“Maremoto”, Djaimilia Pereira de Almeida

PEREIRA, Djaimilia Pereira de – Maremoto, Lisboa, Relógio d’Água, 2021

Sinopse: Ela vive na Rua do Loreto, na paragem do 28. Ele, o combatente, estaciona carros ruas abaixo, na António Maria Cardoso. Maremoto narra a amizade entre ambos, avô e neta acidentais, catástrofe e salvamento.

De Lisboa a uma Bissau imaginada, Boa Morte da Silva, arrumador de carros, arruma a sua vida, escreve-se, dirigindo-se à filha que mal conhece. “Vou cegar minha dor para a minha dor não encontrar teu coração. Que a minha dor nunca encontre o teu caminho, Aurora. Que a minha dor nunca te encontre.”

Opinião: Fatinha é uma sem-abrigo que habita a paragem do 28: é uma mulher que vive maioritariamente no seu próprio mundo, desapegada, ainda com receio de dormir à noite – apenas o consegue pela bebida ou pelo cansaço –, e que necessita de repetir o próprio nome quase como prova da própria existência. Boa Morte é um ex-soldado que lutou pelo lado dos portugueses nas guerras da independência, e que na sua velhice se tornou num arrumador de carros em Lisboa, com o cão Jardel – que o adoptou –, e o projecto de horta que desenvolveu com outros párias da sociedade. Quando consegue algo de bom, ou quando necessita de amparo, partilha com Fatinha momentos de amizade com a inocência do verdadeiro.

Esta amizade é, contudo, uma das camadas da história. O livro curto – que se lê num fôlego – contem capítulo em terceira pessoa, com uma linguagem mais socialmente aceite. Na sua maioria, contudo, tratam-se dos escrito de Boa Morte, num linguagem mais corrente, corriqueira, e nem sempre socialmente correcta. Estes escritos, desabafos e relatos da sua vida comum, são dirigidos a uma filha que não conhece: Aurora – um nome já de si significativo – que Boa Morte sabe que nunca lerá os escritos. Assim como o leitor, o protagonista tem a percepção de que a filha a quem ele se dirige é uma âncora, um auxílio para se expressar e para escrever a si mesmo. São estes capítulos, e o seu desenvolvimento, que dão gosto à leitura. O que para mim começou como algo morno tornou-se numa leitura fascinante: Maremoto é um romance de personagem, e como tal é à medida que se vão juntando as peças do passado e presente de Boa Morte que se constrói a personagem e respectiva complexidade. Porque não haja dúvidas: Fatinha é uma personagem complexa, mas Boa Morte foi quem me causou maior fascínio, nem sempre pelos melhores motivos.

Assim como em obras anteriores da autora, também a identidade e o seu questionamento é um tema central e explorado através de um desenvolvimento da narrativa ímpar e delicado. Algo extraordinário, dado o tamanho do romance. Com pouco, Djaimilia diz muito, e as subcamadas narrativas ganham tanto importância quanto a primeira camada.

Tenho pena apenas pela capa, que não faz jus ao interior, e pouco chama a atenção para a obra. Compreendo o que – julgo – terá sido uma intenção de simplicidade, mas penso ter caído num exagero, pois se não fosse ter tudo já outros contactos com a autora, ter-me-ia passado despercebido.

“Ambições”, Ana de Castro Osório

OSÓRIO, Ana de Castro – Ambições, Lisboa, Sibila, 2019

Sinopse: Toldados pela ideia de ascensão social, uma bela mulher de origem humilde e um médico arrivista estabelecem uma aliança nefasta. Pelo caminho, terão de se confrontar com outros interesses afectivos, sociais ou políticos.

Entre Lisboa e uma vila do interior, as vidas das diferentes personagens cruzam-se numa teia de sonhos e ambições. O leitor delicia-se com o olhar crítico da autora sobre a realidade portuguesa, ao encontrar aqui retratados os seus diferentes extractos sociais.

