“Amores Contados”, VVAA

amores

VVAA – Amores Contados, Alcochete, Alfarroba, 2013

Sinopse: Em 2013 a Alfarroba lançou o concurso Amores Contados. Cerca de 250 histórias depois, foram selecionados os cinco contos que hoje reunimos nestas folhas.

Neles encontramos histórias de amor em fotografias, em viagens, num café, até na matemática ou numa carta. São as histórias que nos fazem lembrar, sonhar, suspirar ou sorrir. Histórias de sentir; são amores que devem ser contados.

Opinião:

“Uma Questão Matemática”, Ana Ferreira: Maria Elisabete e João Pedro enfrentam um problema no seu casamento: amam-se, mas ela não consegue sentir prazer durante o acto sexual, quando não é dor o que sente. Tal torna-se uma questão espinhosa na relação, e o receio de partilhar algo que incomoda, mas que pode magoar o outro piora ainda mais a situação. Este é um tema não muito tratado na literatura em geral, e na literatura romântica, ou mesmo erótica, em particular – no entanto, existe, levando muitas mulheres a julgarem que são uma anormalidade, e que o melhor é sacrificarem o seu bem-estar sexual em ordem a manter a paz da relação, o que acaba por a longo prazo trazer a ruptura ou da relação, ou da própria mulher, quando a honestidade para com o parceiro e a procura de soluções que se adequem a ambos poderia ser mais benéfico. Foi, portanto, um tema que gostei de ver trabalhado no enredo.

A segunda coisa que salta à vista neste conto é a sua estrutura: o conto segue os sete elementos/estágios de plot. E não o faz de forma propriamente discreta, fá-lo dividindo-os, enumerando-o e dando-lhes o “título” antes de exemplificar com os episódios do conto propriamente dito. É, de certa forma, uma “lição” de estruturação.

Em termos narrativos, existe uma ou outra falha, mas no geral não há muito que lhe apontar. O narrador alterna entre a terceira e a primeira pessoa, mas maior ênfase nesta última, ambos permitindo uma boa leitura, sem eruditismos exagerados, ou simplicidade em excesso. Tive apenas pena do final em aberto, que não é coisa que aprecie particularmente.

“As Fotografias Falam Baixinho”, Cristina Milho: É um conto cujo enredo se vai revelando aos poucos. Só à medida que o vamos lendo é que compreendemos a relação entre Luísa e Cecília, e ainda depois disso, quase no final, é que sabemos do verdadeiro contexto em que as personagens se encontram, bem como quem é quem. É também apenas aí que compreendemos o porquê de Cecília ter decidido trazer uma fotografia a Luísa, e a razão para aquela em específico.

Em termos narrativos, houve frases e expressões que considerei bem apanhadas, no entanto, durante grande parte do tempo, notou-se um enrolar das palavras, demorando muito tempo e muito palavreado para narrar algo simples. Simplificando: palha em excesso.

“Amor de Viagem”, Francisco Vilaça Lopes: A história avança em trechos, uma vezes no presente, com o protagonista a caminho do comboio, outras, e maioritariamente, com momentos que julgo serem do seu passado, nomeadamente o familiar. Se há algo a compreender deste conto, não compreendi. Embora me tenha apercebido que os trechos se encontram relacionados, não me foi possível ver a ligação entre eles, o ponto em comum, a sequência ou a causa-efeito que justificaria o porquê de o autor nos mostrar estes trechos, e não outros quaisquer.

Em relação à narrativa, sinto uma certa ambiguidade: enquanto algumas frases e descrições transmitiam na perfeição a ideia pretendida, outras pareciam entrar em exagero, alongando a descrição em demasia.

“Café Avenida”, Jorge Campião: No Café Avenida, tanto Carlos quanto Xiu Fei escolhem as suas mesas com o mesmo objectivo: observar os encontros entre os respectivos conjugues. De certo modo, procuram nas conversas que partilham um modo de lidar com a humilhação que é, simultaneamente, um contributo para a mesma, tornando real e mais palpável o que antes fora uma figura sem consistência. A construção e relacionamento das personagens, visíveis nas entrelinhas do texto, é sem dúvida o ponto alto do conto, de fácil leitura e final interessante.

“Um, Dois, Três”, Rosa Bicho Gonçalves: Narrado na primeira pessoa, o conto segue uma estrutura interessante, com um monólogo em que discurso directo é inserido através da recordação, como se o passado disparasse vez ou outra através do presente.

No restante, é um conto regular, com um enredo simples e focado no narrador, onde se denota uma tristeza, mais a desejar por esperança, do que exactamente e tê-la.

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