“Doida Não e Não!”, Manuela Gonzaga

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GONZAGA, Manuela – Maria Adelaide Coelho da Cunha: Doida Não e Não!, Lisboa, Bertrand, 2009

Sinopse: “Não há manicómios, não há cadeias, não há leis, não há homens que nos separem: porque, quanto mais imaginam fazê-lo, mais nos aproximam. Quando dois entes sofrem um pelo outro o que nós temos sofrido, apenas a morte tem esse poder, e para isso é necessário, ainda, que alêm da morte nada exista.”

Maria Adelaide Coelho, filha e herdeira de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias. Mulher do administrador do mesmo jornal, o escritor Alfredo da Cunha. Presa num manicómio por um «crime de amor».

Opinião: Partindo de uma história verídica, o livro assemelha-se mais a um registo que a um romance. De facto, trata-se de dar a conhecer – ou relembrar – o percurso de Maria Adelaide e não de o romantizar. Para tal contribuiu sem dúvida a grande inserção de citações e excertos de documentos escritos pelos “participantes da trama”, inserção essa que ficou bem conseguida. No entanto, também a contextualização histórica se revelou fundamental: a compreensão dos acontecimentos da época, explicados e salientados ao longo das páginas deste livro, levam a que haja também uma melhor compreensão da história privada.

A nível de estrutura, temos uma divisão de dez partes – cada uma sendo uma fase do “processo” –, não faltando as respectivas notas finais. Os capítulos curtos falham a nível da narração: notam-se as vírgulas mal colocadas e as gralhas, revelando a necessidade de uma revisão mais cuidada.

Através deste relato relembramos tanto o grande poder do machismo e do dinheiro – que estiveram na base do encarceramento de Maria Adelaide –, como compreendemos a importância e influência que os jornais tinham conseguido conquistar nesta altura de Primeira República. Maria Adelaide, mulher que não se deixou submeter, soube usar a palavra a seu favor, algo que aqueles que contra ela estavam procuraram também fazer. O privado tornou-se público e a batalha deu-se pela palavra impressa.

O final do livro deixou-me com um travo doce-amargo na boca. Se por um lado gostaria de pensar que Maria Adelaide acabou feliz, por outro fica a lembrança da grande quantidade de mulheres saudáveis que não conseguiram sair da condição de “ineptas” que lhes foi imposta por interesse de terceiros. E se eu gostaria do consolo de “é coisa do passado”, histórias como a de Carlos Rodrigues rapidamente estilhaçam qualquer possibilidade de o fazer.

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Fornada de Contos VII [Fantasy&Co]

Depois de uma pausa na semana passada por motivos pessoais, eis a segunda parte da leitura dos contos disponíveis no Fantasy&Con, leitura essa que estive a colocar em dia com algum fervor 😉 Ficam então as opiniões a contos de Ricardo Dias, Carina Portugal, Leonor Ferrão e Pedro Cipriano.

“Desporto Radical”, Ricardo Dias: Cyberpunk não é um género pelo qual tenha grande apreço, mas este apresenta também traços de Policial, que já é bem mais do meu gosto. O enredo encontra-se bem estruturado, e as personagens apresentam uma ou duas características distintivas, suficientes para o tamanho do conto. Há um bom uso da tecnologia imaginado para o tema do assassino em série. O final ecoa ainda a Terror.

“Jim”, Carina Portugal: Um conto fofinho com o seu grau de tristeza, que usa tanto o “não aceites coisas de estranhos” como “o feitiço virou-se contra o feiticeiro”. Percebe-se de imediato qual a natureza de Jim, o que julgo ter sido propositado. As motivações do vilão ficam por esclarecer, o que achei que poderia ter sido mais desenvolvido. Destaca-se positivamente pelas descrições.

“O Meu Humano”, Leonor Ferrão: Adorei a linha de entrada fazendo um paralelo com a de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Temos aqui um narrador em primeira pessoa: o cavalo. Situando o conto num mundo onde o cavalo é a espécie dominante, a autora subverte a nossa visão, ao mesmo tempo que mantem muito dela. Explora a equitação em geral e os resultados de um mau cavaleiro em particular. É, também, um alerta, servindo tanto de entretenimento quanto de informativo. Apresenta algumas falhas a nível das vírgulas.

“O Cupão”, Pedro Cipriano: Mais um conto ambientado nowordbuilding que o autor tem vindo a desenvolver em vários contos anteriores. Também este se foca apenas num momento, desta vez no percurso de um dos revolucionários. Deixa mais subentendido do que efectivamente conta.