Opinião: Ambições trata-se de uma novela previamente publicada em 1903 e 1934, tendo havido alterações entre essas versões. Esta publicação, editada e trabalhada por Vanessa Domingos, tem em conta este “passado”, tornando-se num trabalho de edição entre o lúdico e o académico, e onde as notas da editora se tornam necessárias à explicação sobre determinadas escolhas, em particular nas alturas em optou por seguir a versão de 1903, em vez da mais “recente”, de 1934. Este entendimento, obtido durante a leitura, é confirmado no prefácio – que por hábito costumo ler apenas no final –, onde se informa ter sido a presente obra um trabalho de final de mestrado, adaptado para publicação. Curiosamente – ou inevitavelmente – muitas das minhas percepções foram ao encontro das palavras de Vanessa.

O entendimento inicial de que seria um romance dicotómico de mulher santa/mulher pecadora desvaneceu-se rápido com o avançar da trama, a qual é, aliás, muito simples, quase se resumindo a um apresentar das personagens, suas relações, e diálogos. Pareceram-me mais a instrumentos e menos a personagens: contudo, tendo já lido contos, obras infantis, e cartas pessoais, e manifestos de Ana de Castro Osório, não me é possível encarar esta obra individualmente. Não sou capaz de a separar do que li e conheço da autora, e em consequência reconheço em Ambições um transportar semi romantizado dos ideais da autora: a república, o feminismo – apesar de, como natural à época, um feminismo ainda com a ideia da maternidade como sendo a grande realização da mulher, mas em tudo o mais muito avançado, um alicerce do feminismo português –, a defesa do divórcio, e, principalmente, um grande empenho na educação de todos os estratos sociais. Também se destaca uma crítica enfática à hipocrisia e à corrupção políticas, bem como à ambição desmedida e egoísta, numa esfera mais social.

Estranhei a narrativa mais florida, visto que nesta autora estou habituada ao tom mais directo e pragmático que utiliza nos manifestos e nos contos, ou ao mais simples (não confundir com simplista) das suas histórias para crianças. De um modo geral, considerei o romance mais interessante pelo seu contexto histórico-social – tanto na literatura portuguesa quanto no contexto da obra geral da autora – do que enquanto leitura lúdica.

Em relação à edição, trata-se de um óptimo trabalho, e a sua reedição – e consequente facilidade de acesso ao público actual – é uma mais valia à esfera literária portuguesa.

“Lágrimas de Carne”, Fernanda Castro

CASTRO, Fernanda – Lágrimas de Carne, Dame Blanche, 2020

Sinopse: As obrigações de uma carpideira vão além de prantear os mortos. É preciso purificar pecados, libertar mágoas, guiar a alma até a beira do mundo — um trabalho proscrito e desgastante. Para contornar isso, uma carpideira manipula seus filhos adotivos: Suindara, a quase-mulher quase-coruja; e Carcará, o quase-homem quase-falcão — gêmeos de forças opostas, tanto em aparência quanto em princípios. Mais eis que surge uma alma que a garganta carniceira de Carcará simplesmente não consegue digerir — e a relação conturbada entre mãe e filhos é colocada à prova quando a minúscula cidade agreste de Serrita vivencia uma febre do ouro.

Opinião: Apesar de um contexto bem desenvolvido, e de uma linha de enredo sólida, bem encaminhada pela autora, Lágrimas de Carne é uma noveleta de personagem: é nelas que encontramos o foco, o desenvolvimento, e o maior interesse. É na construção das personagens de Suindara, Carcará, e Mãe que a narrativa se centra, tanto nas suas relações – enquanto família, enquanto instrumentos de trabalho –, como nos seus sentimentos: ódio, amor, compreensão, revolta, raiva, incerteza… Suindara, mulher-coruja, e Carcará, homem-falcão, tornam-se humanos pelas suas emoções, mais do que pela sua aparência humanóide. Já Mãe, uma bruxa carpideira que durante grande parte da obra levanta a desconfiança do leitor, apesar dos benefícios que o foreshadowing lhe dá, é apenas totalmente – ou o mais próximo possível de “totalmente” – compreendida quase no final, através de um flashback (analepse, para os puristas): ou, melhor dizendo, da junção de todos os flashback ocorridos.

Algo que também me chamou a atenção em relação a esta personagem é o facto de ser referida como “Mãe”, sempre em maiúscula e sem artigo, o que torna a palavra tanto no seu nome e como na sua identidade: um detalhe revelador sobre como é percepcionada por Suindara e Carcará, independentemente das relações e sentimentos quase opostos que um e outro parecem ter sobre ela.

