“A Sereia”, Camilo Castelo Branco

capa

BRANCO, Camilo Castelo – A Sereia, Lisboa, Empreza da História de Portugal, [s.d]

Sinopse: Singularidade que enchia de dor quem ouvia cantar divinalmente a pobre louca! Dor e espanto daquela formosura de cadaver entoando, ora triste ora alegre, os cantares monasticos da semana da paixao, ou as seguidilhas voluptuosas de Espanha. As senhoras Cunhas entrajavam-na primorosamente; e ela deixava-se vestir com marmorea quietacao. Ia com elas a sala, sentava-se ao piano, erguia-se para sentar-se no canape, e nao respondia a pergunta nenhuma, salvo as da familia que ela denominava os seus querubins. E, no concurso de cavalheiros que afluiam a ouvi-la, havia um de apelido de Melo e Napoles que se entrou duma paixao invencivel daquela mulher morta, que tinha uma hora de ressuscitada, quando as teclas do piano a galvanizavam. Este cavalheiro chorava na presenca e na ausencia dela. Votou a Deus que lhe levantaria um templo, se alvorecesse luz de razao naquela eterna noite. Como Francisco da Cunha usava chamar-lhe a sua sereia, Joaquina era assim conhecida de fidalgos e humildes em Viseu. Diziam: a SEREIA apareceu ontem na sala; a SEREIA teve um acesso depois que cantou. E o povo, na sua linguagem candida e pitoresca, dizia: Vimos hoje a SEREIA numa janela do palacete: olhava para o ceu que parecia uma santinha.

Opinião: Obra do seu tempo, temos aqui o romance bem dramatizado de Gaspar e Joaquina Eduarda. Um amor espinhoso, como é natural, não por desavenças familiares ou diferenças de classes, mas por teimosia de um pai que deseja ver o filho casado com uma prima, e, mais tarde, pela percepção que “amor e uma cabana” é muito bonito quando se tem dinheiro, mas menos quando não se o tem. As personagens são caracterizadas conforme os ideais do romantismo, o qual também influencia o final (spoiler: morre o protagonista – dramaticamente com o coração a rebentar-se ao rever a amada –, morre a protagonista – depois de ter ficado louca, ah, a frágil psique feminina –, morre a primeira noiva do protagonista – definhando lentamente devido à rejeição – e morre o irmão da protagonista – após ter-se tornado eremita pelo desgosto. É o serviço completo). Nota-se, no entanto, uma farpa de realismo aqui e ali, nomeadamente em algumas das falas das personagens, quase que disfarçadamente.

A escrita – narração e diálogos – é o ponto forte do livro. O autor não só sabe embelezar a linguagem, como o faz de modo a dar-lhe sentido, uma utilidade que não a torne oca. Não poucas vezes, detona-se ainda ironia. Para deitar achas da fogueira no que refere à Língua, chegou-me às mãos uma versão que, se não é primeira edição, é uma das primeiras. Tal teve duas consequências: a primeira é que cada vez que virava uma página, pedacinhos amarelos espalhavam-se pela minha cama. A segunda foi constatar a diferença de ortografia. Por vezes cheguei a distrair-me da história por interesse para com os “deixal-a”, “sahia”, “theatro” e demais.

Por fim, não puderam faltar alguns dos temas mais recorrentes do autor: bastardia, relações familiares, anticlericalismo (mais ou menos disfarçado) e o confronto entre o sentimento e as imposições sociais.

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