“O Pinheiro de Natal”, Pedro Cipriano: Uma Consoada que se revela triste para a família, mas cujas intervenções do avô falecido são não só proféticas, como podem ajudar a ultrapassar o mau momento. Notei incongruências como uma família rural e religiosa não ir à Missa do Galo, e “Consoada” ora está em minúscula ora em maiúscula. As frases do avô são por vezes ambíguas, parecendo que se referem ao neto, o único que o ouve, em vez de à avó.

“Icarus Blues”, Ricardo Dias: História de tentativa, erro, captura e fuga que utiliza pontos clássicos da SciFi. Curiosamente, considerei “Zarolho”, o alien, com uma personalidade mais sólida que o protagonista e narrador.

“Os Sapatos Negros”, Carina Portugal: Por um acaso de sorte, Âmbar escapou a uma carnificina sete anos atrás. No entanto, para cumprir os seus propósitos, o sacrifício deve ser completado, e os sapatos negros, representação e fonte de poder daquele mal, perseguem-na para terminar o serviço. O conto apresenta boas descrições e uma boa narração, mas desenvolve pouco as personagens.

“A Filha da Peste”, Carina Portugal: Até ao momento é o meu conto favorito da autora. Faz uma excelente ambientação tanto da cidade de Veneza quanto dos festejos carnavalescos, interligando-os com o enredo, que por sua vez está bem construído e multifacetado. As descrições são vívidas e fáceis de imaginar, e as personagens bem construídas, apesar do pouco espaço inerente ao formato. Espero por uma continuação, em particular uma que desenvolva a relação do Orfeo e do Ciro.

“O Poeta”, Pedro Cipriano: Mais um conto em que o autor explora uma personagem do worldbuilding que anda a desenvolver para algo maior. Desta vez aborda um velho poeta que durante vinte anos se fechou ao mundo, desconhecendo, portanto, os acontecimentos do exterior. Um sacrifício com o objectivo de grandeza literária que de nada serve, visto que esqueceu o mais importante: viver o seu próprio tempo.

“Os Cadáveres”, Pedro Cipriano: Narrado em primeira pessoa, faz uso de frases curtas para causar um maior impacto. Apresenta um grande detalhe nas descrições apocalípticas, ao mesmo tempo que mantém uma força psicológica. Há, então, um bom equilíbrio entre a mente do protagonista e aquilo que se passa em seu redor.

“Jardins Suspensos da Babilónia”, Leonor Ferrão: Do modo como o conto está ao momento em que o li, não gostei. Há pontos que se resolvem facilmente com uma revisão, como gralhas, palavras a mais e as falhas na pontuação nos diálogos. Outros já precisarão de um maior trabalho, como a estrutura e as razões para o encadear dos eventos, que se baseiam demasiado na sorte. Não desgostei da ideia base, mas o conto precisa de se expandir, de ser melhor trabalhado e de um maior desenvolvimento.

Fornada de Contos VI [Fantasy&Co]

Foi com surpresa que me apercebi fazer cerca de um ano desde que abri a página do Fantasy&Co para ler os contos e escrever umas linhas de opinião sobre os mesmos para o blog: efeitos secundários de já ler bastantes deles antes da sua publicação. A publicação, no entanto, é o que traz o “produto final”, e, em consequência, eis uma fornada de doze contos de Ricardo Dias, Pedro Pereira, Sara Farinha, Carina Portugal e Hugo Cântara, a ser complementada mais tarde com os que ficaram por opinar.

“O Visitante e o Forasteiro”, Ricardo Dias: O conto pega na criatura mítica do Djinn, começando com um tom pesado, quase lúgubre, que se vai aligeirando até ao fim, altura em que transmite a sensação inversa. Conto simples de leitura rápida onde a simplicidade do twist – as verdadeiras intenções das duas criaturas – lhe dá a sua graça.

“A Emboscada”, Pedro Pereira: Gira em torno de um ataque e de uma batalha, onde três facções desejam um só objecto. Complementa um conto anterior do autor, cada um expondo o ponto de vista de diferentes facções, ainda que ambas humanas. Tal como esse conto precedente, assemelha-se mais a um fragmento de algo maior do que a um conto independente. Algumas das frases parecem apresentar gralhas, no entanto, outras destacam-se positivamente pelas escolhas vocabulares, em particular a nível descritivo.