A escrita é bonita, sem entrar em exageros rocambolescos, o que torna a leitura fluida. A exploração dos sentimentos entre estas três personagens – num trio que dá e recebe tanto entre si, individualmente, como enquanto grupo familiar – é uma lufada para quem precisa de histórias que exploram outro tipo de sentimentos e emoções além do romance.

A reviravolta final é a alavanca que leva ao final em aberto. Apesar de não termos um ponto final conclusivo, e de as personagens terem ainda objectivos a cumprir e sentimentos a resolver, aqueles que existiam aquando o início da narrativa ficam concluídos, pelo que há uma sensação de completude – ao mesmo tempo que se deixa espaço para que mais se escreva em torno destas personagens. 

“Não nos Roubarão a Esperança”, Júlio Magalhães

MAGALHÃES, Júlio – Não nos Roubarão a Esperança, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2012

Sinopse: Poderá o amor nascer em tempo de guerra? No Portugal de Salazar e nos tempos conturbados da guerra civil espanhola, Duarte Oliveira, voluntário português ao serviço das tropas nacionalistas de Franco, é feito prisioneiro pelos republicanos, depois de o seu avião ter caído nos arredores de Barcelona. Um feliz golpe de sorte salva-o de um julgamento sumário e de uma morte certa por fuzilamento. Será trocado por um oficial republicano, perto de Madrid. Duarte inicia uma longa viagem de automóvel que o vai levar de Barcelona a Madrid num território pejado de perigos. Será durante essa intensa viagem que ele conhecerá e se apaixonará por Dolores, a jovem republicana responsável por levá-lo à capital espanhola. Outrora uma defensora ardente da República, Dolores está nos finais da guerra, cansada de ver tanta morte e destruição. Para sua grande surpresa e sem nunca abandonar os seus ideais, a jovem republicana encontrará em Duarte um bom confidente e até um protetor. Tendo como pano de fundo a violenta paisagem desenhada pela guerra civil, Não nos roubarão a esperança, narra o nascimento de um grande amor que terá de provar ser mais forte do que o ódio.

Opinião: Romance pequeno de capítulos curtos, Não nos Roubarão a Esperança é uma leitura fácil, mas que não enche as medidas. O contexto da Guerra Civil espanhol onde se enquadra a narrativa, bem como a participação de voluntários portugueses em ambos os lados, foi o que mais me chamou a atenção e levou à leitura. De facto, parte da discrepância entre dois irmãos “de boas famílias” – Pedro, comunista, e Duarte, fascistas –, e alterna entre as respectivas linhas de enredo, com uma regularidade bem marcada. Num capítulo estamos em 1936, a acompanhar Pedro e, mais tarde, a irmã mais velha, Teresa. No seguinte estamos em 1938, com Duarte capturado pelos republicanos, e a ser levado a Madrid para uma troca de reféns. Esta alternância é bastante fácil de acompanhar, não apenas por ser sistemática, mas também porque em cada capítulo é esclarecido o ano e o local onde a acção se encontra. Ademais as linhas de enredo são simples, sem grandes reviravoltas. O autor foca-se bastante na descrição das mazelas da guerra – por mais de uma vez referindo-se às crianças e o quanto as suas brincadeiras foram afectadas, o que intui uma influência psicológica nefastas, por exemplo. Infelizmente é também bastante repetitivo no que às personagens diz respeito, fazendo seguir o mesmo círculo de pensamentos, distinguirem-se apenas por um só objectivo, e baseando-as muito numa caracterização directa, que ignora mais a indirecta. Em consequência, as personagens tornam-se unidimensionais, não gerando muita empatia. A isso não ajuda as histórias de amor dos três irmãos, pouco desenvolvidas e demasiado rápidas, em particular a de Duarte e Dolores, que ocorre à primeira vista entre pessoas de, então, ideologias sociais absolutamente opostas.

A opção de uma morte importante fora de páginas foi outro ponto que desgostei na estrutura da história: a importância da personagem implicava que fosse descrita ao leitor, e não relegada a um diálogo entre outras duas personagens. Ao tomar esta opção, o autor retirou-lhe o impacto que poderia, e deveria, ter causado.

