“A Vida Sexual da Mulher Feia”, Cláudia Tajes

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TAJES, Cláudia – A Vida Sexual da Mulher Feia, [s.l.], Agir, 2008

Sinopse: Num texto muito bem-humorado, a gaúcha Claudia Tajes descreve aventuras e desventuras da mulher feia, desde o tratamento diferenciado que recebe na família e na escola até os relacionamentos amorosos na vida adulta.

Opinião: Com um narrador autodiegético, a estrutura segue o formato (simplificado) de uma tese ou trabalho académico, no intento de narrar uma sequência de peripécias amorosas – umas mais efémeras que outras – que nunca terminam em “bem”, ou pelo menos com a satisfação da protagonista (a mulher feia) no campo do romance. Seja porque o ele do momento termina com a relação semi-escondida ao não precisar mais (de passar o tempo, de sexo fácil, etc), seja porque ela tem auto-estima suficiente para não aturar abusos de quem se coloca demasiado à vontade por achar – ainda que isso raramente seja dito ipsis verbis – que ela tem é sorte por haver alguém que a queira. No final concluiu-se que o “azar” é geral e não restringido à mulher feia, incluindo-se relatos ditos reais de mulheres, sem distinção de beleza, classe social ou riqueza, que em nada ficam atrás das desventuras fictícias.

É uma leitura leve e que não exige muito, que ajuda a espairecer, mas não vai mais além, nem me parece que tenha esse objectivo. A narrativa segue também essa função, não sendo nada de extraordinário, mas não tendo também falhas crassas, seja no estilo, seja na gramática – ressalto-lhe apenas o uso desnecessário de parágrafos fora da sua função.

Não é uma comédia que me tenha feito gargalhar, ou onde me tenha apegado às personagens – caracterizadas apenas o suficiente para se tornarem distintas umas das outras e cumprirem a sua função narrativa. De igual forma, não é uma comédia que me tenha aborrecido. Trata-se, meramente, de uma ficção mediana.

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“Os Espiões”, Luis Fernando Verissimo

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VERISSIMO, Luís Fernando – Os Espiões, [s.l.], Alfaguara, 2009

Sinopse: Luis Fernando Verissimo constrói, neste livro, uma alegoria híbrida de mitologia, humor e mistério. Ainda se curando da ressaca do final de semana, na manhã de uma terça-feira, o funcionário de uma pequena editora recebe um envelope branco, endereçado com letras de mãos trêmulas. Dentro, as primeiras páginas de um livro de confissões escrito por uma certa Ariadne, que promete contar sua história com um amante secreto e depois se suicidar. Atormentado por sonhos românticos, esse boêmio frustrado com seu casamento, e infeliz no trabalho, decide tomar uma atitude – descobrir quem é Ariadne e, se possível, salvá-la da morte anunciada. Na mitologia grega, ela ajuda Teseu a sair do labirinto. No entanto, o autor cria uma Ariadne ao contrário, que vai enfeitiçando o protagonista e seus amigos de bar, os espiões deste livro.

Opinião: Quando o editor de uma vanity recebe o primeiro capítulo de uma obra que, apesar dos erros ortográficos, lhe despoleta o interesse numa vida que tem como falhada, é despoletado também o enredo. Segue-se um mistério policial em povoação pequena, onde a investigação é levada a cabo por um grupo de homens estarolas, fazendo uso tanto dos capítulos que vão chegando quanto das informações que vão conseguindo in loco. Estas informações chegam ao narrador, o editor, por vias de terceiros, estando portanto limitadas tanto à visão desses terceiros, como são depois moldadas à livre interpretação feita pelo narrador, que se vê como o herói salvador de uma pura donzela romanesca.

Ao longo da leitura nota-se a exímia comédia caricatural tanto ao meio editorial quanto à acção populacional em meios pequenos, assim como à tendência de tirar conclusões erróneas por puramente se ter em conta a própria percepção, ignorando a mais geral. Contribuem também para esta caricatura as personagens, que apesar de à primeira vista parecem apenas um conjunto de criaturas excêntricas pelo mero objectivo da comédia, acabam por ir relevando o seu propósito e demonstrando uma alteração de atitudes e comportamentos em consequência dos eventos.

