“A Manopla de Karasthan”, Filipe Faria

capa

FARIA, Filipe – A Manopla de Karasthan, Lisboa, Presença, 2002 

Sinopse: Na imensidão cósmica existe um mundo, Allaryia, de grandes heróis e vilões infames, de seres de uma beleza indescritível e criaturas maléficas de uma fealdade atroz, nações poderosas e impérios tirânicos. Depois de muitas eras que alternaram entre a paz e a discórdia, encontramos neste primeiro volume das Crónicas de Allaryia, um tempo de aparente tranquilidade, de uma calma inquietante, semelhante ao silêncio que antecede a tempestade. Algures, numa câmara escura, subterrânea, algo se move, tentando libertar-se de anos de cativeiro, algo monstruoso, inumano, sedento de sangue e dor. O povo de Allaryia perdeu o seu campeão – Aezrel Thoryn, provavelmente morto numa batalha contra o Flagelo, a força das trevas, em Asmodeon – e mais do que nunca precisa de protecção. Aewyre Thoryn, o filho mais novo do saudoso rei, pega em Ancalach, a espada do seu pai, decide descobrir o que realmente lhe aconteceu e parte a caminho de Asmodeon. O que o jovem guerreiro não podia prever era que a sua demanda pessoal se iria transformar, à medida que os encontros se vão sucedendo, na demanda de um grupo particularmente singular, que reunirá a mais estranha e inesperada mistura de seres – Allumno, um mago, Lhiannah, a bela princesa arinnir, Worick, um thuragar, Quenestil, um eahan, Babaki, um antroleo, Taislin, um burrik, Slayra, uma eahanna negra e o próprio Aewyre. O ritmo a que se sucedem as aventuras é absolutamente alucinante, a cada passo surgem perigos mais tenebrosos, seres aterradores que esperam, ocultos nas sombras, o melhor momento para atacar e roubar a tão desejada Ancalach… Mas os laços de amizade que unem o grupo estão cada vez mais fortes e, juntos, sentem-se capazes de enfrentar qualquer inimigo. 

Opinião: As “Crónicas de Allaryia” parecem-me ser aquela saga de Fantasia portuguesa que toda a gente leu, menos eu. Em ordem a “libertar-me dessa condição”, saltitei até à Biblioteca e trouxe comigo este primeiro volume – fiquei aliviada por não o ter comprado. É-me evidente o porquê do sucesso que os livros tiveram: caso lhes tivesse pegado na minha adolescência, onde sorvia feita buraco negro tudo o que me recordasse Harry Potter ou Fantasia Medieval, o mais provável é que também tivesse gostado, quiçá recomendado. Contudo, aos olhos de agora, as falhas são-me demasiado evidentes.

O autor começa com um prefácio em itálico de um Escriba, onde numa catrapachada de infodump nos coloca a par da História do seuworldbuilding até ao momento. Ainda que a informação possa vir a ser importante, sei de uma quantidade de leitores que, na sua adolescência, se limitaram a passar isto à frente por ser “demasiado aborrecido”. De facto é-o, e quando o público-alvo é constituído maioritariamente por adolescentes, deve-se ter atenção a este tipo de coisas, procurando contorná-las.

Este nosso Escriba volta a aparecer no posfácio, bem mais curto e sem outra função que não a de nos indicar que as aventuras do Herói (não consigo pronunciar/memorizar o nome do jovem de modo algum) se encontram a ser registadas para a posterioridade, com a formalidade que daí advém.

Logo no Prólogo é-nos apresentado o Herói. Resumindo-o: forte, bom com as espadas (as duas), mulherengo e igualmente amado pelo sexo oposto, bonito, segundo filho de um rei… Eu conheço estas características de algum lado. Gary Stu, és tu?

O ponto positivo é que o autor começa logo com a partida para a aventura, não se engonhando com palha desnecessária. O ponto negativo é que o motivo parece ser exactamente esse: desejo de aventura. Mais tarde, apercebemo-nos que a motivação foi, na verdade, ir procurar saber o que aconteceu ao pai, desaparecido em combate, e no Livro Segundo – que o livro encontra-se dividido em Primeiro e Segundo – encontrar e proteger a dita Manopla; mas até lá é-nos dada a impressão de que a jornada decorre sem objectivo, sendo preenchida pelo encontro com as personagens que se juntarão ao grupo – também elas pelo “espírito de aventura”, com excepção do mago, que quer proteger o Herói, e da elfa negra, que é simplesmente aprisionada por ter “atacado” o grupo, quando o que ocorreu foi o inverso (mas quem quer saber de pormenores?) – e pelas pequenas missões que lhes vão surgindo, a maior delas salvar uma cidade de um tirano.

Como referido, no Segundo Livro temos um objectivo específico: encontrar a procissão sagrada que transporta a Manopla de Karasthan, e proteger a dita relíquia. Senti, no entanto, que isto nos caiu de paraquedas. No fim de um capítulo – e do Livro Primeiro – temos o Herói a chorar uma morte, e no seguinte temos os amigos a discutir sobre a promessa que o Herói fez aos sacerdotes que nunca antes se mencionaram, e sobre se irão ou não com ele. Isto gerou-me duas perguntas: quando é que isto aconteceu, e porquê que raios é que o Herói não foi logo com a procissão, em vez de depois passar grande parte da narrativa atrás da sua cauda? Esta não é a única vez que tal acontece. Mais adiante, perto do final da história, terminamos um capítulo em que está tudo muito bem, a Slayra (elfa negra) está num momento romântico com o elfo do grupo, e no capítulo seguinte “Elfos negros atacaram o acampamento! Levaram a Slayra!”… E mais uma vez eu respondo “como, quando, o que perdi!?”

O enredo, portanto, tem os seus “quês”. Ainda assim, consigo ver a atracção que exerceria à minha eu-de-catorze-anos. Tem batalhas, tem romance, tem magia e todos os estereótipos de raças – ainda que renomeadas sabe-se lá porquê – que podemos esperar encontrar dentro do género. E quando digo “estereótipos” não é por acaso. Não teria feito nada mal moldá-las um pouco mais out of the box.

Em relação à escrita: os diálogos são infantis, o que dado à idade que o autor teria na altura será de esperar. A narração e as descrições, por seu lado, são bastantes melhores. Tirando uma ou outra palavra que me pareceram deslocadas, no geral, são o que de melhor aponto ao livro.

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