Também a narrativa deixa a desejar: além do vocabulário repetitivo, encontram-se muitas falhas de revisão, seja em gralhas, pontuação, ou mesmo erros ortográficos, de que é exemplo “tê-lo hás” (pretendendo-se “tê-lo-ás”).

Infelizmente, por tudo o referido, e pela superficialidade do enredo e das personagens, não foi uma leitura que me agradou, apesar de ter conseguido chamar inicialmente a atenção pelo seu contexto histórico-social.

“Caderno de Memórias Coloniais”, Isabela Figueiredo

FIGUEIREDO, Isabela – Caderno de Memórias Coloniais, Alfragide, Caminho, 2018

Sinopse: «O Caderno de Memórias Coloniais relata a história de uma menina a caminho da adolescência, que viveu essa fase da vida no período tumultuoso do final do Império colonial português. O cenário é a cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, espaço no qual se movem as duas personagens em luta: pai e filha.»

Opinião: O título não poderia ser mais preciso, quase rejeitando a necessidade de uma sinopse. A obra é um caderno de memórias coloniais – memórias da autora, e por conseguinte autobiográfico, da sua juventude e início da adolescência em Maputo (quase sempre referida como Lourenço Marques, o nome colonial da cidade, e vigente ao tempo das memórias), bem como da sua experiência enquanto retornada. Não é a primeira vez que leio sobre a experiência e a recepção que os retornados encontraram da sociedade portuguesa da metrópole, mas nunca deixo de me entristecer pela capacidade de ódio, preconceito, e falta de empatia para com outros portugueses, e seres humanos em geral.

Opinião: O título não poderia ser mais preciso, quase rejeitando a necessidade de uma sinopse. A obra é um caderno de memórias coloniais – memórias da autora, e por conseguinte autobiográfico, da sua juventude e início da adolescência em Maputo (quase sempre referida como Lourenço Marques, o nome colonial da cidade, e vigente ao tempo das memórias), bem como da sua experiência enquanto retornada. Não é a primeira vez que leio sobre a experiência e a recepção que os retornados encontraram da sociedade portuguesa da metrópole, mas nunca deixo de me entristecer pela capacidade de ódio, preconceito, e falta de empatia para com outros portugueses, e seres humanos em geral.

A escrita é bastante directa, quase cirúrgica. Isabela Figueiredo conta o que recorda, como recorda, por vezes colocando em causa detalhes das próprias memórias, que não poderiam ser exactamente como o diz por força da lógica (como, por exemplo, a ideia de ter partido de Moçambique vestida de branco, quando sabe que chegou a Portugal com calças azuis). Consegue um equilíbrio entre o sentimento necessário ao envolvimento do leitor e a distância que torna a obra em algo literário para o público em geral, ao invés de um diário de mesinha-de-cabeceira. Ao tratarem-se de memórias, contudo, não temos propriamente um fio condutor – ou melhor dizendo, existe, mas é ténue –, recuando-se por vezes a repetições de ideias ou de assuntos, e de um modo geral encontrando momentos aparentemente aleatórios mesclados e de fora privado com eventos de importância histórico, como os efeitos da independência, e em particular o 7 de Setembro. A verdade, é que tudo se entrelaça num resultado maior e melhor.

A autora não recua também em narrar as suas recordações sócio-culturais da época, embora, mais o vez, o faça num tom mais factual que opinativo – a opinião, essa, encontra-se mais no subtexto, no vocábulo escolhido, na insinuação da ironia, e, por conseguinte, muito a cargo da interpretação do leitor. No devido contexto, utiliza o vocábulo utilizado pelos colonos, quer no discurso indirecto como directo, fazendo assim da narrativa uma gigantesca caracterização, que pode, no entanto, ser dolorosa para quem tem de lidar com esses termos no seu dia-a-dia, e sofre ainda com os preconceitos aqui expostos. Não há hesitação em demonstrar as atrocidades colonialistas ou pós-independência: tudo é exposto.

A obra é também uma relação entre pai e filha, que tanto tem de espinhosa quanto de devoção, discórdia, e amor. Inevitável quando se tem ideia e opiniões tão radicais, mas não se deixa de ter um vínculo profundo com o outro – julgo que haverá bastante identificação por parte de muitos leitores, nos dias que correm.

