“Amor e Sexo no Tempo de Salazar”, Isabel Freire

capa

FREIRE, Isabel – Amor e Sexo no Tempo de Salazar, Lisboa, Esfera dos Livros, 2010

Sinopse: No meu tempo a noiva era uma coisa séria. Iam emocionadas. (…) Os pais choravam, e a noiva chorava também! (…) Não se sabia se iam para bem, se iam para mal. (…) Elas tinham de aguentar tudo porque o casamento era para a vida. Esperança, 90 anos

A mulher deveria ser perfeita. Uma dona de casa exemplar, sempre atenta ao marido e aos filhos, esmerada nas artes da cozinha e do bordado, com comportamento aprumado e decente. Nos anos 50, e sobre o olhar atento, conservador e católico de António de Oliveira Salazar, timoneiro de um Estado Novo repressor, o amor e o sexo eram temas tabus, a que se devia dar pouca importância. Prevalecia a moral e os bons costumes. Um mundo recheado de valores puritanos, de vexame, opressão, tirania e recalcamento, para todos os gostos e para ambos os sexos, mas sobretudo para o feminino. Durante esta década, os direitos das mulheres portuguesas foram abafados, circunscritos, diminuídos. Forçadas à submissão de género, à dependência económica e afectiva, bem como ao apagamento sexual. Isabel Freire conta-nos como se namorava nos anos 50, do flirt ao beijo na boca, explica-nos que a «mão na mão» dava direito a uma multa no valor de 2$50, já a «mão naquilo» valia 15$ de coima, fala-nos da vida boémia dos bordéis de Lisboa, do carácter vicioso do sexo «bucal», das contraceptivas lavagens vaginais, dos partos em casa e dos abortos clandestinos, das expectativas e ansiedade dos noivos na noite de núpcias, das famílias felizes e da peste que era o divórcio. Como viveram na intimidade os homens e as mulheres que são hoje pais, avós e bisavós de gerações com princípios tão distintos? Brincava-se muito com esta máxima: «Mão na mão. Mão na coisa. Coisa na mão. Coisa na coisa é que não.»

Opinião: Estruturado em capítulos de cerca de vinte páginas, este livro – este estudo – propõe-se a conhecer e dar a conhecer a vida sexual e amorosa da sociedade urbana e rural durante o Estado Novo. Para isso, recorre aos testemunhos de pessoas, homens e mulheres, que o vivenciaram, e aos artigos publicados durante a época, não esquecendo os cartazes publicitários, que o ilustram, e que tantas vezes espelham a sociedade em que são produzidos.

Suspeito que quem já conhece bastante do assunto o achara superficial, a rasar a ponta do iceberg. Contudo, numa escrita acessível, é bastante bom para quem está a começar, e sem dúvida esclarecedor das diferentes perspectivas em que pegou, desde o mais “visível” como o uso do fato-de-banho e dos hábitos de namoro, até ao foro mais íntimo, a lua-de-mel e a relação sexual em si. Tanto o papel da mulher como o do homem encontravam-se bem definidos, condicionando uns e outros, mais ou menos abertamente.

Mantendo os próprios juízos de valor ao mínimo, a autora fornece ao leitor os factos suficientes para que retire as suas próprias conclusões, fornecendo-lhe, portanto, o conhecimento de algo que se ouve os avós ou pais comentar vez ou outra, mas nunca com grandes aprofundamentos. Basicamente é dado a conhecer o que, dentro das relações socio-amorosas, significa o “no meu tempo”.

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