A conjugação de tudo o acima indicado gera uma leitura crítica e divertida, com o final que se esperaria.

“Anjos”, Carlos Silva

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SILVA, Carlos – Anjos, Aveiro, Divergência, 2017

Sinopse: Numa Lisboa futurista, reconstruída após um terramoto ainda maior do que o de 1755, a informação é mais preciosa do que nunca. A mais delicada e desejada não pode correr o risco de circular pela omnipresente internet – tem de voar sobre ela, nas mãos inefáveis daqueles que se autointitulam de Anjos.

Mas nem eles estão seguros, agora que os seus inimigos sabem da terrível arma da qual são guardiões. Um engenho apenas possível no passado, capaz de inverter a balança de poder na nova cidade. O círculo está a apertar, cada vez mais letal. Ninguém sairá ileso.

 

Opinião: Um enredo de acção e mistério ambientado num worldbuilding científico-futurístico de cujos detalhes a trama não se acanha em tirar partido. É muita a informação que é necessário transmitir ao leitor, não apenas em relação ao funcionamento da sociedade e das tecnologias nela utilizadas, como também às personagens, que apesar de três ou quatro que mais se evidenciam, tem ainda um núcleo principal consideravelmente numeroso. Durante grande parte da narrativa essa transmissão é conseguida, com um bom equilíbrio entre o tell e o show, e não havendo uma ânsia de “despejar” informação logo num primeiro momento, sendo esta dada aos poucos e conforme a sua necessidade. Momentos há, contudo, em que não é tão bem conseguido, em especial no que respeita às personagens – algumas por não terem sido tão desenvolvidas quanto necessário, outras pela morte repentina e off screen que, pela posição que detêm no enredo e para o leitor, se tornou demasiado abrupta, sem necessidade.

O enredo desenvolve-se de forma lógica e estruturada, sendo que os plot twists acabam por ser deduzidos, também por esse motivo, momentos antes de se revelarem oficialmente ao leitor. Em relação à narração, segue também um registo também bastante factual, seguindo o mesmo tom quer descreva acção, quer aborde mais um desenvolvimento sentimental de uma personagem.

O mais negativo a apontar serão as gralhas – de pontuação ou palavras trocadas, por exemplo – que são constantes no texto, tendo escapado à revisão.

“A Confissão de Lúcio”, Mário de Sá Carneiro

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CARNEIRO, Mário de Sá – A Confissão de Lúcio, [s.l.], Projecto Adamastor, 2013

Sinopse: “Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi; morto para a vida e para os sonhos; nada podendo já esperar e coisa alguma desejando — eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é: demonstrar a minha inocência.

Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro, é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples, é esta.”

Opinião: Associamos confissão à admissão de algo negativo, de algo feito de mau e para o qual desejamos expiação. Apesar de ser, a seu modo, uma expiação, a história contraria essa ideia, começando assim por surpreender o leitor logo no início: algo que torna a relação título/obra num factor de engenho.

O narrador autodiegético pretende, então, deixar por escrito a sua inverosímil inocência de um crime cuja pena expiou durante dez anos em prisão, não por desejar ser ressarcido ou por considerar que tal lhe trará alguma alteração de espírito, mas puramente pela necessidade de partilhar. Trata-se de um drama existencial com traços de fantasia, onde a única personagem sem grandes características ou desenvolvimento – a mulher – é-o propositadamente e com uma função em mente. As restantes têm uma caracterização contínua ao longo da narrativa, tanto directa quanto indirecta, cujo maior ou menor grau se prende também com o peso e importância que têm para o enredo.

Apesar de trechos onde há um alongamento e repetição desnecessários – característica da época – e das falhas de utilização de vírgulas (onde é dada prioridade ao “efeito” e se acaba por colocar vírgula entre sujeito e predicado, por exemplo), a narrativa é, no seu geral, agradável à leitura, destacando-se o vocabulário excelso, mas acessível.