Os capítulos são curtos, e, pelo menos nesta edição, com algumas fotografias a acompanhar. A leitura, no entanto, torna-se rápida pela capacidade de cativar, e é com pena minha que não se trate de uma obra mais conhecida, tanto pela sua qualidade quanto pelo testemunho em que acaba por se tornar de uma parte tão importante (e recente!) da nossa História, e que tantas vezes é reduzida ao mais básico e linear.

“Meridiano 28”, Joel Neto

NETO, Joel – Meridiano 28, Lisboa, Cultura, 2018

Sinopse: Em 1939, o mundo entrou em guerra. Foi o conflito mais mortífero da história da humanidade. Mas, na pequena ilha açoriana do Faial, ingleses e alemães conviveram em paz durante mais três anos. Eram os loucos dos cabos telegráficos. Do mar em frente emergiam os periscópios de Hitler. Dezenas de navios britânicos eram afundados todos os meses. Já em terra, as crianças inglesas continuavam a aprender na escola alemã, dividindo as carteiras com meninos adornados de suásticas. As famílias juntavam-se para bailes e piqueniques. Os hidroaviões da Pan American faziam desembarcar estrelas do cinema e da música, estadistas e campeões de boxe. Recolhiam-se autógrafos. Jogava-se ao ténis e ao croquet. Dançava-se o jazz. Viviam-se as mais arrebatadoras histórias de amor. Poderia um agente nazi ter-se escondido nos Açores, consumada a derrota de Hitler? Quem foi Hansi Abke? Que sombra lança hoje sobre o destino de José Filemom Marques, o sobrinho criado no Brasil? Um romance que vai de Lisboa a Nova Iorque, de Friburgo a Praga, de Bristol a Porto Alegre e às ilhas açorianas, onde todos são descobertos e ninguém pode ser apanhado. Um reencontro entre dois homens de tempos distintos e que talvez tenham mais em comum do que aquilo em que gostariam de acreditar. Uma memória das mulheres que amaram e talvez não tenham sabido fazê-lo.

Opinião: Meridiano 28 é uma boneca russa em história, onde a realidade, a fantasia, e a romantização do passado se mesclam, por razões bem além do facto de alternar entre a “actualidade” de 2017 – momento em que José investiga e escreve o puzzle que é Hansi, enquanto lida com o seu próprio sub-enredo –, e o Faial durante os anos em que durou a II Guerra Mundial. É de facto curioso a micro-sociedade que se criou durante esta altura, onde crianças inglesas e alemãs partilhavam a mesma escola, e os respectivos pais as mesmas actividades lúdicas, numa quase indiferença ao que ocorria no resto do mundo, e entre as suas nações. No entanto, nada é estático, e também este interregno se foi desenvolvendo, deixando aos poucos de o ser: um processo que é exemplificado não apenas pelas alterações na sociedade da ilha – tanto pelos nativos como pelos soldados –, como na relação entre Hansi e o melhor amigo, Rory.

O enredo, contudo, é pejado de viragens, surpreendendo o leitor à medida que surpreende José, a personagem que, ao ser-lhe dado o papel de investigador, se torna também naquela que conduz o leitor. A obra acaba por juntar elementos de romance, investigação, e romance histórico, onde o amor, o ciúme, o desejo fantasioso, a culpa, e a vingança tomam lugar, muitas vezes despoletadas pelo que as personagens julgam saber, nem sempre correctamente. Adiciona-se ainda uma aparente “caça a um nazi” que, apesar de referida logo no início, durante a maior parte da narrativa é inexistente, até ressurgir no final. Considerei, aqui, uma certa falha em termos de integração dos elementos: não tanto por surgir apenas no principio e do fim, mas principalmente por conter uma personagem importante ao enredo, a qual surge apenas no final. O seu peso pediria uma introdução anterior, e uma presença mais constante, ainda que discreta.

Meridiado 28 é uma leitura acima de tudo curiosa, com uma estrutura interessante, que mantém o leitor interessado pelo “monta” e “desmonta” que parece fazer com o enredo, enquanto se contextualiza num acontecimento de interesse sócio-cultural. Atrai, ainda, pelas descrições das ilhas, em particular o Faial e a Terceira, onde decorre a maioria da trama envolvendo Hansi.