“A Flecha Perdida”, Pedro Pereira: Também este um conto de batalha, começa calmo, com uma cena de caça que apresenta as personagens principais, duas irmãs, e contextualiza o leitor dentro do enredo. Apresenta elementos que o ligam ao conto anterior, “A Emboscada”, e serve bem o seu propósito de prelúdio: não apenas aos contos já referidos, como a um romance maior, que após a leitura deste punhado de contos suspeito que o autor anda a desenvolver (não passa, no entanto, de conjectura minha). A nível narrativo apresenta algumas inconsistências verbais.

“Migalhas de Ontem”, Sara Farinha: O conto parte da trope de viagem no tempo, não só à Batalha de Aljubarrota, mas em particular à célebre e mítica padeira. O mistério em torno do que é esperado que a protagonista faça – e o porquê de ela se ver naquela situação – é revelado aos poucos, em “migalhas”, sendo as descobertas do leitor em consonância com as da protagonista. Contém falhas na pontuação dos diálogos, algumas vírgulas mal colocadas e a nível descritivo julgo que poderia ter desenvolvido mais o episódio dos sete espanhóis. Nota-se a importância dada ao ofício para a caracterização do espaço, o que levou a uma ambientação bem conseguida.

“Diferente”, Ricardo Dias: Apesar de ser um futuro distópico controlado pelas Clérigos, notam-se reacções que estão bem patentes no presente, sendo tão erradas e desagradáveis quanto uma distopia. Gostei em particular da relação entre Samuel e Eliza e de ver a representação dos erros que se cometem hoje em dia, não apenas em relação aos assexuais, mas a todos os que não são heterossexuais. Ressalvo, no entanto, que um assexual é uma pessoa que não sente atracção sexual, podendo ter outras (romântica, estética…) ou gostar do acto sexual em si.

“A Tempestade”, Pedro Pereira: O que não seria mais do que uma paragem numa igreja para abrigo duma tempestade torna-se em algo mais perigoso quando uma besta ataca a congregação. Não me pareceu um dos melhores contos do autor, tendo-o considerado confuso: a besta carece de maior desenvolvimento, não se compreende qual a direcção do enredo e as personagens são unidimensionais.

“Actos de Dor”, Sara Farinha: Compreende-se muito cedo que Nico está morto, ficando a dúvida se faz o que faz por vingança, por não querer ficar sozinho, ou por ambos. De igual forma, também desde cedo se desconfia – com bastante certeza – o que terá acontecido entre ele e a irmã, relação que despoletou tudo. Apesar disto, a prossecução e condução do conto ficaram confusas. No final compreende-se mais ou menos todo o enredo, mas antes disso há uma incompreensão não pelo mistério, como seria de esperar, mas pela confusão na narração.

“Herança do Escritor”, Hugo Cântara: Segue uma linha de enredo simples em torno de um segredo de família, de escritor. Ou melhor, da passagem desse segredo de uma geração para outra. As personagens também se caracterizam pela sua simplicidade e generalidade, julgo que propositadamente, visto que a nenhuma delas é atribuído nome. Apresenta falhas nas vírgulas nos vocativos, na pontuação dos diálogos e na regra por porquês.

“Nó Górdio”, Ricardo Dias: Pega na trope de viagens do tempo e anomalias temporais. Começa por mostrar o “exterior” – um homem que por acaso encontra e usa um dispositivo de viagem no tempo e é interceptado pelo protagonista –, para irmos indo pela Agência onde o dito protagonista tem papel de relevo, e acabarmos na personagem principal e seu conflito interno e pessoal: um “feitiço vira-se contra o feiticeiro” e uma decisão difícil. A narração encontra-se pejada de referências culturais, fazendo ligações entre a Agência deste conto com elementos de outros wordbuildings – uma em particular que me fez ficar contra a Agência, não se trata assim o Doctor! –, os quais não são enunciados, mas apresentam informações que bastem para serem identificados. Apresenta falhas na pontuação dos diálogos.

“Reviewer”, Ricardo Dias: Numa mistura entre tecnologia e lenda urbana, o excesso do vício é aqui tornado em conto. Trata-se de uma leitura rápida e curta, numa narração bem desenvolvida.

