“30 Dias com Camila”, Silvia Fernanda

capa

FERNANDA, Silvia – 30 Dias com Camila, São Paulo, Schoba, 2013

Sinopse: A vida de Camila estava um caos. Acabou de completar 30 anos. Perdeu a mãe. Sua melhor amiga se mudou para o outro lado do país. Está apaixonada pelo filho do chefe, que além de ser seu colega de trabalho é noivo de uma mulher que atormenta sua vida. Está entediada, deprimida e a ponto de fazer uma besteira com a própria vida. É uma pessoa que nada tem a perder. E pessoas que não tem nada a perder são muito perigosas…

Edgar tinha vida perfeita. Noivo. Bem sucedido. E finalmente de férias para curtir sua lua de mel em paz. Porém do dia para noite tudo muda: sua noiva foge com outro e para piorar a situação no dia seguinte acorda vendado e algemado a uma cama por uma louca, que após fazer loucuras com seu corpo, lhe faz uma proposta muito chocante: 30 dias de muito sexo, sem regras, sem compromissos.

Opinião: A premissa deste livro tem bom potencial em termos de literatura erótica, talvez até a roçar o romance (dependendo da forma como a autora o escolhesse desenvolver). Esse potencial, no entanto, não se encontra ainda preenchido, sendo múltiplas as falhas que apresenta: nenhuma delas impossível de ser sanada com revisões e reescrita. Parece-me que a publicação foi feita de um primeiro rascunho, ou pelo menos de um dos primeiros rascunhos, ainda pouco trabalhados.

Começando pela escrita e narração, estas apresenta algumas falhas ortográficas e de pontuação, bem como o uso abusivo da frase curta e agramatical: usualmente usada para dar ênfase ao que se está a dizer, acaba por perder o seu efeito quando o autor se apoia demais neste método. Utilizar listas para descrever e expressar as diferentes “personalidades” da personagens – que na verdade mais não eram do que estados de espírito – também não é algo aconselhável. O melhor aqui seria investir um pouco mais no desenvolvimento da personagem, e demonstrar as suas variações de humor – as quais demonstram reflectir as suas dúvidas – ao leitor através do seu dia-a-dia e acções.

Em termos de estrutura, esta parece demasiado inconstante. A estrutura de um enredo é o que irá segurar a história, o esqueleto ou os alicerces, daí a sua importância. Alguns autores planeiam a sua estrutura antes de começarem a escrever, outros constroem-na conforme escrevem, dando os ajustes durante as revisões. Aqui temos a ideia de que a estrutura foi sendo construída à medida que se escrevia, mas não teve os ajustes posteriores. A autora começa a sua história apresentando as personagens: óptimo. O leitor precisa de saber quem são os protagonistas e onde é que eles se inserem. O erro foi no modo como foi feito, na medida em que houve um despejar de informação sobre a história de vida de um e de outro, ou seja, infodump. Segue-se o evento que alterou o comportamento de pelo menos uma das personagens, o rapto e os prometidos trinta dias do título. Até aqui, a estrutura é sólida e foi bem conseguida. As falhas começam quando os protagonistas deixam a sua bolha e retornam ao “mundo real”: os eventos começam a suceder-se sem razão de ser, demasiado rápidos e sem uma base na qual se apoiarem. Alguns exemplos mais evidentes: em pouco espaço de tempo, a ex-noiva do protagonista regressa – apenas em referência, não tendo qualquer presença – afirmando estar grávida do protagonista (a descoberta de que afinal não é dele sendo igualmente rápida), uma filha adolescente de uma personagem que pouco tinha aparecido até ao momento dá a conhecer a sua existência, sendo que a mãe da jovem casa com o pai para logo a seguir desaparecer e morrer. Tudo isto sem nunca a “mãe” entrar em cena.

Aliada a uma estrutura frágil temos, então, uma grande falha de desenvolvimento. Pegando nos exemplos dados: por que haverá o leitor de sentir a gravidez da ex como uma ameaça quando esta é apenas referida, e o engano rapidamente desfeito? Quando só sabe da situação por terceiros, e não experiencia os sentimentos dos envolvidos, e durante tempo suficiente para o perigo se tornar real? Por que haverá a revelação da filha desconhecida importar seja o que for ao leitor – e o facto de ter sido tratado como um cliffhangerdemonstra que era suposto ser percepcionado como um grande evento – quando o leitor pouco ou nenhum contacto tinha tido com o suposto pai? Ou quando a miúda cai do céu, sem qualquer desenvolvimento ou história por trás? E qual o sentimento envolvido quando as personagens se limitam a reagir nas linhas de “tivemos uma conversa, é mesmo a minha filha, adoro-a”? E quando todo o drama do casamento e morte da mãe é contado, quase como quem conta uma conversa de café, em vez de demonstrado?

Estas não são, contudo, as únicas incongruências, nem a falta de desenvolvimento se dá apenas ao nível do enredo. Num dos episódios sexuais, por exemplo, a protagonista abre as pernas numa linha, e na seguinte já está a ter um orgasmo – um pouco de descrição teria sido benéfico neste exemplo. Numa mudança de ponto de vista, a autora reescreve o mesmo episódio, mas com falas e reacções ligeiramente diferentes daquelas narradas pela outra personagem: uma revisão atenta teria sido o suficiente para evitar esta incongruência. A dada altura, o protagonista deixa a protagonista acreditar que ele se apaixonou pela madrasta, sem haver razão para essa atitude: deduzi que seria apenas para criar conflito, contudo, se o leitor compreende que alguma coisa está presente no texto apenas para criar conflito, não tendo outra razão de ser, algo não está bem. É preciso  apresentar um contexto e uma razão.

Temos ainda o uso do “pénis mágico”, sempre pronto para ficar erecto a qualquer hora e a qualquer momento: este é um mal geral, e não específico deste livro, pelo que atribuo a responsabilidade às influências.

Por fim, não posso deixar passar a violação. A protagonista droga o protagonista, leva-o inconsciente para um lugar isolado e, quando o protagonista acorda, está vendado e a protagonista já empenhada em preliminares sexuais. Isto não é romântico. Isto não é a protagonista a tomar as rédeas e a tornar-se numa mulher ousada e sensual que sabe o que quer. Não importa se a vítima é um homem (sim, homens também são vítimas de violação e mulheres também são agressoras sexuais). Não importa se no momento em que acorda, ou pouco depois disso, ele consente. O homem foi drogado contra sua vontade e a mulher começou a usá-lo sexualmente quando ainda estava inconsciente, incapaz de dar a sua autorização. Isso é violação. E é das primeiras coisas que aconselho a serem reescritas caso a autora ainda deseje trabalhar neste livro.

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