“13 Gotas ao Deitar”, VVAA

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VVAA – 13 Gotas ao Deitar, Alfragide, Oficina do Livro, 2009

Sinopse: Uma mulher com várias personalidades, um lado negro e mistérios mil por desvendar. Quantos segredos cabem numa vida?

Quando seis autoras se juntam para escrever uma história, o resultado é um romance alucinante, onde não faltam mulheres e homens, doenças raras, médicos de índole suspeita, polícias e muito mistério, tudo servido em doses de humor irreverente.
A história, nascida da imaginação de seis mulheres, promete personagens e uma prosa bem viva… apesar das mortes que vão ocorrendo, como é bom de ver. Este romance constitui um divertimento para as seis escritoras que se encontraram (reencontraram, num caso ou noutro) pelo prazer de dar largas à imaginação e escrever, cada uma, dois capítulos do livro.

Opinião: Seis autoras, treze capítulos: dois por autora, portanto, em que cada uma continua o que a anterior escrever, sem a existência de combinações ou discussões prévias. A inexistência de uma espinha dorsal que segure o enredo fica demonstrada no romance, o qual chega a dispersar-se, deixando pontas aqui e ali, não como uma manta de retalhos, mas como uma manta que deixa escapar alguns fiapos.

Por outro lado, a exploração desta técnica permitiu uma construção complexa das personagens, apresentar um olhar mais completa aos acontecimentos – pois que inevitavelmente cada autora centrava a sua atenção em aspectos distintos – e o desviar de atenções para outras personagens e problemas além dos inicialmente apresentados.

É uma narrativa de mistério, romance, e busca de identidade. Não sendo extraordinária, é uma obra satisfatória.

“O Gesto Que Fazemos para Proteger a Cabeça”, Ana Margarida de Carvalho

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CARVALHO, Ana Margarida de – O Gesto Que Fazemos para Proteger a Cabeça, Lisboa, Relógio d’Água, 2019

Sinopse: Dois homens caminham. Um chega à terra para matar saudades do mar; outro supera um carreiro íngreme com uma carga de azeitonas. O primeiro vem vergado ao peso da vingança. O segundo ao da sobrevivência. Cruzam-se numa estrada, perdida, no Alentejo, junto à fronteira. De Espanha chegam os ecos dos fuzilamentos e os foragidos da Guerra Civil. Transaccionam-se mercadorias, homens, mulheres e até bebés. No espaço de um dia, que medeia dois entardeceres, muitas mulheres de cabelos ensarilhados pelo vento hão-de conspirar num velho depósito de água rachado; duas amigas separam-se e unem-se por causa de um homem que se dissolve na lama. Um rapaz alentejano voltado para as coisas da existência é por todos traído, mas não tem vocação para desforras, e perde o falcão, a sua máquina alada de matar… Duas comunidades antagónicas, que se hostilizam, guerreiam e dependem uma da outra: uma à míngua, entre vendavais e pó; outra prospera, em traficâncias várias, cercada por pântanos, protegida por um tirano local e pela polícia política, abriga todos os rejeitados pela sociedade, malteses, republicanos espanhóis, fugitivos, cuspidores de fogo, ciganos, artistas de circo, evadidas de conventos, bêbados e arruaceiros. As velhas acusações transformam-se, a guerra tem renovados motivos, a raiva escolhe outros métodos. O grito do corpo continua o mesmo, tal como o gesto que fazemos para proteger a cabeça.

 

Opinião: Uma das (muitas) imagens recorrente na obra é a concepção da formiga como um animal longo, seccionado, por se considerar não a formiga individual, mas o carreiro de formigas. Curiosamente, é também uma imagem que encaixa com perfeição na estrutura narrativa da obra: cada capítulo, cada personagem, cada história, é uma formiga que entre analepses e prolepses forma o carreiro. Para este imaginário contribui não apenas a opção de intitular cada capítulo com diferentes versos do mesmo poema, como principalmente a reformulação de um fluxo de consciência, onde acontecimentos e pensamentos se enfileiram, entre vírgulas e quebras de orações, até ao ponto final – um único por cada capítulo.

Enrolando-se e desenrolando-se em torno de duas aldeias alentejanas, dicotómicas, cuja relação oscila entre o predatorismo e a protocooperação, o enredo é um punhado de curiosidades, mais desenvolvidos pelas ditas e pelas personagens que por um fio de enredo propriamente dito. Não é algo que possa ser lido de ânimo leve, exigindo ao leitor grande atenção, bem como uma considerável suspensão da crença.