“Lâmina de Cristal”, Pedro Pereira: Essencialmente descritivo, centra-se no caminho e desafios do protagonista enquanto este procura cumprir a tarefa que tem em mãos. A primeira parte alterna com flashbacks da sua infância, o que lhe atribuiu um pouco mais de identidade. Notei uma repetição de palavras, que deu a ideia de eco no texto, e a grande maioria dos desafios são resolvidos por “energia”, algo próximo à ideia de magia.

“Doze Doses de Ilusão”, Carina Portugal: Joga com a fronteira entre a ilusão e a realidade, trocando as voltas do leitor até ao fim. Inicialmente fez-me lembrar “A Menina dos Fósforos”, numa adaptação a um outro género, contudo, apesar de ainda ver uma influência do ambiente, nada mais têm a ver um com o outro.

“Insonho: Durma Bem”, VVAA

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VVAA – Insonho: Durma Bem, Paraná, Estronho, 2015

Sinopse: O folclore português é nostálgico. É fado e saudade. Saudade das tardes sentados, no chão da sala, a ouvir o avô contar sobre o lobisomem. É medo e respeito. Como naquelas noites em que nos deitávamos e pensávamos no Insonho ou na Mula sem Cabeça. Falar sobre o folclore português é viajar pelo interior de Portugal e encontrar as lendas que cheiram a infância e se perderam na pressa de crescer.
A antologia “Insonho – Durma bem!” pretende resgatar essas memórias; trazer ao leitor a inquietude de ser criança, outra vez, e temer as histórias destes seres tristes ou maléficos. Aqui reúnem-se as Mouras Encantadas, o Saca-Unhas, o Adamastor, o Carago, o Bicho Papão e outros numa coletânea que promete embalá-lo num sonho fantástico e cheio de magia. Mas cuidado. Eles podem aparecer… Durma bem!

Opinião: Quando a Estronho e a Valentina Silva Ferreira anunciaram a antologia, abrindo o call to arms, a temática chamou-me de imediato a atenção. Portugal tem um folclore riquíssimo em lendas e mitos, não só muitos como também variados, e apesar de me parecer que este livro apresenta uma boa mão-cheia do aproveitamento das ditas, também muito ficou ainda por explorar. Espero, portanto, ver outros trabalhos que o façam.

Reflectindo o seu ponto de partida, a antologia mostra nove contos muito diversos entre si, tanto nas lendas abordadas, como nos estilos narrativos. Têm em comum apenas o folclore português, e embora a grande maioria seja ambientada no rural, também aí encontramos excepções. Mas melhor será a opinião individual a cada conto:

“Ao Meio-dia”, Carlos Silva: O conto de abertura recupera um leque de lendas antigas, como o carago, o homem das sete dentaduras e bruxarias de aldeias (talvez aquilo que o leitor mais depressa reconhece), interligando-as numa história consistente e bem ambientada, de amor, invejas e tragédia. Julgo que poderia ter desenvolvido mais as informações em relação ao homem das sete dentaduras, que não ficou explícito para quem não o conhece, mas nada mais tenho a apontar, excepto, e por um bom motivo, as citações do início, que se destacaram – não é todos os dias que vemos éditos reais e verídicos em relação a sereias.

“Duelo de Lendas”, Valentina Silva Ferreira: Temos aqui a interligação de várias criaturas místicas, em particular as relacionadas ao sono, que efectivamente duelam entre si, fazendo da protagonista humana e doente campo de batalha (pobre moça). Num twist final o vencedor é outro, que não duelando açambarcou os lucros. Tanto a descrição do ambiente em redor da personagem quanto das suas acções físicas encontra-se muito boa; no entanto, senti falta de um maior desenvolvimento no terror sentido pela personagem no pesadelo, a nível psicológico. Em termos de escrita, aponto apenas a pontuação nos diálogos, que vez ou outra falhou.

“Na Escuridão” Vitor Frazão: À primeira vista a premissa parece “adolescentes fazem o que não deviam e dá asneira”, sempre um favorito. Toda a ambientação – e interacção entre as personagens – dá a entender um filme de terror série B, com uma Moira Encantada. Otwist final, no entanto, confere mais substância às personagens e desvenda os motivos ocultos. Mais uma vez notei uma falha na pontuação dos diálogos, mas num ponto bem mais positivo temos uma boa escrita coloquial, já característica do autor.

“A Voz de Lisboa”, André Pereira: O que inicialmente parece “apenas” um acidente no metro de Lisboa, logo apresenta um cariz sobrenatural. Visto que é narrado em primeira pessoa, o leitor acompanha a (in)compreensão do protagonista, o que salienta o terror psicológico. Considerei um excelente crescimento do texto, tanto da parte do caminho da individualidade para a legião, como da lenta resposta que se foi formando ao chamamento e, em consequência, da compreensão dos acontecimentos.

