“A Cidade e as Serras”, Eça de Queirós

capa

QUEIRÓS, Eça de – A Cidade e as Serras, Lisboa, Livros do Brasil, [1901]

Sinopse: A «novela fantasista» como Eça de Queirós chamou à Cidade e as Serras denuncia um aspecto importante da vida do escritor. A partir dos trinta anos, Eça escreve várias cartas aos seus amigos em que denuncia essa ânsia por uma vida de família que o retempere do «descampado do sentimentalismo» de que estava cansado.

A autenticidade da fotografia que reproduzimos – Eça de Queirós com sua filha – é um documento complementar deste livro, não só por ser contemporânea da sua feitura, como pelo ambiente de paz de que é expressão.

Opinião: Na história do rato da cidade e do rato do campo, o primeiro, desgostoso com a vida no campo, convida o segundo a experimentar as regalias da cidade. A vida de luxos e facilidades que lhe é apresentada no ambiente citado encanta o rato do campo, até os seus perigos se tornarem evidentes e o levarem a preferir a sua vidinha menos faustosa mas mais segura no campo.

“A Cidade e as Serras” fez-me recordar esta fábula, ainda que algo alterada, mais sofisticada, e sem moral tão evidente. Tendo Zé Fernandes como narrador homodiegético, é pelas suas palavras que conhecemos Jacinto e as suas convicções sobre a superioridade da Civilização, a cidade, a sua modernidade, avanços, cultura e sociedade – um excesso de tudo e todos que conduz Jacinto a um vazio existencial, ultrapassado com a viagem à Serra, o campo, apesar do começo pouco auspicioso para as personagens, ainda que cómico para o leitor. Tal como inicialmente exacerbara a superioridade da Civilização, Jacinto começa por olhar apenas às vantagens da Serra – contudo, quando esta lhe mostra o que tem de pior, nem lhe foge, nem fica de braços cruzados. Age, levando a Civilização à povoação remota, de tal modo que o leitor chega a suspeitar da criação de um ciclo vicioso.

No final, é apresentado um equilíbrio, que nem enaltece em demasia as vantagens de um, nem exagera os defeitos de outro, apresentando um retrato imparcial e realístico, quase um registo factual tornado em romance.

O que no entanto maior destaque merece na obra é, naturalmente, a escrita do autor: o vocabulário certo no momento certo, as palavras inventados que tão bem se adequam e logo no momento compreendemos, a ironia e o sarcasmo utilizados quase com casualidade, o cómico criado com os pequenos desastres do dia-a-dia, as descrições que, conquanto tantas vezes em tantas obras são apontadas como principal causa de “não gostei” pela sua extensão, se destacam aqui pelas imagens vívidas que são capazes de criar, enfim, toda uma bagagem que já se esperava e não desapontou.

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