“Olímpicos: Os Jogos dos Deuses e do Diabo”, Vítor Serpa

SERPA, Vítor – Olímpicos: Os Jogos dos Deuses e do Diabo, Lisboa, Cultura, 2021

Sinopse: Desde os inícios dos anos 80 que os Jogos Olímpicos, como hoje os conhecemos, se têm vindo a realizar entre tensões políticas, evoluções sociais, ataques terroristas, ou enquanto oportunidade internacional de afirmação identitária.

Têm sido, também, fulcrais a dar a conhecer aos portugueses – e ao mundo – atletas como Carlos Lopes, Fernando Mameda, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro, Nuno Delgado, Nelson Évora, Naide Gomes, Vanessa Fernandes, Telma Monteiro, Emanuel Silva e Fernando Pimenta, Kerry Strug, Cathy Freeman, Ian Thorpe, Michael Phelps, ou Usain Bolt. Entre citações, memórias e considerações, Vítor Serpa concilia desporto e jornalismo, sem nunca esquecer o atleta.

Os Jogos Olímpicos sempre foram, afinal, mais do que medalhas.

Opinião: Vítor Serpa, jornalista enviado a muitas das edições dos Jogos Olímpicos, desenvolve nesta obra uma mistura entre relato jornalístico, crónica, e texto de opinião. Em capítulos estruturados para uma fácil leitura, o autor dá a conhecer as histórias de desportistas portugueses e internacionais, algumas pessoais, outras de cariz sócio-político, nem todas correspondentes à ideia internalizada de sucesso – mas todas de interesse e com motivo. Uma vez que parte da sua experiência e perspectiva pessoais, a obra encontra-se limitada nesse sentido: não me refiro a opiniões pessoais, mas à impossibilidade de estar em vários locais ao mesmo tempo.

Trata-se de uma leitura leve, mas interessante, em particular como introdução aos Jogos Olímpicos: uma curiosidade para quem o ler já sabendo um pouco sobre o assunto, uma óptima introdução para quem pouco ou nada sabe.

“Oceanïc”, Waldson Souza

SOUZA, Waldson – Oceanïc, Blumeau, Dame Blanche, 2019

Sinopse: A Humanidade agora vive em metrópoles nas costas de criaturas gigantes. Em uma dessas terras, o Exército começa a perseguir um casal que poderá mudar a maneira como as pessoas entendem seu mundo. “Oceanïc” acompanha Rafael e Jonas fugindo da perseguição do Exército por razões que envolvem o passado de um deles — e um projeto misterioso do governo…

Opinião: Oceanïc desenrola o seu enredo dividindo-se em partes que permitem ao leitor saber o que cada personagem, individualmente, sabe: isto porque o narrador, ainda que alterne, é sempre em primeira pessoa, e não omnipresente. A cada ponto de vista é mais um “algo” que se sabe, não apenas do enredo, como também das personagens e, em particular, do mundo criado: deste modo, as histórias individuais tornam-se numa maior.

Tanto as personagens como o enredo se encontram bem construídos, havendo desenvolvimento ao longo da narrativa, sem que o leitor seja inundado num excesso de informação. Através de uma escrita simples, mas bonita – fazendo lembrar um puzzle em que cada peça é escolhida para encaixar – vemos nas personagens, nas suas vidas e relações, uma grande humanidade, onde temas como alcoolismo, sacrifício, imigração ilegal, e a necessidade de escolhas espinhosas fazem parte do dia-a-dia.

O maior ponto de interesse é, contudo, o mundo construído: devido a um evento apocalíptico que fica por esclarecer pelo próprio desconhecimento das personagens – e cuja “verdade” é inclusive colocada em causa – a Humanidade sobrevive numa variedade de cidades construídas em tartarugas gigantes, de origem desconhecida, nas quais se vê o reflexo dos privilégios sociais.

O final permanece aberto, e de um modo geral há a impressão de que se trata da introdução a uma história maior por vir: esta é uma história do surgimento daquelas personagens, da sua fuga, dos seus poderes. Arriscaria mesmo uma história de origem.

A nível de revisão, são de apontar algumas gralhas, como a falta da última letra em algumas palavras, por exemplo.

No geral, uma história de ficção especulativa, disponível em ebook, não apenas recomendável, mas da qual se espera continuação.

