“Quando Lisboa Tremeu”, Domingos Amaral

capa

AMARAL, Domingos – Quando Lisboa Tremeu, Alfragide, Casa das Letras, 2010

Sinopse: Lisboa, 1 de Novembro de 1755. A manhã nasce calma na cidade, mas na prisão da Inquisição, no Rossio, irmã Margarida, uma jovem freira condenada a morrer na fogueira, tenta enforcar-se na sua cela. Na sua casa em Santa Catarina, Hugh Gold, um capitão inglês, observa o rio e sonha com os seus tempos de marinheiro. Na Igreja de São Vicente de Fora, antes da missa começar, um rapaz zanga-se com sua mãe porque quer voltar a casa para ir buscar a sua irmã gémea. Em Belém, um ajudante de escrivão assiste à missa, na presença do Rei D. José. E, no Limoeiro, o pirata Santamaria envolve-se numa luta feroz com um gangue de desertores espanhóis.

De repente, às nove e meia da manhã, a cidade começa a tremer. Com uma violência nunca vista, a terra esventra-se, as casas caem, os tectos das igrejas abatem, e o caos gera-se, matando milhares. Nas horas seguintes, uma onda gigante submerge o terreiro do Paço e durante vários dias incêndios colossais vão atemorizar a capital do reino. Perdidos e atordoados, os sobreviventes andam pelas ruas, à procura dos seus destinos. Enquanto Sebastião José de Carvalho e Melo tenta reorganizar a cidade, um pirata e uma freira tentam fugir da justiça, um inglês tenta encontrar o seu dinheiro e um rapaz de doze anos tenta encontrar a sua irmã gémea, soterrada nos escombros

Opinião: Qualquer estudante português acaba por ver no livro de História o terramoto que abalou Lisboa em 1755, associando-o à célebre frase “enterram-se os mortos e tratam-se os vivos” daquele que ficou conhecido como Marquês de Pombal. E talvez pela sua longevidade – ou mais pelo facto de o encararam como algo que terão de saber e fixar, caso saia no teste – é encarado com alguma leveza, nunca se ponderando verdadeiramente as repercussões que teve e, especialmente, as que poderia ter tido. Com o Rei e a Corte fora de Lisboa, a cidade tornada num caos de entulho, a população ou morta, ou confusa, ou perdida de bens, os portos fechados, a fome, o medo e a miséria ditando os comportamentos, e grande número de criminosos à solta, gerou-se um tempo sem lei que o autor utilizou como backgroundpara este livro, um romance que a partir das andanças e histórias das suas personagens nos vai dando uns gostinhos de histórico.

Uma freira lésbica, uma “rapariga bonita” – ambas condenadas da Inquisição –, um comerciante inglês e mulherengo, uma ex-escrava, um escrivão cuidadoso do caminho que pisa, um pirata português e o seu amigo árabe – fugitivos do Limoeiro – e um rapaz que insiste na sobrevivência da irmã gémea, procurando-a sem esmorecer, são as personagens que cruzam caminhos – por vezes objectivos –, formulando o enredo e dando asas à subjectividade que é a verdade dos acontecimentos. Não se podendo considerar exactamente mentirosos, pessoalmente ficaria sempre de pé atrás com qualquer coisa que dissessem, atendendo à tendência demonstrada para contar alguma coisa moldando-a a seu favor.

Considerei o enredo aprazível, embora lhe faltasse a capacidade de surpreender – até o twist final tornou-se adivinhável a partir de determinado ponto da leitura. O início, contudo, cumpriu o papel de captar a atenção e o final tem o valor de resistir ao “e todos viveram felizes para sempre, rindo e respirando arco-íris”, optando por aquele que no caso teria sido o mais provável e, por consequência, mais realista.

Em relação à escrita, os diálogos encontram-se escritos de modo a emitir a oralidade, a personagem do inglês misturando o português com a sua língua-mãe – uma junção que não me pareceu bem conseguida, assemelhando-se pouco aos ingleses que efectivamente vemos a fazerem isso –, o árabe falando em bocados, sem conjugar os verbos, mas suficientemente bem para o compreendermos, e por aí adiante. Pareceu-me que os melhores conseguidos terão sido o sotaque brasileiro e a pronúncia do Norte.

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