“A Filha do Barão”, Célia Correia Loureiro

capa

LOUREIRO, Célia Correia – A Filha do Barão, Barcarena, Marcador, 2014

Sinopse: Quando D. João tece a união da sua única filha, Mariana de Albuquerque, com o seu melhor amigo – um inglês que investiga o potencial comercial do vinho do Porto -, não prevê a espiral de desenganos e provações que causará a todos. Mariana tem catorze anos e Daniel Turner vive atormentado pela sua responsabilidade para com a amante. Como se não bastasse, o exército francês está ao virar da esquina, pronto a tomar o Porto e, a partir daí, todo o país. No seu retiro nos socalcos do Douro, Mariana recomeça uma vida de alegrias e liberdade até que um soldado francês, um jovem arrastado para um conflito que desdenha, lhe bate à porta em busca de asilo. Daniel está longe, a combater os franceses, e Gustave está logo ali, com os seus ideais de igualdade e o seu afecto incorruptível, disposto a mostrar-lhe que a vida é mais do que um leque de obrigações.

Opinião: Este foi um dos romances históricos que mais gosto me deu ler nos últimos tempos. Ambientado no Portugal que teve de lidar com as invasões francesas, a pesquisa histórica feita pela autora nota-se pelo contexto, pelos comportamentos e diálogos das personagens, e pelos detalhes que são dados aquando as descrições. Sem fazer uso do afamado infodump, a autora consegue transmitir ao leitor o que ele precisa de saber, ao mesmo tempo que torna a época histórica importante e significativa para o enredo: é mais do que um simples cenário de fundo.

Embora se inicie com calma, dando a saber o passado conhecido dos protagonistas, de modo a que haja uma compreensão sobre a sua situação e comportamentos aquando o começo da narrativa, o romance logo prende a atenção. Talvez não tanto pelas reviravoltas em si – que apesar de perceptíveis para o leitor antes de o serem para as personagens, não deixam de levantar a curiosidade na questão do como? –, mas mais pelas personagens. É possível que no início o leitor se assuste ao notar a quantidade de personagens que polvilham “A Filha do Barão”. Cada uma delas, no entanto, tem um papel a cumprir, e estão longe de ser unidimensionais. À medida que lhes é permitido espaço na narrativa, as personagens vão-se tornando conhecidas e compreendidas, ainda que nem sempre desculpáveis nas suas acções: quais o são e quais não o são, já dependerá do leitor. O que não se pode dizer é que lhes falta humanidade, ou que caem no campo do cliché. Nenhuma é uma materialização da virtude, assim como nenhuma é o pecado feito carne. Acrescenta-se, ainda, que é possível notar o seu crescimento. Não apenas o mais evidente, como o de Mariana, por exemplo, que, sendo a protagonista, é das que mais fases da vida galga, mas também aquele que se apreende em pequenos acontecimentos do dia-a-dia.

De igual forma é de referir o bom contexto espacial. Tal como o contexto temporal, também este foi utilizado em prol do enredo e não me posso queixar do modo como foi representado. Uma pena a Régua ter sido referida, quando a minha cidade de Lamego, tão melhor em todos os aspetos, estava ali mesmo ao lado. Mas enfim, viagem pelo Douro, lá tinha de ser a Régua. Voltando às seriedades, a quinta do Lodeiro e seus arredores, onde importante parte da acção decorre, não destoa dos montes do Douro, sendo que até Artur, o caseiro do Lodeiro, me fez recordar um antigo caseiro que a minha família tinha por estes lados.

Por fim, a escrita. Na opinião a um anterior livro da autora, lembro-me de ter comentado sobre ter considerado que apesar de geralmente boa, por vezes a forma narrativa tornava-se demasiado floreada e rebuscada em alguns trechos. Isso não aconteceu aqui. Com excepção de poucas gralhas – bastante raras, atendendo ao tamanho do livro, e possíveis de escapar à maioria dos leitores –, a forma narrativa é agradável e compreensível, sem cair na simplicidade extrema.

Resta apenas o cliffhanger do final: a dúvida que atormenta Mariana e também o leitor. Há opiniões diversas sobre acabar ou não um livro com um cliffhanger, ainda que o dito livro pertença a uma saga. No caso, considero que resolver a dúvida levantada ou seria feito de forma apressada e pouco credível, ou prolongaria ainda mais um romance já de si extenso – entrando na história que, tecnicamente, não é a dos protagonistas. Outra hipótese seria não o ter incluído de todo, mas ainda que o episódio específico do epílogo fosse cortado, a dúvida permaneceria, ainda que um pouco mais fraca, e a conexão para o volume seguinte da saga não ficaria tão evidente: Resta agora esperar que a editora decida apostar na continuação, e não abandonar a saga.

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