“Angelus: Histórias Fantásticas de Anjos”, VVAA

capa

VVAA – Angelus: Histórias Fantásticas de Anjos, São Paulo, Literata, 2012

Sinopse: Desde os mensageiros gregos, os ággelos, passando pelos devas indianos e budistas, os malaks hebraicos e os seres autoluminosos dos zoroastrianos, muçulmanos e espíritas, os anjos são os seres celestes mais próximos dos humanos. Divididos muitas vezes em castas, cada qual com seu poder, limitações e influência direta, já sucumbiram à paixão pelas filhas da Terra, e de sua união nasceram os nefilins, os “filhos dos anjos”. Também cederam à ganância do poder, sendo expulsos do Céu, para reinarem absolutos no Inferno Cristão. E, em teorias como a do “astronauta antigo”, são vistos como visitantes extraterrestres que aqui estiveram para auxiliar na evolução do homem.

Opinião: Subordinada à temática de anjos, esta antologia organizada e publicada pela Editora Literata, com prefácio de Márson Alquati, contém vinte contos curtos, dezassete de autores brasileiros e três de autores portugueses, eu própria incluída. Como tenho vindo a fazer em caso de antologias, quando escrevo a opinião sobre as mesmas, seguem os contos discriminados ao invés de algo mais geral:

“O Bicho-Homem de Máchenka”, Sheilla Liz – Adoptando o ponto de vista de bruxas, mãe e filha, durante uma época de perseguição, insere também o mito dos Nephilim, filhos das relações de seres humanos com seres celestes. Trata-se de um enredo simples, o encontro de Máchenka com um “homem”, que se centra nas descrições do espaço e dos sentimentos.

“A Fome dos Anjos”, Alex Bastos – O conto desenvolve-se ao longo de trechos que, não pormenorizando o worldbuilding, fornecem o suficiente para que o compreendamos. O título, que me chamou de imediato a atenção, encontra-se em consonância com a história, cuja ideia de “alimento” dos anjos me agradou. Também o final enveredou por um caminho interessante, dando a impressão que o protagonista nem venceu nem perdeu inteiramente. Contudo, ficou por esclarecer o por quê de os anjos lhe terem dado tal “oportunidade” e não aos demais: o que tinha ele que o diferenciava? O modo como os enfrentou? Algo que fez durante os anos de sobrevivência? Um acaso?

“Dádiva e Punição”, Goldfield – O que primeiro nos chama atenção é a história peculiar do sacerdote, personagem que acompanhamos na sua missão de descobrir que aparições são reais, e quais são farsas. O seu passado e redenção, no entanto, tornam-se quase secundários quando o autor faz uso da devoção popular em relação às ditas aparições para um alerta actual, e para transmitir a mensagem já acreditada por muitos: que a extinção da Humanidade será causada por ela mesma, e não qualquer causa natural, ou evento apocalíptico causado por entidade que não compreendemos inteiramente. A dádiva e a punição tornam-se, a partir daqui, como algo evidente no dia-a-dia de cada um.

“O Ritual da Princesa”, Jaqueline Tonin – Com o enredo centrando-se nos pactos sobrenaturais de uma princesa para se libertar de uma rival e casar com o amado, recordou-me um conto de fadas, na versão mais antiga, em que não havia receio de assustar as criancinhas por se lhes mostrar as consequências dos seus actos. Não se tornou, contudo, particularmente cruel ou causador de fortes impressões, possivelmente devido à falta de pormenorização, havendo uma quase superficialidade na narração dos acontecimentos.

“Pequena Dama”, Ramon Giraldi – Unificando o anjo com a morte e abordando o modo como o homem encara esta última, trata-se de um conto simples, mas com o seu quê de beleza, em particular no modo como a morte é retratada, enfatizando os seus sentimentos face à rejeição com que é recebida.

“O Anjo do Senhor”, João Rogaciano – Na Bíblia é-nos narrada a destruição de Sodoma, punição pela sua corrupção e maldade, bem como da salvação de Seth e sua família, pela sua virtude em meio ao mal. Fazendo uso de nomes bíblicos para as suas personagens, o autor parte também deste episódio, tornando-o num conto de ficção-científica. Uma perspectiva engraçada e curiosa, que ficou aqui bem conseguida pelo modo como o antigo e o novo se parecem encaixar. Não me agradou, apenas, o detalhe do amor à primeira vista, na medida em que pareceu demasiado repentino e caído do céu.

“A Queda”, Ceres Marcon – Centra-se no momento exacto da queda de um anjo por amor a um demónio, desenvolvendo-se essencialmente através do diálogo. Agradável de ler, mas nada de extraordinário.

“Redenção Forçada”, Fabian Balbinot – Não teria dificuldade a imaginar o cenário aqui apresentado como sendo o mais provável caso um anjo redentor descesse à Terra. Fazendo uso de um jornalista ambicioso e de um homem que se diz anjo, ainda que afirmando que os anjos não existem, o conto desenrola-se através da entrevista de um a outro. Mais do que a ideia do conto, gostei do modo como esta foi abordada e apresentada. No entanto, a dúvida que poderá existir no início sobre se o homem é louco ou anjo dissolve-se cada vez mais à medida que as palavras vão surgindo, acabando por fazer com que o final seja previsível.

