“Angola: O Horizonte Perdido”, António Coimbra

capa

COIMBRA, António – Angola – O Horizonte Perdido, Porto, Papiro, 2001

 Sinopse: Quando o Tonito do Paço, aos 15 anos, subiu as escadas do velho Quanza, não imaginava que um dia seria obrigado a regressar à sua terra natal, vergada ao peso de uma descolonização feita de forma vergonhosa e irresponsável por gente sem escrúpulos que transformou em tragédia a vida de milhares de portugueses.

Narrando toda a história durante o voo de regresso, o Autor leva-nos até à sua meninice, passada numa pacata aldeia rural da Beira Alta, transportando-nos depois para a bela cidade do Lobito, no litoral-centro de Angola, onde se fixou e viveu o seu sonho de menino, até que, mal saído de uma cotnrolada guerra colonial, teve que enfrentar uma terrível guerra fraticída, na qual se viu envolvido, sem nada ter feito por isso.

A partir de 12 de Agosto de 1975 e de forma cronológica, o leitor é introduzido no meio de um conflito brutal onde a vida humana é desprezada até ao limite da nossa compreensão, mas onde, e apesar de tudo, o amor ainda era possível e saiu triunfante.

Num registo profundamente pessoal e crítico, pontuado por episódios quentes e eróticos como a própria África, António Coimbra conta-nos a história de um português que, como tantos outros, contruiu a sua vida em solo africano, que depressa aprendeu a amar e que, um dia, foi obrigado a deixar.

Angola – O Horizonte Perdido é uma homenagem a todos aqueles que labutavam até então no ultramar português e que, de um dia para o outro, descobriram que tinham sido cobardemente traídos e abandonados à sua sorte. A voz de António Coimbra é a voz de todos aqueles que, revoltados com a versão “oficial” dos acontecimentos, se querem fazer ouvir.

Not to herself: Meto a mão no fogo em como a Papiro meteu o autor a escrever a sinopse do próprio livro.

Not to herself 2: Eu e o autor não partilhamos a mesma noção de sinopse.

Opinião: A primeira coisa que urge dizer sobre este livro é que se trata de uma autobiografia adaptada a romance. Isso, parece-me, é o que se encontra na base da maior parte dos problemas que apresenta (auxiliado pela falta de um bom editor, but oh well). O potencial que tem é bom. A vida do autor realmente tem o suficiente para dar andamento a um enredo e a escrita pouco mais precisa que uns polimentos – a começar pelo excesso de pontos de exclamação e de reticências, que a serem eliminados teriam dado logo outro ar. Mas o potencial não se encontra aqui preenchido. Quando mencionei ali entre parênteses que se notava a falha de um bom editor, não me referia apenas ao abuso já mencionado de determinados sinais de pontuação, nem à eliminação das gralhas existentes, que para meu espanto até foram poucas. O facto é que um bom editor ter-se-ia apercebido dos dois maiores pontos negativos deste livro, e por consequência teria trabalhado com o autor no sentido de os eliminar – começando logo pela confusão nas linhas temporais.

Que confusão? Até à página cem, mais coisa menos coisa, esta não se nota. O autor dá-nos a conhecer a sua infância numa típica aldeia do interior de Portugal, durante a época da ditadura, seguindo um percurso temporal contínuo. Mas quando parte para Angola, pareceu considerar como bom método andar a saltaricar entre a adolescência, os momentos finais do retorno caótico a que a Revolução obrigou e pensamentos/considerações durante a viagem de regresso no avião. Constantemente. Não chega a confundir o leitor, pelo menos não ao ponto de ele não se conseguir situar com um ou dois parágrafos, but dammit, cada vez que havia saltos temporais destes sentia como se o meu nariz tivesse esbarrado contra um muro de pedra. Caso não conheçam a sensação, não é das mais agradáveis.

O outro grande problema prende-se com o facto de o autor estar a escrever sobre si mesmo. Consciente ou inconscientemente, quando estamos a narrar alguma história nossa, nós, como sereszinhos humanos que somos, temos tendência a contá-la de um modo que nos favorece. Isso nota-se e muito no modo como o Tony, a personagem, nos é apresentada em acções e palavras ao longo do dia. Tenho grandes dificuldades em encontrar um defeito ou um momento fugaz em que tenha pensado “meu grandessíssimo sacripanta, isso é coisa que se faça?” Ora, como não acredito na perfeição do ser humano, tornou-se óbvio que o autor permitiu que a narrativa das suas memórias se visse afectada por ele ser tanto o autor quanto a personagem principal.

Este segundo problema desenraíza-se em outros dois: o primeiro é a inserção de opiniões morais, políticas, e afins quase que a tentar convencer o leitor da sua rectidão. Coincidentemente, partilhamos bastantes, no entanto, vê-las praticamente enxovalhadas na minha direcção não me agradou, e naturalmente aquelas com as quais discordava me agradaram ainda menos. Tudo bem em querer transmitir as suas ideias num livro, atenção é ao modo como o faz. Agora o segundo, trata-se já mais de um gosto pessoal, e prende-se mais com as passagens da adolescência de Tony: SÓ GAJAS! De facto a narrativa centrou-se muito mais na vida amorosa, deixando um pouco de lado a exploração do cenário riquíssimo de Angola e da vida da comunidade portuguesa na época. Bem sei que nas passagens que antecederam o regresso dos retornados se explorou melhor a situação do país, no entanto, ter explorado mais o “cenário”, por assim, dizer, antes do desastre acontecer, teria sido uma mais-valia.

Por fim, não posso terminar sem um desabafo meio-desiludido, meio-enraivecido, que quanto mais leio e sei sobre a descolonização, mais enfurecida fico com o modo vergonhoso como foi levada a cabo, e com as mentiras e injustiças que a rodearam.

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