Por fim, e apesar de ser precisamente a dinâmica narrativa um dos factores que mais se destaca, nem todos os manuseamentos agradaram ou demonstraram efeito: trata-se do caso da quebra e centralização de texto de cada vez que a palavra “meio” surgia, e da substituição da palavra “linha” por uma longa linha visual.

“Custom Circus: Mekanon”, Michel Alex

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ALEX, Michel – Custom Circus: Mekanon, Barcarena, Divergência, 2019

Sinopse: Numa terra futura devastada pela insanidade humana, o estilo de vida voltou a ser orgulhosamente nómada. Clãs de bikers, apoiados por caravanas de trailers e camiões, guiados pelos seus druidas, vagueiam pelo imenso deserto que é agora o Atlântico, fugindo a uma devastadora escuridão que lhes ameaça roubar a liberdade e a vida. Cabe a Storme, Roker e Blu, pertencentes ao grupo mais sagrado dos Wheels, salvaram o estilo de vida, as tradições e a alma de todas as tribos da roda. Mas os senhores das trevas têm outros planos para o que resta da Humanidade, em que o amor, a música e a individualidade não têm lugar. Esta é a imensa história do Custom Circus.

Nota: Este exemplar foi oferecido pela Divergência ao BookTales. Pode ser adquirido aqui. Poder-se-á também conhecer mais sobre o Custom Circus – cuja actuação vai além da literatura – aqui.

 

Opinião: O livro inicia-se com um capítulo 0 onde de imediato o autor se apresenta também como narrador, uma confluência visível várias vezes ao longo da narrativa: apesar da narração heterodiegética, são inúmeros os momentos em que o narrador/autor se dirige ao leitor, apresenta viragens no enredo como sendo sua vontade, ou relembra o facto de serem as personagens não mais do que isso. Explica ainda a origem da saga e um pouco sobre o seu contexto ficcional: o mundo pós-apocalíptico e os protagonistas que o vivem.

É evidente a influência da imagem durante todo a narrativa. Desde a descrição do ambiente à das personagens, o modo como se movimentam, como se vestem, e como se movem, é patente que o autor continha um ideia clara do que queria que o leitor visualizasse com a leitura. Infelizmente falha ao não aprofundar os elementos da obra: algo que é comum a várias facetas. O enredo é linear e pouco inovador – os vilões a quererem sobrepor-se aos heróis pelo poder –; as personagens assemelham-se entre si, tanto pelo modo de estar como pelo de falar, sendo as personagens femininas particularmente similares entre si; as relações entre as personagens são abruptas, sem substância narrativa que as sustente; o pacing do enredo é irregular, dando a ideia de os desenvolvimentos descritos terem sido lembrados conforme se foi escrevendo, sem que uma revisão e reescrita posterior o equilibrassem; o próprio worldbuilding, o elemento que se poderia tornar no mais forte pilar da obra, carece de aprofundamento, tornando-se em não mais que uma imagem, em vez de um contexto sócio-cultural.

Algo que se evidencia no estilo de escrita é a informalidade. Sabemos, pelo próprio autor, ter o Custom Circus surgido por conta das insónias, ou seja, será válido deduzir que a escrita seria, primordialmente, do autor para si próprio, e só depois destinada a terceiros. A ser esse o caso, não é de estranhar a descontracção narrativa. Ao alterar-se a sua finalidade, todavia, teria sido aconselhável uma revisão profunda que expurgasse certos detalhes que atribuem um carácter de amadorismo ao texto: pegando em três exemplos, o excesso de onomatopeias (em particular as que pretendem reproduzir risos ou choro); a escolha de linguagem floreada em diálogos, a qual os torna pouco credíveis; e o uso erróneo de parágrafos, separando o verbo da fala, e pontuação nos diálogos, como se pode ver:

“ – Ah! Que linda criatura! Pareces tão jovem…

Constata Zaat, com a face sempre velada na penumbra do seu manto.”

Apesar da ideia cerne da obra ser chamativa, a sua prossecução carece nos pontos indicados, o que infelizmente levou a que não me fosse uma leitura aprazível.

