“Meridiano 28”, Joel Neto

NETO, Joel – Meridiano 28, Lisboa, Cultura, 2018

Sinopse: Em 1939, o mundo entrou em guerra. Foi o conflito mais mortífero da história da humanidade. Mas, na pequena ilha açoriana do Faial, ingleses e alemães conviveram em paz durante mais três anos. Eram os loucos dos cabos telegráficos. Do mar em frente emergiam os periscópios de Hitler. Dezenas de navios britânicos eram afundados todos os meses. Já em terra, as crianças inglesas continuavam a aprender na escola alemã, dividindo as carteiras com meninos adornados de suásticas. As famílias juntavam-se para bailes e piqueniques. Os hidroaviões da Pan American faziam desembarcar estrelas do cinema e da música, estadistas e campeões de boxe. Recolhiam-se autógrafos. Jogava-se ao ténis e ao croquet. Dançava-se o jazz. Viviam-se as mais arrebatadoras histórias de amor. Poderia um agente nazi ter-se escondido nos Açores, consumada a derrota de Hitler? Quem foi Hansi Abke? Que sombra lança hoje sobre o destino de José Filemom Marques, o sobrinho criado no Brasil? Um romance que vai de Lisboa a Nova Iorque, de Friburgo a Praga, de Bristol a Porto Alegre e às ilhas açorianas, onde todos são descobertos e ninguém pode ser apanhado. Um reencontro entre dois homens de tempos distintos e que talvez tenham mais em comum do que aquilo em que gostariam de acreditar. Uma memória das mulheres que amaram e talvez não tenham sabido fazê-lo.

Opinião: Meridiano 28 é uma boneca russa em história, onde a realidade, a fantasia, e a romantização do passado se mesclam, por razões bem além do facto de alternar entre a “actualidade” de 2017 – momento em que José investiga e escreve o puzzle que é Hansi, enquanto lida com o seu próprio sub-enredo –, e o Faial durante os anos em que durou a II Guerra Mundial. É de facto curioso a micro-sociedade que se criou durante esta altura, onde crianças inglesas e alemãs partilhavam a mesma escola, e os respectivos pais as mesmas actividades lúdicas, numa quase indiferença ao que ocorria no resto do mundo, e entre as suas nações. No entanto, nada é estático, e também este interregno se foi desenvolvendo, deixando aos poucos de o ser: um processo que é exemplificado não apenas pelas alterações na sociedade da ilha – tanto pelos nativos como pelos soldados –, como na relação entre Hansi e o melhor amigo, Rory.

O enredo, contudo, é pejado de viragens, surpreendendo o leitor à medida que surpreende José, a personagem que, ao ser-lhe dado o papel de investigador, se torna também naquela que conduz o leitor. A obra acaba por juntar elementos de romance, investigação, e romance histórico, onde o amor, o ciúme, o desejo fantasioso, a culpa, e a vingança tomam lugar, muitas vezes despoletadas pelo que as personagens julgam saber, nem sempre correctamente. Adiciona-se ainda uma aparente “caça a um nazi” que, apesar de referida logo no início, durante a maior parte da narrativa é inexistente, até ressurgir no final. Considerei, aqui, uma certa falha em termos de integração dos elementos: não tanto por surgir apenas no principio e do fim, mas principalmente por conter uma personagem importante ao enredo, a qual surge apenas no final. O seu peso pediria uma introdução anterior, e uma presença mais constante, ainda que discreta.

Meridiado 28 é uma leitura acima de tudo curiosa, com uma estrutura interessante, que mantém o leitor interessado pelo “monta” e “desmonta” que parece fazer com o enredo, enquanto se contextualiza num acontecimento de interesse sócio-cultural. Atrai, ainda, pelas descrições das ilhas, em particular o Faial e a Terceira, onde decorre a maioria da trama envolvendo Hansi.

“Olímpicos: Os Jogos dos Deuses e do Diabo”, Vítor Serpa

SERPA, Vítor – Olímpicos: Os Jogos dos Deuses e do Diabo, Lisboa, Cultura, 2021

Sinopse: Desde os inícios dos anos 80 que os Jogos Olímpicos, como hoje os conhecemos, se têm vindo a realizar entre tensões políticas, evoluções sociais, ataques terroristas, ou enquanto oportunidade internacional de afirmação identitária.