“Vida de Prisão”, Pedro Prostes da Fonseca

FONSECA, Pedro Prostes da – Vida de Prisão, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2018

Sinopse: A partir de testemunhos de ex-reclusos, em contrapeso com a influência de magistrados, psicólogos, diretores e guardas prisionais, este livro revisita a nossa ideia de vida de prisão, pela voz de quem, hoje em liberdade, conhece o dia-a-dia atrás das grades melhor do que ninguém.

Em permanente tensão, amor, ódio, vida e morte convivem no retrato que nos desperta para uma realidade tão próxima quanto desconhecida de todos nós.

Opinião: Vida de Prisão é um livro pequeno, de carácter jornalístico, e capítulos curtos, que se lê facilmente numa tarde, mas cujo conteúdo nada tem de leviano. Fazendo uso de teses, acórdãos, notícias, documentos históricos, e as visitas e entrevistas realizadas pelo próprio autor, dá a conhecer a realidade das prisões portuguesas, independente de políticas e políticos. Apesar das várias fontes mencionadas, há um claro foco nos relatos – tanto entrevistas quanto entradas de diários – de ex-presidiários de idades, crimes, e contextos sócio-culturais variados. Enquanto algumas ideias são desmistificadas, críticas há que são corroboradas, bem como ignoradas há vários anos, tanto sobre o funcionamento e estrutura das prisões, como sobre a implementação de medidas de reinserção.

O autor termina com dois anexos: um de gírias prisionais – embora tenha reconhecido algumas palavras como gírias comuns –, cuja funcionalidade será mais para a compreensão e curiosidade do leitor, e outro de estatísticas, a juntarem-se às fontes utilizadas na recolha das informações partilhadas com o leitor.

É, contudo, uma introdução ao tema, não se aprofundando por demais. Por conseguinte, para quem pouco ou nada sabe sobre o sistema prisional português e as realidades que nele se vivem, torna-se numa leitura instrutiva e em nada maçante, mas ficará aquém para quem desejar algo mais aprofundado e detalhado.

“O Sangue da Terra”, Sofia Marrecas Ferreira

FERREIRA, Sofia Marrecas – O Sangue da Terra, Porto, Porto Editora, 2009

Sinopse: Tomasa, a mãe, e Catarina, a filha: entre Lisboa, o Alentejo e Paris, duas gerações de mulheres em busca da felicidade e de sentido para as suas vidas; duas mulheres que, através do trabalho, das suas opções e do seu talento, tentam ultrapassar a solidão, a loucura e a morte.

Opinião: Em capítulos curtos e numa narrativa fluida, o romance apresenta a relação entre mãe e filha, mas, principalmente, a relação de amor que cada uma delas desenvolve: salvo os detalhes e as circunstâncias, ambas vivem uma relação que se torna no paralelo uma e da outra, felizmente com um final díspar, devido às respectivas escolhas. Também a relação de Tomasa e de Catarina com o exterior é abordado, ora explorando o íntimo de cada uma, ora expondo-as às reacções e acções de outras personagens.

Falando-se em personagens, a maioria encontra-se bem construída, credível, e complexa, em particular as protagonistas e o ciclo mais próximo, notando-se uma atenção dada às secundárias de modo a torná-las distintas. A excepção estará em Santa, que não vai além do próprio nome, nos amigos de Catarina em Paris – caracterizados apenas superficialmente – e no artista e professor de Catarina, amigo de Octávio, cujo papel final demanda um maior desenvolvimento prévio.

Torna-se curioso o modo como na narrativa se utiliza a maiúscula em “Filha”, “Mãe”, e “Minha Querida” nas orações directas, como se para as personagens se tratassem de nomes próprios. Também, e ainda na narrativa, chama a atenção a inserção estrutural de orações directas em meio a uma indirecta, que por vezes ocorre. Infelizmente, apresenta algumas falhas a nível da pontuação, de que é exemplo a inexistência de vírgulas em vocativos.

Por fim, é uma narrativa que se apoia muito mais no “contar” que no “demonstrar”, o que leva a que não haja tanto engajamento por parte do leitor em relação às personagens quanto poderia haver, apesar de a leitura levantar interesse suficiente pelos motivos acima descritos.