“A Margem Oposta”, Joe de Lima – Enquanto a maioria dos contos da antologia optam pela imagem do anjo ocidental, “A Margem Oposta” parte do deva, da mitologia hindu. Tal destaca-o e permite dar ao leitor um maior conhecimento sobre a mitologia em questão, no entanto, a falta de naturalidade dos diálogos leva à impressão de que as personagens estão a citar as suas falas, o que afectou negativamente a sua leitura.

“A Queda de Caliel”, Bruno Anselmi Matangrano – Também abordando a queda de um anjo, vemos aqui misturada a mitologia dos anjos com a dos vampiros, inovando no referente à razão da queda: não por falha ou escolha do anjo, mas por um golpe de azar no campo de batalha. Com uma boa ideia de partida, o conto falha para excesso de tell em detrimento do show.

“Filha das Plumas”, Rodolfo Santos – Ao tomar o corpo humano, Ariel gerou uma filha, que tem agora de matar para se redimir. Apesar de se compreender a emotividade que lhe deveria ser inerente, o desenvolvimento psicológico e emotivo das personagens não foi o suficiente para chegar ao leitor e lhe despertar os seus sentimentos. Destaca-se, contudo, a força do amor maternal, motor-matriz do conto.

“O Despertar de Sanvi”, Inês Montenegro – Por razões óbvias, vou passar este jovem à frente.

“Tua Vontade”, Lucas Lourenço – Inicialmente pareceu-me ser um romance entre anjo e demónio, com detalhes curiosos (e divertidos), como o facto de o tribunal celestial se encontrar estruturado de igual forma – e manter as mesmas dificuldades – que um tribunal de seres humanos. O final ambíguo, no entanto, revela o conto como sendo algo mais.

Notei algumas falhas no que se refere à conjugação verbal com o tratamento por “tu” e o uso de sujeitos quando estes poderiam ter sido omitidos, soando a frase no conjunto melhor com o sujeito omitido.

“Ággelos”, Roberta Spindler – Boa narrativa, em que as coisas são mais do que parecem, e o leitor vai tomando conhecimento da personagem principal e da sua situação de modo gradual, com o desenvolvimento do conto. Gostei particularmente do twist final.

“Anjos Caídos”, Danilo Souza Pelloso – Em frases curtas e abundância de parágrafos usados como ênfase, o conto é narrado do ponto de vista de uma criança a descobrir a verdade sobre si própria, e a verdade sobre o mundo que a rodeava. Gostei da ideia base, mas a prossecução pareceu-me ficar aquém.

“Asas Superficiais”, Cristiano Rosa – Mais um conto centrando-se na queda de um anjo, sendo a inovação que aqui não é apresentado como algo obrigatoriamente mau ou bom, apenas como algo que acontece. Enredo e personagens simples, com um cheirinho de erótico.

“O Anjo das Escolhas”, Valentina S. Ferreira – Em poucas palavras refere dois temas de destaque: o uso que faz da situação de abuso em que as mulheres em muitos países árabes se encontram, e o facto de o anjo que respondeu às orações de Nádia, a personagem principal, não resolver magicamente o seu problema, dando-lhe antes a possibilidade de usar o seu livre arbítrio, perfeitamente consciente das consequências que qualquer uma das suas escolhas lhe traria. Gostaria apenas de ter visto um maior desenvolvimento do primeiro tema referido, e do amor de Nádia pelo homem com a cabeça cheia de água: torço o nariz em relação aos convenientes amores à primeira vista.

“As Últimas Páginas da Estação”, Suzy M. Hekamiah – Embora a narração pareça divagar no seu início, acabamos por compreender a linha de pensamento do narrador em primeira pessoa. Vogando no presente, e recorrendo a uma analepse, cobre o “segredo de família”, deixando ver o sentimento de culpa que levou um avô a fazer um livro da pele de um anjo.

“Sara”, Tatiana Ruiz – Misturando fantasia com um travo de ficção científica, centra-se no nascimento de um Nephilim e seu reconhecimento como anjo de Deus. Sendo levada para o futuro com a missão de salvar o mundo de demónio, a precipitação fê-la falhar logo no início, talvez demasiado cedo, visto que abortar completamente a missão a tornou inútil. Também aqui se joga com um final em aberto.

“ A Terceira Ordem”, Georgette Silen – Pegando na Anunciação e na batalha eterna entre o Bem e o Mal, a autora faz uso dos actos subtis, pequenas coisas que se vão acumulando ao longo do tempo até uma consequência grande. Gostei da ideia de uma nova Anunciação, e de como a “nova Maria” foi ponto-chave entre a intervenção do anjo e do demónio sem nunca sequer se aperceber.

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