“A Noite em que o Bicho-Papão Encontrou Kafka no Cimo de um Telhado”, Francisco J. V. Fernandes: Um conto de narrativa calma que alterna entre a infância marcada pelo receio do Bicho-Papão e a velhice, nos últimos momentos de vida. Efectua uma junção muito bem conseguida entre a lenda portuguesa – delimitada por características portuguesas, como a cantilena da avó para afugentar a criatura – e A Metamorfose, de Kafka.

“Sant’Iroto”, Ana Luiz: O início fez-me lembrar a minha infância, visto que cresci numa quinta, e reconheci as actividades da catraia. Toda a ambientação me pareceu natural, a evocar o verídico tanto da dita quinta, quanto da aldeia dos meus bisavós, bem mais para o interior. Trata-se do conto que mais adoptou o tom que utilizamos para falar entre nós das “experiências” sobrenaturais. Tem, no entanto, algumas gralhas.

“Por Sete Encruzilhadas, por Sete Vilas Acasteladas”, Miguel Raimundo: Um conto lupino, que recupera a ideia mais nacional de lobisomen e segue uma narrativa que associamos mais ao tradicional. Um detalhe curioso é a narradora ser uma bruxa de um século anterior ao nosso, a contar uma história ainda mais anterior que o seu próprio tempo.

“Ao Sexto Dia”, Inês Montenegro: Porque ninguém comenta os seus próprios contos em blogs literários, não é?

“Sangue, Suor e… Unhas”, João Rogaciano: O último conto apresenta uma estrutura policial, sendo um encontro entre este género e o sobrenatural. Julgo que poderia ganhar com um maior desenvolvimento do sentimento das vítimas quando são atacadas, e alguns dos diálogos são demasiado expositivos, tornando-se pouco naturais. Também as vírgulas falharam por algumas vezes. É de salientar, a nível positivo, o encadeamento dos acontecimentos e sua condução, bem como o twist final acerca do assassino.

“Bifes Mal Passados”, João Magueijo

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MAGUEIJO, João – Bifes Mal Passados, Lisboa, Gradiva, 2014

Sinopse: Um roteiro de cómicos fins-de-semana mal passados e tentativas frustadas de fazer férias em Inglaterra serve de ponto de partida para uma viagem pela cultura anglo-saxónica, como vista pelos olhos de um português. Invertendo os papeis dos clássicos relatos tão característicos da antropologia colonial britânica, tratando os ‹‹bifes›› do século XXI como eles tratavam os ‹‹cafres›› no século XIX, ‘Bifes Mal Passados’ é alternadamente hilariante e sério, convidando a uma reflexão sobre a identidade cultural, e incitando os portugueses a despojarem-se de complexos de inferioridade.

Opinião: Vivendo há uns anos em Inglaterra, o autor resolveu expressar o seu amor-ódio por este povo e cultura num livrinho (e o –inho é propositado, visto que temos letras granditas, poucas páginas e um preço que podiam muito bem ser mais baixo) de cariz sarcástico, depreciativo e humorista. Nota-se na relação de Magueijo com a Inglaterra o mesmo sentimento com que um português a viver em Portugal fala mal da sua terra. E é neste ambiente que vamos lendo pequenas histórias-relatos e curtas considerações sobre as características do povo inglês: desde hobbies à sociedade, hábitos alimentares, bebida, sexo, educação, e tudo por aí fora.

A linguagem coloquial, com o uso recorrente ao calão, que ficaria aqui muito bem não fosse por vezes a sensação de artificialidade. Talvez seja por estar habituada às ruas do Porto, onde o calão é quotidiano, senti falta neste registo da naturalidade a que estou acostumada.

Trata-se de uma leitura rápida, divertida, e não recomendada a quem a deseja levar a sério.