“O ano em que não ia haver Verão”, Rute Silva Correia


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CORREIA, Rute Silva – O ano em que não ia haver Verão, Alfragide, Oficina do Livro, 2014

Sinopse: Gizela Espinosa é uma herdeira deslumbrante que acumula dinheiro e poder de sedução. Santiago é um artista interesseiro e dominador. Em Lisboa, toda a gente conhece os dois amantes. Quando o guitarrista Jonas Vasconcelos morre misteriosamente, um terrível segredo de família ameaça revelar-se e só a indiscreta Rosalina poderá, ou não, evitar um desfecho escandaloso.

Num diálogo de desencontros, as personagens deste romance urbano, decorrido na Lisboa dos dias de hoje, entram e saem das camas uns dos outros, do divã do psicólogo Raúl Veracruz e também de um obscuro clube secreto na Praça de Londres, onde máscaras e mentiras são os acessórios mais excitantes.

 

Opinião: O enredo da obra – fracamente apresentado – foca-se num triângulo amoroso incompreensível à maioria das personagens, no suicídio de um amante, e num segredo que se antevê. O desenvolvimento é aparente, pois a narrativa limita-se a focar na apresentação de uma variedade de personagens, das quais muito poucas seriam necessárias, e a enrolar-se em torno das mesmas situações e informações: motivo, também, para que a fragmentação do enquadramento temporal não seja desconcertante à leitura.

As personagens salientam-se, além do já referido, por uma apresentação tão puxada ao extremo e ao caricatural que se tornam ridículas. Dificilmente se poderá falar em “construção”, pois a maioria é mostrada ao leitor como tendo um número de características ou comportamentos chaves dos quais nunca se afasta: isto no caso de voltar a aparecer, e não ficar esquecida no respectivo capítulo.

Também a narração deixa uma impressão negativa. Depreende-se uma intenção de informalidade e irreverência, no entanto, revela-se antes como um conjunto de chavões, declarações sem sentido e, por vezes, roça a ofensa fácil no já muito batido.

Em suma, pareceu-me uma obra que se procurou arrojada, mas que de modo algum o conseguiu.

“Obras Completas: Volume I”, Maria Judite de Carvalho

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CARVALHO, Maria Judite de – Obras Completas: Volume I, Lisboa, Minotauro, 2019

 

Sinopse: A presente coleção reúne a obra completa de Maria Judite de Carvalho, considerada uma das escritoras mais marcantes da literatura portuguesa do século XX. Herdeira do existencialismo e do nouveau roman, a sua voz é intemporal, tratando com mestria e um sentido de humor único temas fundamentais, como a solidão da vida na cidade e a angústia e o desespero espelhados no seu quotidiano anónimo.

Este primeiro volume inclui as duas primeiras coletâneas de contos de Maria Judite de Carvalho: Tanta Gente, Mariana (1959) e As Palavras Poupadas (1961), Prémio Camilo Castelo Branco.

 

Opinião: Autora do século xx, Maria Judite de Carvalho não tem sido muito relembrada nos últimos anos: esse panorama parece estar lentamente a alterar-se, não apenas com a sua inclusão em cursos ou debates, mas principalmente com a reedição das suas obras. E, após a leitura deste primeiro volume, só posso considerar esse facto como óptimo, esperando que não haja impedimentos a que o projecto se complete.

Quer Tanta Gente, Mariana como As Palavras Poupadas se tratam de colectâneas, reunindo contos que divergem em tamanho, foco e narrador. No entanto, apesar de também conterem diferentes temáticas, transmitem ao leitor a sensação de uma unicidade, resultante do factor humanista sempre presente. De facto, cada conto explora o ser humano, a sua posição da sociedade, as consequências não previstas dos seus actos, e as dicotomias e paradoxos que contém, por mais simples que ao início ou à primeira vista pareça. A isto contribui também a narrativa: uma escrita de vocábulos certeiros e ironia subtil.

“A Quinta do Pinheiro”, Adelaide Passos

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PASSOS, Adelaide – A Quinta do Pinheiro, Lisboa, Cultura, 2019

 

Sinopse: Todas as famílias têm uma história para contar.

Décadas depois da morte da sua avó Angélica, Camila, sente o apelo para visitar a quinta no Douro em que seus antepassados viveram e decide retornar de África.
Ao mesmo tempo, Vitória, bisneta de Angélica, parte do Brasil para Portugal, com objetivo de desbravar suas origens e tentar conhecer um pouco mais da história de sua bisavó Angélica, sobre quem ouviu tantas histórias quando criança. Ao visitarem o lugar em que a matriarca da família viveu até o último de seus dias, neta e bisneta encontram-se pela primeira vez e buscam juntas respostas que já sabem não conseguir encontrar sozinhas. E, para isso, contam com a ajuda de laços afetivos de outras vidas para o entendimento do real propósito de suas vidas.

