“A Batalha do Apocalipse”, Eduardo Spohr

capa

SPOHR, Eduardo – A Batalha do Apocalipse: da Queda dos Anjos ao Crepúsculo do Mundo, Barcarena, Presença, 2011

Sinopse: Há muitos e muitos anos, há tantos anos quanto o número de estrelas no céu, o Paraíso Celeste foi palco de um terrível levante. Um grupo de anjos guerreiros, amantes da justiça e da liberdade, desafiou a tirania dos poderosos arcanjos, levantando armas contra seus opressores. Expulsos, os renegados foram forçados ao exílio, e condenados a vagar pelo mundo dos homens até o dia do Juízo Final.

Mas eis que chega o momento do Apocalipse, o tempo do ajuste de contas, o dia do despertar do Altíssimo. Único sobrevivente do expurgo, o líder dos renegados é convidado por Lúcifer, o Arcanjo Negro, a se juntar às suas legiões na batalha do Armagedon, o embate final entre o Céu e o Inferno, a guerra que decidirá não só o destino do mundo, mas o futuro do universo.

Das ruínas da Babilônia ao esplendor do Império Romano; das vastas planícies da China aos gelados castelos da Inglaterra medieval. A Batalha do Apocalipse não é apenas uma viagem pela história humana, mas é também uma jornada de conhecimento, um épico empolgante, cheio de lutas heróicas, magia, romance e suspense.

Opinião: O tema abordado não é original, praticamente uma batalha entre o amor/amizade contra o ciúme/ambição: onde o autor se destaca é a levar isso para a personagem dos anjos, que são aqui os protagonistas, nomeadamente na figura de Ablon, o qual acompanhamos em maior pormenor. Antes de prosseguir sobre a estrutura e enredo do livro, há reparos à edição em Português Europeu (PE) que tenho de fazer: em relação à adaptação, a conjugação verbal foi bem-sucedida, contudo, o mesmo já não se poderá dizer no que respeita ao vocabulário – coisas como “estuprar”, “gostoso”, “ônibus” e “encabulado” deveriam ter sido alteradas para “violar”, “bom/agradável”, “autocarro” e “envergonhado”. Também a revisão, ainda que na sua maioria se encontre apresentável, por vezes deixou escapar falhas como “Nada tenho nada a ver.”

O enredo encontra-se dividido em três partes, cada qual com capítulos longos que felizmente se subdividem – digo “felizmente” porque num livro que não é pequeno nem de escrita leve, tal ajuda à leitura, nem que seja por efeitos psicológicos. A primeira parte fez-me lembrar um jogador de xadrez a alinhavar as suas peças: são-nos apresentadas as personagens principais, Ablon e Shamira, bem como o “vilão” Miguel, e oferecidos os básicos sobre o wordbuilding. Apenas uma pequena parte se refere ao evento do Apocalipse, sendo uma grande parcela desta primeira parte constituída por um flashback.

O mesmo acontece em relação à segunda parte, onde o autor aproveita para atar algumas pontas que ficaram da “visita ao passado” anterior, e introduzir novos elementos que rapidamente compreendemos serem conhecimento para eventos futuros. Nota-se uma evolução dos acontecimentos, em que o que pode correr mal começa a correr mal. Não compreendi, no entanto, porquê a decisão do autor em escrever oflashback desta segunda parte na primeira pessoa, quando tudo o resto se encontra na terceira.

Na terceira parte dá-se, finalmente, o desenrolar dos acontecimentos. O autor continua a fazer uso de flashbacks para fornecer informações e desenvolver personagens e as suas relações entre si, contudo, estas tornam-se menos comuns e o momento dito presente ganha mais relevância.

Ainda que tenha compreendido a importância das informações fornecidas pelos flashbacks, estes pareceram-me excessivos, sendo alguns desnecessários – pegando em exemplos mais concretos, não precisávamos de ver a descrição de como Apolião destruiu Sodoma e outras cidades para tomar conhecimento do seu grande poder (um dos casos em que o tell teria substituído bem o show). Da mesma forma, a descrição da ida prévia de Ablon ao Inferno e seu combate com Lúcifer pouco fez para desenvolver personagens ou dar-nos algo de novo e essencial – honestamente fiquei com a sensação que foi um momento de exaltação excessiva a Ablon. Sim, ele perdeu, sim, ele ficou duzentos anos em sofrimento – mas porquê, porquê que não matá-lo? A desculpa de “para não ser um mártir” parece francamente forçada, e a capacidade de encantar Lilith com uma conversa e sem sequer o tentar, ao ponto de a rainha das súcubos dar a vida para o libertar, não ajudou a ideia de que não se tratava de uma exaltação gratuita ao protagonista.

O enredo contem algumas incongruências, sendo a mais evidente a afirmação de que o livre arbítrio é uma faculdade dos homens que os anjos não têm o luxo de ter – por várias vezes os seres alados agem mais conforme as suas escolhas que propriamente por uma natureza pré-estabelecida. Também a grande questão “Quem é o Anjo Negro” não é propriamente um mistério. O leitor está apto a deduzir facilmente a sua identidade, e a partir daí desconfiar em relação a alguns dos twists do final.

E agora as coisas fofinhas: Eduardo Spohr conseguiu uma obra de ficção com mitos e elementos da Bíblia como pano de fundo, onde existe o afastamento suficiente em que nem radicais de “SACRILÉGIO!” nem extremistas de “PEDÓFILOS, ESTÃO A ENFIAR-ME RELIGIÃO PELA GARGANTA ABAIXO!” têm razão para fazer guerra – não quer dizer que não a façam, mas o facto de não terem razão para o fazer já é uma vitória do autor. Ademais, ao longo da narrativa são inseridos episódios históricos, como a queda de Constantinopla, e mitos diversos como o do povo das fadas, da Atlântida e afins, não apenas de modo credível como com um bom encaixe entre si.

Por fim, apesar de já ter dado a entender que por vezes as descrições se tornavam demasiado morosas, em especial das últimas batalhas, no seu geral a narrativa encontra-se aprazível à leitura, mantendo um bom ritmo e destacando-se os diálogos.

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