Draco, a antologia contém nove contos yaoi de fantasia. Para quem não sabe, yaoi é um dos termos utilizados para referir uma relação romântica ou erótica entre duas personagens do sexo masculino, e é exactamente com uma curta explicação sobre o termo e o género, da autoria da Tanko Chan, que o livro se inicia. Apesar de actualmente a grande quantidade de informações disponíveis, por vezes contraditórias, poder confundir um pouco e impedir que se chegue a uma verdade absoluta aceite por todos, a Tanko Chan consegue explicar com clareza as linhas gerais e dar ao leitor não familiarizado com o termo o conhecimento suficiente para ter uma base e uma noção.

É também a Tanko Chan a responsável pela capa e pelas ilustrações interiores, um elemento que contribuiu positivamente para a antologia. No geral, e apesar de algumas gralhas que escaparam às revisões, considerei o livro bastante bom no seu todo, havendo também uma grande diversidade no que toca aos elementos de fantasia.

Seguem as considerações sobre os contos individuais.

“A Última Troca”, Inês Montenegro: Por motivos de “escrevi-o”, não comentarei sobre este conto.

“A Floresta Branca”, Marcia Souza: Tem algumas falhas de pontuação (as vírgulas depois do “mas”, por exemplo) e não há uma consistência com os tempos verbais utilizados na narração. Achei a personagem do mago unidimensional e pouco desenvolvida. O leitor consegue compreender bastante cedo qual a natureza do Draude, no entanto julgo ter sido feito propositadamente. A estrutura e o enredo são simples, mas proporcionam uma leitura agradável, além de que o worldbuilding está muito bom. Pareceu-me o fragmento de algo maior, e com certeza é um mundo que tem potencial para ser explorado em outras histórias. Apesar de o espaço não ter permitido um maior desenvolvimento, as personagens principais estão bastante sólidas. Realmente é uma pena que os limites de espaço não tenham permitido detalhar e alongar a sua relação após o reencontro, pois o conto ficaria a ganhar muito.

“Sobre Ele”, Fabio Baptista: Contém elementos de sci-fi e pós-Apocalíptico. A narração, em primeira pessoa, divide-se em três partes, a primeira e última ao cargo de uma personagem secundária, narrando o presente, a do meio pelas palavras do protagonista, narrando o passado. Isto leva a que a narração do protagonista seja mais tell que show. A história da guerra no geral, e do casal em particular, estão bastante boas, no entanto, houve uma apressar dos acontecimentos a dado ponto, que levou a que as conversas e acontecimentos começassem a soar artificiais. Mais uma vez, o conto precisava de maior espaço para ser desenvolvido ao seu potencial.

“Reminiscência”, Priscila Barone: Como o leitor acaba por se aperceber bem mais depressa do que o protagonista, temos aqui a temática “viagens no tempo”. A autora soube manejar bem as informações dadas, sendo que algumas dúvidas que surgiram no início (por exemplo, a reacção exagerada de Isaac ao conhecer Beto) são mais tarde explicadas, fazendo sentido. Há bastante empenho a desenvolver as personagens e sua relação, algo conseguido com êxito, mas acaba-se por sacrificar também um pouco da acção: os eventos praticamente só começam a mover-se no final.

“A Fabulosa Receita de Yoshi Koga”, Diego Umino-Hatake:Revolvendo em torno de possibilidades e escolhas, o conto foca-se no protagonista, nas suas emoções e nas suas dúvidas. A escrita, as personagens, a ambientação e a história contribuem para dar uma sensação de “calmo” e “doce” ao leitor. Julgo apenas que em vez de dizer com todas as letras ao leitor a natureza do Yoshi, teria sido mais proveitoso deixar a informação nas entrelinhas, o suficiente para o leitor deduzir por si mesmo, em vez de ter utilizado o episódio da mãe para o fazer. Tive também pena de não ver um maior desenvolvimento da relação amorosa, e acabei por interpretar como sendo um quase prólogo. Por fim, gostei da ideia contrária à maioria dos romances actuais de que há mais de uma possibilidade amorosa, e que as escolhas que fazemos têm tanta influência nisso quanto um sentimento etéreo que nem conseguimos definir.

“Alma Mecânica”, Agatha Yukani: Uma premissa comum em sci-fi, mas bem trabalhada e levantando questões interessantes que se revelam essenciais para a história e não ficam apenas a pairar no ar. A autora consegue inserir bem as personagens e os eventos no wordbuilding, não o deixando apenas como pano de fundo.

“Além da Fábrica”, Rubem Cabral: O romance é utilizado mais para despoletar as acções do protagonista e, consequentemente, os eventos. O foco encontra-se mais na relação do protagonista com o que o envolve e o final, apesar de perfazer um círculo e ser algo amargo para o leitor, foge dos esperado e surpreende. Ainda se destaca pelo wordbuilding.

“A Última Vez”, Melissa de Sá: Alternando entre o passado e o futuro, a autora consegue assim tirar partido dos limites que tinha para desenvolver o conto. Apesar da sua simplicidade, tem boas personagens e um bom desenvolvimento. Considerei apenas que um maior desenvolvimento da batalha final seria proveitoso.

“Jaulas”, Tanko Chan: Ambientado na época vitoriana, o conto faz uso tanto da narração em primeira pessoa, quanto da narrativa epistolar, muito em voga na época. No entanto, não é apenas este o elemento de época que encontramos: o interesse pela Ciência, pela evolução do Homem, e pelas “criaturas” desconhecidas também aqui se encontra: não apenas o que teve de positivo, como também o que teve de negativo. Ao ler, não pude deixar de ver nas entrelinhas um questionamento da Humanidade e moralidade, ainda para mais quando o tratamento dado às criaturas aqui descobertas não foi nada propriamente inventado pela autora. As personagens encontram-se bem construídas, capazes de criar empatia com o leitor, e a história está bastante bem estruturada, a relação entre os protagonistas desenvolvendo-se de forma credível, sem esquecer as restantes personagens que os rodeiam. O final não deixou de ser o seu twist, não pelo final em si, mas por quem permitiu tal final.

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