 

Opinião: Comecei a leitura com boas expectativas por indicar tratar-se do encontro entre gerações de mulheres que, pertencendo à mesma família, são fruto de diferentes lusofonias, com ascendência no Douro. De facto, na segunda parte, temos uma reunião como a descrita, sendo a primeira dedicada às origens e aos eventos que levaram à dispersão familiar. Infelizmente a prossecução desfez rapidamente as expectativas, pois levou a que a leitura se tornasse morosa e desinteressante. De um modo geral, há um desequilíbrio gritante entre o dito e o demonstrado: praticamente todos os eventos e toda a caracterização de personagens é realizada por afirmações “X era uma mulher assim e assado, fez isto e aquilo, sentiu-se aqueloutro”, transmitindo a morosidade de um relatório e falhando no despoletar do interesse ou da empatia. Esta característica afecta negativamente tanto o desenvolvimento do enredo quanto a construção de personagens.

Em termos narrativos, encontramos uma fusão das três lusofonias, julgo que fruto mais da vivência da autora que das personagens, pois nos registos directos o modo de falar não reflecte as respectivas naturalidades. Os diálogos são artificiais, pouco convincentes, e frequentemente deslizam para o paternalismo. Os eventos dramáticos excedem-se, em particular na segunda parte, ao ponto de criar saturação em vez de empatia ou compreensão. É focada, em especial a morte de uma criança, neto de uma das personagens, levada pelo cancro: compreensível, atendendo a que parte dos royalties das vendas desta obra reverte para o trabalho de investigação do Centro de Investigação de Tumores Cerebrais do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, como informado tanto na contracapa quando no final do livro.

Por fim, outro factor que não me pôde passar despercebido é a constante afirmação, tanto directa quanto indirecta, de ser a maternidade a completude da mulher, sem que a consideração de outras realidades. Inclusive em relação a uma das personagens que, estéril, complementa-se através dos sobrinhos.

“Vilãs”, VVAA

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VVAA – Vilãs, [s.l.], Corvus, 2019

 

Sinopse: Madrastas. Rainhas más. Princesas injustiçadas. Mulheres traídas. Vilãs nos acompanham desde os primeiros contos-de-fadas, destinadas à derrota para que os heróis possam triunfar.

Agora, vamos conhecer as versões delas. De maçãs envenenadas a vinganças de feiticeiras traídas, a antologia VILÃS desperta o lado mais obscuro da fantasia.

Opinião: A antologia reúne dez contos de dez autoras sob a premissa de dar voz a mulheres tipologicamente vilãs, seja de criação original, seja recontagem ou reinterpretação de contos já conhecidos. Sendo uma leitura interessante no seu geral, é natural que uns contos se tenham destacado mais que outros, por diversas razões. Como habitual seguem as opiniões individuais a cada conto.

 

“Abandonada”, Karen Alvares: O conto começa logo indicando intertextualidade com autoras como Jane Austen e Eleanor Porter, a qual é ecoada mais na personalidade e acções das personagens que no enredo ou na temática. Paula, a narradora, uma mulher introvertida, sem desejos maternais, e que há muito cortara contacto com a família vê-se a braços com uma obrigação que não deseja quando a morte da irmã lhe despeja a sobrinha em casa. Do pai da menina, sabe-se que abalou para fora do país, com outra mulher. Durante o curto tempo que Paula aceita a sobrinha, Poliana, em casa, enquanto espera por se esclarecer com a advogada, a menina demonstra uma personalidade – e até capacidades – evocativas das heroínas de contos-de-fadas, o que acentua as consequências da viragem final dos acontecimentos. A narrativa é pejada de detalhes críticos às percepções actuais da mulher e do seu lugar na sociedade, bem como a dualidade como as acções de homens e mulheres são encaradas, não entrando em desenvolvimentos que se desviariam do foco do enredo, mas não sendo supérfluos. Uma história a vários vilões.

