“Antologia Fénix de Ficção Científica e Fantasia, Vol. I”, VVAA

capa

VVAA – Antologia Fénix de Ficção Científica e Fantasia, Volume I, [s.l.], Fénix Fanzine, 2013

“Flick-flick crack-crack”, Rui Leite – “Vila Nova de Carrascos” é sem sombra de dúvida a terra indicada para situar o conto, que apesar dos componentes de horror, tem a perspectiva rearranjada pelo modo narrativo e pelo divertido final. Há um ou outro parágrafo de que não vi necessidade – de fazer o parágrafo propriamente dito, não de eliminar o texto. De resto, segue um bom estilo narrativo.

“Mutação”, Regina Catarino – Uma narrativa envolvente que segue a perspectiva do livro, conseguindo um twist em relação à natureza do dito. Quase uma história romântica entre leitor/livro.

“Livro do Tempo”, Carlos Coelho de Faria – Dá a sensação de ser um vislumbre para uma história maior, na qual se abordaria com mais profundidade os problemas inerentes a possuir um livro com as capacidades demonstradas.

“A Passagem Secreta”, Sara Farinha – A frase em Latim tem um adjectivo feminino ligado a um nome masculino, e parece-me que o verbo se encontra no Infinitivo e não no Imperativo. Demais, não sendo uma ideia inovadora tanto na prossecução como no final, foi dos contos da autora que mais gostei até ao momento.

“Libris in Ténebris”, Diana Sousa – Uma premissa simples, também já antes explorada, mas cujo desenvolvimento em termos de escrita conseguiu prender. O modo narrativo tornou-o num dos meus favoritos.

“Portas do Conhecimento”, Luís Corujo – Uma ideia interessante que no entanto poderia ser mais explícita no final. Também considerei que se repetia demasiado, prolongando desnecessariamente a narrativa.

“O Tomo de M”, Ricardo Dias – O primeiro parágrafo ganharia em perder algumas das vírgulas que, não estando erróneas, também não seria errado retirá-las, e evitaria tantas pausas na leitura. Não sei como o tomo de M, representante do conhecimento de uma cultura ancestral que ficou subentendido sermos nós, poderia ser outra coisa que não aquilo que demonstrou ser no final. Uma leitura divertida.

“Escotilha”, Carlos Silva – Suspeito que a discussão que volta e meia se repete de livros físicos versus ebooks inspirou este conto de scifi, e como por muito que eu agora goste de ebooks, continuo a defender a possibilidade de folhear um livrinho, entretenho-me a imaginar que o torpedo do final do conto encravou, or something like that que impedisse a destruição total dos pobrezinhos. Um conto bem escrito, com bom equilíbrio entre as descrições e os diálogos, que me levou a pensar com certa ternura na Humanidade exactamente pela forma como aqui foi retratada a tratar dos livros.

[“sinal de um cultura” – uma]

“Miel Lê”, Jorge Candeias – Julguei eu, pelo título, que Miel seria uma criança pequena (um Miguel não conseguiria dizer ainda o nome) a descobrir a primeira leitura, e afinal é um jovem ridburiano a ler com o polegar – um modo tão fantástico de leitura que, a bem ver, não se distancia tanto quanto parece daquele que têm os terráqueos.

“Silverfish, o último inquilino”, Manuel Mendonça – Antes de mais, a alteração do título que figura na fanzine Fénix nº2 é uma mais valia para o conto, na medida em que o significado de “mobfish”(salvo erro) passava despercebido a muitos, afectando negativamente o conto. Ainda assim, parece-me que o conto carece de mais desenvolvimento sobre a natureza exacta da criatura, suponho eu que criada a partir daqueles horrorosos peixinhos-de-prata comedores de livros.

“Leituras”, Álvaro de Sousa Holstein – Uma boa premissa, em que na primeira parte temos o melhor de Xooxitan, e na segunda o preço a pagar por quem se deixa encantar por ela e pelas suas habilidades de contadora de histórias

[“esta já alta que dava para uma ampla divisão que tinha as paredes pejadas de livros” Repetição com “que… que” – não estando gramaticamente incorrecto, afecta negativamente a leitura]

“Felicidade”, Jorge Palinhos – Uma espreitadela a um futuro onde sentimentos como tristeza e luto ficaram para trás na evolução, sendo o seu aparecimento um factor preocupante e digno de tratamento. Apesar de a ideia me ter despertado o interesse, não me pareceu que o tema “livros” tivesse particular influência no conto.