“A Misteriosa Mulher da Ópera”, VVAA

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VVAA – A Misteriosa Mulher da Ópera, Alfragide, Casa das Letras, 2013

Sinopse: Um desafio. Sete autores. Catorze mãos. Sete personagens inesquecíveis. Uma única história. Uma trama arrebatadora que contém de tudo, desde crimes misteriosos, o fantasma de uma avó violinista, flûtes de champanhe, um gato persa chamado Psiché que por vezes se vê obrigado a fazer de pêndulo de Foucault, uma caixa de violino suspeita de assassinato, uma taberna onde se canta o fado em Xabregas, e amor, amor em catadupas, uma grande paixão, desencontros terríveis, equívocos inexplicáveis, reencontros inesperados. A aventura vai das avenidas de Paris, à Rua Heróis de Quionga, ao Teatro Nacional de São Carlos, ao cais de Xabregas e a um cacilheiro que parte para Veneza deixando um cadáver para trás.

Opinião: Com o título, a sinopse, e o leque de autores conhecidos que já li e comprovei gostar, tinha boas expectativas para este livro. Estas, no entanto, não foram atendidas. O tema que domina o livro é um dos mais interessantes em literatura: a identidade. No entanto, não se encontra bem aproveitado, visto que se perde nas personagens. O facto de todas elas mentirem não é novo nem inesperado para um mistério, mas falta-lhes credibilidade, e a atenção que se dá a esta má aposta, como que rouba o foco que se poderiam ao desenvolvimento da identidade humana.

A narração é quase exclusivamente de tell, provocando um desequilíbrio entre tell e show, e tornando a leitura aborrecida em bastantes partes. Não digo que se deva “mostrar” tudo o que é narrado, pois tal seria falhar pelo outro extremo, contudo, “contar” a grande maioria dos acontecimentos também acaba por fazer com o leitor não crie interesse pela história, nem sinta empatia pelas personagens.

Por fim, e o que é talvez a maior crítica, os capítulos – sempre narrados em primeira pessoa, ainda que não sempre pela mesma personagem – não ligam bem entre si. Julgo que parte do interesse deste livro seria verificar como os vários autores conseguiriam unir numa só história os diferentes tipos de escrita. O que verifiquei na minha leitura é que não conseguiram: nota-se ter sido escrito a várias mãos, faltando uma visão geral que revisse e unificasse a história. O resultado desta falha é que em vez de uma história una, ficamos com algo a tender mais para o fatiado.

Um projecto do qual, portanto, esperava bastante mais.

“A Queda dum Anjo”, Camilo Castelo Branco

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BRANCO, Camilo Castelo – A Queda dum Anjo, [s.l.], Projecto Adamastor, 2013

Sinopse: Calisto Elói é um erudito fidalgo transmontano, austero e conservador, ligado ao passado, às lições da História, às antigas noções de moralidade e bondade e mergulhado constantemente nos seus clássicos de História, Cultura, Música, Vinhos, Filosofia. Eleito deputado do Minho, Calisto é enviado para Lisboa como representante da região. Defensor acérrimo das suas convicções sobre a moral, a verdade e a justiça, a sua cruzada contra a depravação e a corrupção acaba esquecida, quando ele próprio se deixa corromper pelo luxo e pelo prazer que imperam na capital, tomando como amante uma prima afastada, Ifigénia, e transitando da oposição miguelista para o partido liberal no governo. Ironicamente, Teodora, esposa de Calisto, acaba por imitá-lo na devassidão: desprezada pelo marido, une-se a um primo interesseiro e sucumbe aos vícios da modernidade.

Opinião: Não chamaria Calisto de “anjo”. Desde o início que a sua personagem se assemelha mais ao tipo de beata que apregoa e exige a moralidade e “bom” comportamento dos demais, maldizendo-os, apenas porque não esteve ainda numa posição similar. E, de facto, quando a oportunidade lhe surge, cede à imoralidade como todos os outros. Mais do que a queda de um anjo, título irónico, é o percurso de um homem comum, que não foi capaz de agir como falava.

Camilo usa uma escrita rebuscada, aprazível durante grande parte da leitura, que se torna particularmente evidente durante os discursos políticos, tão cheios de arabescos que chega ao ponto de a já mencionada ironia sorrir e acenar ao leitor.

Este escárnio do que é tido como moralidade e de quem a apregoa sem a praticar é o ponto de união em toda a obra. Não está presente apenas na escrita, mas também no enredo e nas personagens. Ainda que diferentes entre si, na sua construção e reacções, não deixam de ter um ponto em comum: nenhuma delas é de confiar, e nenhuma se expressa com honestidade, qualquer que seja a sua intenção.

Uma crítica zombeteira que em nada se assemelhou ao primeiro romance que li do autor, Amor de Perdição.

O ebook pode ser obtido gratuitamente aqui.