“A Mais Bela”, The Wolf: Um recontar de Branca de Neve não apenas centrado na perspectiva da madrasta, mas também situado na Alemanha de 1939 e ambientado no universo cinematográfico, onde o envelhecimento e o surgimento de concorrência mais jovem é uma espada de Dâmocles. O enredo chama o interesse pelo uso e adaptação que faz dos elementos da história original, mantendo traços de Fantástico, contudo, esteve aquém das suas potencialidades pela falha de desenvolvimento, em particular em relação ao aprofundamento dos sentimentos e motivações das personagens – os quais surgiam repentinamente. A escolha da janela temporal não é, também, compreensível, visto não afectar a narrativa: não ter sido indicado o tempo não teria alterado a ficção; o que já não acontece com a escolha do país, por exemplo, visto ser uma referência ao conto original.

“A Face da Inocência”, Deia Klein: Apesar de narrar uma história original, a tipologia do enredo e das personagens recriam as que encontramos nos contos-de-fadas ou folclóricos, com a diferença de se encontrar narrado em primeira pessoa. A narrativa permite uma leitura fácil, apesar de um excesso de vírgulas. O ciúme é o que alimenta os eventos, e a necessidade de se defender ameniza a acção da protagonista.

“Bendita seja a Criação, Maldita é a Criatura”, Geovanna Ferreira: Uma escritora e uma casa abandonada e isolada são o mote deste conto. As tragédias de várias mulheres, expostas ao leitor, assemelham-se a retalhos, unidos pela inactividade propositada de um anjo-da-guarda: mas o que inicialmente parece ser a espinha dorsal é, afinal, também mais uma história. A construção narrativa leva a um engano que só se revela no final, sendo esse o elemento mais positivo do conto. O encadeamento dos eventos, todavia, não prende à leitura, pela ideia de desorganização e aleatoriedade – ainda que possivelmente propositada – e pela construção frásica, onde a constante troca de posição entre sujeito e predicado apenas levou a um estranhamento negativo.

“Mal de Ojo”, Soraya Coelho: A história usa elementos de vingança, tarot, e bruxaria; de acção em acção, o leitor vai compreendendo a motivação da protagonista e o papel desempenhado por cada um daqueles que sofrem da sua justiça: contém um bom pacing, que leva a que o desenrolar da história mantenha o interesse. O uso de expressões espanholas leva a supor que se situa num país latino, contudo, logo desde o início, ao falar-se na casa de doces, é compreendida a ligação com Hansel e Grettel. No final é perceptível tratar-se de uma história de origem.

“Marcada”, Nara Odelle: A história ecoa Frankenstein – penso que não propositadamente – ao explorar o que é um monstro e o que leva algo ou alguém a tornar-se num. Através de uma narrativa capaz de prender à leitura, cria na mete do leitor imagens belas, mas não idílicas. Utiliza, ainda, o ambiente circense para os seus propósitos.

“Os Sóis de Maria”, Laísa Couto: Um conto curto mas potente, onde não é permitido ao leitor distrair-se, sob pena de incompreensão. Mais uma vez, joga-se com a ambiguidade da dicotomia bem/mal.

“A Assassina do Príncipe”, Thais Rocha: Através de uma narração inserida em narração, apresentação a história de Skylar, rejeitada desde a primeira meninice pelos seus poderes sobrenaturais, e responsável pelo assassínio do príncipe. A história peca por falta de desenvolvimento, com grande desequilíbrio entre o mostrado e o contado (pendendo para o segundo), e aprofundamento das motivações das personagens, em particular do irmão e do príncipe. Também a narrativa não cumpre o total potencial, sendo repetitiva e contendo falhas de pontuação, bem como algumas gralhas.

“Ao Ouvir os Sussurros da Morte, Ela Respondeu”, Ana Cristina Rodrigues: Numa narrativa agradável, em primeira pessoa, acompanhamos a infância e adolescência da protagonista, numa história de origem com bom pacing e desenvolvimento. O factor mais forte do conto é, contudo, a capacidade de demonstrar muito sobre o wordbuilding em caracteres limitados, e sem que se torne maçante ou descure na construção da personagem.

“A Natureza das Minhas Intenções”, Fabiana Ferraz: Igualmente seguindo uma narrativa em primeira pessoa, a autora faz uma recontagem do que – por diversos elementos utilizados – se deduz ser o filme Branca de Neve da Disney. A Rainha Má partilha, assim, o seu ponto de vista ao partilhar a sua história, seguindo uma linha de empoderamento ante um mundo de ideais medievais; alterando, inclusive, o final (ou talvez “acrescentando ao” seja mais indicado). Apesar de ter potencial para se desenvolver, a apresentação demasiado “preto no branco” e as interacções com Branca de Neve não convenceram.