“Leitura entre lençóis”, João Rogaciano – A narrativa não embrenha particularmente o leitor, contudo, tem como ponto forte a inversão de papéis, por assim dizer, de que nos apercebemos conforme vamos chegando ao final. Há hábitos que parece que não são só nossos.

“Manuais Escolares”, Raquel da Cal – Temos aqui um episódio que provavelmente figura nas infâncias de quase toda a gente – se não mesmo de todos – à qual a natureza dos intervenientes atribuiu o carácter fantástico. Apesar de ser uma ideia engraçada e da ironia do final, duvido que o conto fique muito na memória.

Seria também aconselhável uma revisão à pontuação, como é exemplo neste caso “Júvias, surgiu sentado sobre esta”, em que temos uma vírgula entre o sujeito e o verbo.

“Mundos em mundos”, Vítor Frazão – Pelo entretanto, já li outros contos com este par de irmãos, mas este, o primeiro que li, permanece o meu favorito. Não só teve a vantagem de me mostrar pela primeira vez o seu mundo, um wordbuilding relativamente simples, mas atractivo, como a própria “brincadeira” em torno do qual revolve é uma que me diz particularmente – ou não revirasse eu os olhos de cada vez que, para tentar vender, o marketing se sai com “o novo W ou Y disto e daquilo”. Deixem os autores valerem por si sem os compararem uns aos outros, caramba!

“Livros que não deviam ter sido escritos – XIV”, José Manuel Morais– O modo como o autor narrou e desenvolveu o conto faz-me situá-lo mais como um texto de um livro de História que um conto de ficção propriamente dito.

“O Iluminiaturista”, Carlos Alberto Espergueiro – A pontuação, em especial as vírgulas, carece de uma revisão e pouco mais tenho a apontar. Não sendo uma má leitura, também não tem nada que a destaque em especial.

“Uma Dentada Literária”, Joel Pulga – Apesar de já ter lido este conto na Fénix nº2, não lhe reconheci o início – só quando surgiu o edifício do alfarrabista é que me recordei, o que deixa claro ser esse conceito, o do alfarrabista que move o seu estabelecimento de raros e desejados volumes, quase como um Castelo Andante, o que de mais memorável o conto tem. Um conceito que gostei bastante.

“Uma troika de micros sobre livros e leituras”, João Ventura – Três micro-contos que se destacam pela qualidade das ideias e da escrita. Outro a entrar nos favoritos.

“O poder da leitura”, Ana Cristina Luz – O início parece um paralelismo entre Sebastião-o-jovem-do-conto com Sebastião-o-rei-português, mas o rumo acabou por ser um diferente do que esperava. Um rapaz que encarna verdadeiramente as personagens dos livros que lê? Interesse ponto de partida. Infelizmente não li nem estou familiarizada (e não quero spoilers, faxabôr) com “A Noite do Oráculo” de Paul Aster, pelo que só pude fazer deduções em relação ao final e à sua relação com o mesmo.

“O rosto vivo”, Marcelina Gama Leandro – Um conto que capta um episódio amoroso (I thought that, ‘k?) entre dois irmãos, um avô e um livro, mas que carece de desenvolvimento. Also, um dos irmãos precisa de apanhar no traseiro – infelizmente a ideia que os contos “são os piores” é recorrente pelo público lusitano.

“Pulsação”, Inês Montenegro – Olha eu! *waves and walks away*

“Procura-se homem para satisfazer dona de casa”, Ana Ferreira – Não deixa dúvidas quanto à origem da inspiração, e infelizmente é uma tendência que o público (maioritariamente) feminino perderia caso pensasse devidamente no assunto, ou vivesse verdadeiramente uma relação como a do género de romances que a Laurinda, dona de casa, se encontrava a ler – atenção que isso não é o mesmo que desprezar/criticar/olhar de lado/whatever por se gostar. Gostar de ler o livro e “ai quem me dera um home abusivo como este” são coisas diferentes. Anyway, pega-se num assunto sério e lança-se um conto crítico e divertido.

“A Dança das Letras”, Ana C. Nunes – Temos aqui uma jovem que não gosta de ler, até ao momento em que por um acaso encontra o livro que reverte essa crença. Uma leitura que não permanece na memória, mas agradável na sua simplicidade. Pela sua temática, tornou-se no ideal para fechar a antologia.

A antologia pode ser adquirida gratuitamente aqui.

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