“Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas”, Ricardo Adolfo

capa

ADOLFO, Ricardo – Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas, Carnaxide, Objectiva, 2009

Sinopse: Brito é imigrante ilegal numa cidade que não conhece e cuja língua não fala. Um domingo à tarde, depois da volta das montras, perde-se a caminho de casa com a mulher e o filho pequeno. E como acredita que para tomar uma decisão acertada tem de fazer o contrário daquilo que acha que está correcto, o regresso a casa revela-se impossível. Depois de uma noite na rua, Brito percebe que se não pedir ajuda pode ficar perdido para sempre, mas se o fizer pode arruinar o sonho de uma vida nova.

Em pouco mais de vinte e quatro horas, Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas explora o que é viver imigrado dentro de si mesmo – mais difícil do que qualquer exílio.

Opinião: O meu primeiro contacto com este autor foi o conto do Diário de Notícias, que não me deixou grande opinião. Um só conto, no entanto, está longe de ser o suficiente para fornecer uma ideia geral sobre um autor, e a leitura desta obra já se revelou de maior agrado.

A linha principal de enredo é simples de resumir: um português verdadeiramente “tuga” arranja problemas na terra, dramatiza o problema mais do que ele é, e foge com a mulher, Carla, e o filho, o “miúdo”, para o exterior, a “ilha”, onde leva a vida de imigrante ilegal sem trabalho e um “vizinho” português que lho arranje. Nenhum deles fala a língua do país onde se encontram, a geografia do local ainda lhes é difícil, fogem da polícia como o Diabo da Cruz, e Brito, o protagonista, tem uma tendência desesperante para tomar decisões erradas… Um conjunto de características que lhes torna a vida num pesadelo quando o metro avaria e a família se perde a caminho de casa, tendo de passar a noite na rua, entre discussões e reconciliações de marido e mulher, memórias que explicam ao leitor como chegarem àquele ponto, e teorias de Brito sobre a terra, a ilha, a vida, Deus e os seres humanos. Tudo numa narrativa de confiança com o leitor, que ora se abeira da vergonha alheia, ora se aproxima do cómico.

Os diálogos é que dispensava, tanto entre as personagens, como aqueles que Brito tem consigo mesmo. Não digo que devam ser cortados, foram necessários às narrativas, mas a estrutura… Cada vez que via os rectângulos de texto separados da restante narrativa por duplo espaçamento, fechava os olhos em busca de forças. Nem aspas, nem travessões, nem uma maiúscula que se visse… E a ortografia a imitar a sonoridade das palavras? Não é o primeiro livro que leio onde o autor opta por o fazer, contudo, enquanto os outros não me causaram qualquer repulsa, alguns até se tornando numa das mais-valias dos livros, neste não houve a mesma sorte.

Também o final não me agradou. Compreendo a filosofia, a mensagem, o que quer que lhe queiram chamar que estava subjacente, mas… Foram-se assim? Num livro em que todas as peripécias tinham todas as possibilidades de realidade por mais irreal que pudesse prazer, o final teve o condão de desfazer esse equilíbrio. Talvez houvesse também uma intenção de demonstrar incompetência nos serviços portugueses…

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