Esta obra encontra-se disponibilizada pelo projecto Adamastor, de forma gratuita, aqui.

“Histórias do Fim da Rua”, Mário Zambujal

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ZAMBUJAL, Mário – Histórias do Fim da Rua, Lisboa, Quetzal, 1987

Sinopse: Depois do enorme sucesso de ‘Crónica dos Bons Malandros’ – 14 edições e uma adaptação ao cinema – Mário Zambujal regressa com ‘Histórias do Fim da Rua’, uma novela que decorre numa rua antiga de Lisboa, onde as histórias – divertidas ou dramáticas – dos seus moradores de sempre, se misturam com a história de Sérgio – perdão, Dr. Sérgio – e Nídia, sua mulher, habitantes recentes. A rua, tal como o casamento de Sérgio e Nídia, estão ameaçados. Novos planos urbanísticos num caso, a usura do tempo ou a rotina dos dias, no outro. num estilo ágil, aberto e amadurecido, Mário Zambujal leva o leitor a participar, a divertir-se, a «torcer» por um ou dos outros personagens numa obra que vem a confirmar a aceitação unânime do seu livro de estreia.

 

Opinião: Um livro curto que ao longo de capítulos igualmente curtos vai dando a conhecer alguns dos habitantes mais caricatos de uma rua em particular em Lisboa, onde o ambiente e interacções de aldeia ainda se mantêm, apesar de pertencer a cidade. Ainda que todos os capítulos sejam em primeira pessoa, o narrador vai-se alternando, passando por várias das personagens comentadas num e noutro capítulo, mas predominando sem dúvida as narrações de Sérgio e Nídia, o casal de um estatuto social acima dos demais, que em paralelo com a rua recontam a história do casamento falhado, agora prestes a findar-se com um jantar de divórcio. De enredo não tem muito, fica-se pelo já dito. O foco encontra-se na caracterização indirecta das personagens e no seu desenvolvimento, feito aos remendos e através de diversos pontos de vista, em que o acontecimento que é apresentado por um, aparece reconhecido de modo diferente por outro dois capítulos a seguir. A escrita a isto contribuiu, adoptando uma informalidade que se flexibiliza para melhor se adaptar ao narrador do momento, como se de uma conversa – melhor dizer, fala – se tratasse em vez de escrita.

Apesar destas bem conseguidas contextualização e caracterizações, não considerei o melhor do autor, na medida em que conheço obras onde consegue o mesmo, sem ficar o enredo desfalcado. Ademais, o plot twist final em relação a Sérgio e Nídia tornou-se esperado e sem bases dentro do desenvolvimento do enredo que o justificassem. Mais inovador teria sido manter a ideia original.

“A Arma Escarlate”, Renata Ventura

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VENTURA, Renata – A Arma Escarlate, São Paulo, Novo Século, 2011

Sinopse: O ano é 1997. Em meio a um intenso tiroteio, durante uma das épocas mais sangrentas da favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, um menino de 13 anos descobre que é bruxo.

Jurado de morte pelos chefes do tráfico, Hugo foge com apenas um objetivo em mente: aprender magia o suficiente para voltar e enfrentar o bandido que ameaça sua família. Neste processo de aprendizado, no entanto, ele pode acabar por descobrir o quanto de bandido há dentro dele mesmo.

Opinião: Com inspiração em Harry Potter – obra a que faz várias referências, assim como a outras dentro da fantasia, tratando-as como reais – chega a parecer uma caricatura, embora não num sentido negativo. A premissa é a de retratar uma escola de bruxaria brasileira, adequando-a a essa realidade e explorando essa ambientalização: uma premissa interessante (pensada bastante antes de J. K. Rowling ter expandido o seu universo além das três escolas canon), mas que infelizmente não teve uma boa prossecução. Dividida em duas partes, a estrutura narrativa é fraca, assim como o são os alicerces do worldbuilding, dado a conhecer maioritariamente em detalhes aleatórios e elementos que são referidos de raspão.