Têm sido, também, fulcrais a dar a conhecer aos portugueses – e ao mundo – atletas como Carlos Lopes, Fernando Mameda, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro, Nuno Delgado, Nelson Évora, Naide Gomes, Vanessa Fernandes, Telma Monteiro, Emanuel Silva e Fernando Pimenta, Kerry Strug, Cathy Freeman, Ian Thorpe, Michael Phelps, ou Usain Bolt. Entre citações, memórias e considerações, Vítor Serpa concilia desporto e jornalismo, sem nunca esquecer o atleta.

Os Jogos Olímpicos sempre foram, afinal, mais do que medalhas.

Opinião: Vítor Serpa, jornalista enviado a muitas das edições dos Jogos Olímpicos, desenvolve nesta obra uma mistura entre relato jornalístico, crónica, e texto de opinião. Em capítulos estruturados para uma fácil leitura, o autor dá a conhecer as histórias de desportistas portugueses e internacionais, algumas pessoais, outras de cariz sócio-político, nem todas correspondentes à ideia internalizada de sucesso – mas todas de interesse e com motivo. Uma vez que parte da sua experiência e perspectiva pessoais, a obra encontra-se limitada nesse sentido: não me refiro a opiniões pessoais, mas à impossibilidade de estar em vários locais ao mesmo tempo.

Trata-se de uma leitura leve, mas interessante, em particular como introdução aos Jogos Olímpicos: uma curiosidade para quem o ler já sabendo um pouco sobre o assunto, uma óptima introdução para quem pouco ou nada sabe.

“Oceanïc”, Waldson Souza

SOUZA, Waldson – Oceanïc, Blumeau, Dame Blanche, 2019

Sinopse: A Humanidade agora vive em metrópoles nas costas de criaturas gigantes. Em uma dessas terras, o Exército começa a perseguir um casal que poderá mudar a maneira como as pessoas entendem seu mundo. “Oceanïc” acompanha Rafael e Jonas fugindo da perseguição do Exército por razões que envolvem o passado de um deles — e um projeto misterioso do governo…

Opinião: Oceanïc desenrola o seu enredo dividindo-se em partes que permitem ao leitor saber o que cada personagem, individualmente, sabe: isto porque o narrador, ainda que alterne, é sempre em primeira pessoa, e não omnipresente. A cada ponto de vista é mais um “algo” que se sabe, não apenas do enredo, como também das personagens e, em particular, do mundo criado: deste modo, as histórias individuais tornam-se numa maior.

Tanto as personagens como o enredo se encontram bem construídos, havendo desenvolvimento ao longo da narrativa, sem que o leitor seja inundado num excesso de informação. Através de uma escrita simples, mas bonita – fazendo lembrar um puzzle em que cada peça é escolhida para encaixar – vemos nas personagens, nas suas vidas e relações, uma grande humanidade, onde temas como alcoolismo, sacrifício, imigração ilegal, e a necessidade de escolhas espinhosas fazem parte do dia-a-dia.

O maior ponto de interesse é, contudo, o mundo construído: devido a um evento apocalíptico que fica por esclarecer pelo próprio desconhecimento das personagens – e cuja “verdade” é inclusive colocada em causa – a Humanidade sobrevive numa variedade de cidades construídas em tartarugas gigantes, de origem desconhecida, nas quais se vê o reflexo dos privilégios sociais.

O final permanece aberto, e de um modo geral há a impressão de que se trata da introdução a uma história maior por vir: esta é uma história do surgimento daquelas personagens, da sua fuga, dos seus poderes. Arriscaria mesmo uma história de origem.

A nível de revisão, são de apontar algumas gralhas, como a falta da última letra em algumas palavras, por exemplo.

No geral, uma história de ficção especulativa, disponível em ebook, não apenas recomendável, mas da qual se espera continuação.

“Vida de Prisão”, Pedro Prostes da Fonseca

FONSECA, Pedro Prostes da – Vida de Prisão, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2018

Sinopse: A partir de testemunhos de ex-reclusos, em contrapeso com a influência de magistrados, psicólogos, diretores e guardas prisionais, este livro revisita a nossa ideia de vida de prisão, pela voz de quem, hoje em liberdade, conhece o dia-a-dia atrás das grades melhor do que ninguém.