Também a maioria das personagens e suas relações se encontram mal desenvolvidas, provavelmente pelo desejo de se querer abordar muito em simultâneo, o que resulta num produto final superficial e atabalhoado. Com algumas excepções, a maioria das personagens não ultrapassa esta ou aquela característica, não se dando a conhecer nem sofrendo qualquer alteração com os acontecimentos. De igual forma, as sua relações são estabelecidas mais à base do dito que do demonstrado – quando não surgem do nada, como é o caso do interesse amoroso de Hugo por Maria.

A procura em representar por escrito o sotaque das personagens ficou também aquém. Não poderei tecer comentários em relação aos sotaques dentro do próprio Brasil, mas em relação aos sotaques francês e português ficou francamente mal feito: especificando em relação ao português, misturou-se o uso de “tu” com “você” nas conjugações verbais, e abusou-se no termo “rapariga”, que sendo uma palavra perfeitamente integrada e inocente no português europeu, não é usada em toda e qualquer oportunidade.

A escrita demonstra o desejo de ser acessível e aprazível a uma variedade de diferentes leitores, precisando contudo ainda de algum polimento. A estrutura narrativa, todavia, peca pela brusquidão das mudanças espácio-temporais, e pelo notório plot driven de personagens a surgirem em locais onde não faz qualquer sentido que estejam (um forte exemplo é o do Abelardo no morro, aquando o final, cuja presença não só não é demonstrada [apenas mais tarde se fala que lá esteve], como não se explica como foi lá parar ou com que objectivo), ou adquirirem conhecimentos sem qualquer precedente que o justifique.

Não deixou, no entanto, de ter havido interesse em ler sobre como elementos brasileiros poderiam moldar este mundo, dando um certo divertimento à leitura. Algo também de positivo a destacar é o antagonista: apesar de termos um vilão principal bem vincado, bem como outros vilões menores, o antagonista de maior importância acabou não apenas por não pertencer ao mundo mágico, como se entrelaça no próprio protagonista: as suas escolhas.

“Mar Liberal”, Jaime de Oliveira

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MARTINS, Jaime de Oliveira – Mar Liberal, Barcarena, Marcador, 2017

Sinopse: Logo após as Invasões Francesas, Portugal entra numa profunda crise. Assassinatos, conjuras, revoluções e contra-revoluções são parte da vida de muitos portugueses. Num cenário de guerra civil, Teodoro e Rufino, dois jovens e grandes amigos de infância, partem de Leiria à conquista dos seus sonhos, com o fim de conhecer o mundo a bordo de navios da marinha mercante.

Mas esbarram nas dissonâncias de um conflito que os vai colocar em lados opostos da barricada. Com um enredo cativante, Mar Liberal é um retrato da nossa História, cheio de reviravoltas, humor, acção e desenlaces surpreendentes.

Opinião: Ambientado durante a Guerra Civil – inicia-se com a prisão de Gomes Freire de Andrade e termina com o fim da guerra –, o enredo descreve o que acontece a um punhado chave de personagens fictícias, das quais se destacam o doutor Tiago, Teodoro e Rufino. Apesar de acompanhar estas personagens e de lhes atribuir ainda eventos/mistérios passados, não consegue transmitir um propósito evidente, parecendo o enredo algo errático. Há pouco desenvolvimento dos acontecimentos que são apresentados, bem como do psicólogo das personagens, apostando-se demasiado num tell que ignora o show, e caindo-se por vezes num infodump, disfarçado em diálogos.

As personagens encontram-se ainda pouco desenvolvidas e de facetas parcas, sendo que às personagens “negativas” nada é dado de redentor, enquanto as “positivas” são demonstradas de forma inversa, possuindo apenas falhas falsas: aquelas que a bem ver se revelam como qualidades.

No que respeita à escrita, é cuidada e bem utilizada, com um detalhe ou outro a tornar um punhado de diálogos mais artificial, mas no geral agradável à leitura, e o ponto mais positivo da obra.