Em permanente tensão, amor, ódio, vida e morte convivem no retrato que nos desperta para uma realidade tão próxima quanto desconhecida de todos nós.

Opinião: Vida de Prisão é um livro pequeno, de carácter jornalístico, e capítulos curtos, que se lê facilmente numa tarde, mas cujo conteúdo nada tem de leviano. Fazendo uso de teses, acórdãos, notícias, documentos históricos, e as visitas e entrevistas realizadas pelo próprio autor, dá a conhecer a realidade das prisões portuguesas, independente de políticas e políticos. Apesar das várias fontes mencionadas, há um claro foco nos relatos – tanto entrevistas quanto entradas de diários – de ex-presidiários de idades, crimes, e contextos sócio-culturais variados. Enquanto algumas ideias são desmistificadas, críticas há que são corroboradas, bem como ignoradas há vários anos, tanto sobre o funcionamento e estrutura das prisões, como sobre a implementação de medidas de reinserção.

O autor termina com dois anexos: um de gírias prisionais – embora tenha reconhecido algumas palavras como gírias comuns –, cuja funcionalidade será mais para a compreensão e curiosidade do leitor, e outro de estatísticas, a juntarem-se às fontes utilizadas na recolha das informações partilhadas com o leitor.

É, contudo, uma introdução ao tema, não se aprofundando por demais. Por conseguinte, para quem pouco ou nada sabe sobre o sistema prisional português e as realidades que nele se vivem, torna-se numa leitura instrutiva e em nada maçante, mas ficará aquém para quem desejar algo mais aprofundado e detalhado.

“O Sangue da Terra”, Sofia Marrecas Ferreira

FERREIRA, Sofia Marrecas – O Sangue da Terra, Porto, Porto Editora, 2009

Sinopse: Tomasa, a mãe, e Catarina, a filha: entre Lisboa, o Alentejo e Paris, duas gerações de mulheres em busca da felicidade e de sentido para as suas vidas; duas mulheres que, através do trabalho, das suas opções e do seu talento, tentam ultrapassar a solidão, a loucura e a morte.

Opinião: Em capítulos curtos e numa narrativa fluida, o romance apresenta a relação entre mãe e filha, mas, principalmente, a relação de amor que cada uma delas desenvolve: salvo os detalhes e as circunstâncias, ambas vivem uma relação que se torna no paralelo uma e da outra, felizmente com um final díspar, devido às respectivas escolhas. Também a relação de Tomasa e de Catarina com o exterior é abordado, ora explorando o íntimo de cada uma, ora expondo-as às reacções e acções de outras personagens.

Falando-se em personagens, a maioria encontra-se bem construída, credível, e complexa, em particular as protagonistas e o ciclo mais próximo, notando-se uma atenção dada às secundárias de modo a torná-las distintas. A excepção estará em Santa, que não vai além do próprio nome, nos amigos de Catarina em Paris – caracterizados apenas superficialmente – e no artista e professor de Catarina, amigo de Octávio, cujo papel final demanda um maior desenvolvimento prévio.

Torna-se curioso o modo como na narrativa se utiliza a maiúscula em “Filha”, “Mãe”, e “Minha Querida” nas orações directas, como se para as personagens se tratassem de nomes próprios. Também, e ainda na narrativa, chama a atenção a inserção estrutural de orações directas em meio a uma indirecta, que por vezes ocorre. Infelizmente, apresenta algumas falhas a nível da pontuação, de que é exemplo a inexistência de vírgulas em vocativos.

Por fim, é uma narrativa que se apoia muito mais no “contar” que no “demonstrar”, o que leva a que não haja tanto engajamento por parte do leitor em relação às personagens quanto poderia haver, apesar de a leitura levantar interesse suficiente pelos motivos acima descritos.

2021 e Suas Recomendações: 1/3

Por ser o feedback em blogs o que é – um facto, não uma queixa –, não tenho grande noção de quantos aproveitaram o pequeno “apanhado” de recomendações que deixei aqui no final de 2020. No entanto, gostei de as fazer, e gosto de pensar que alguém tirou dali um livro ou um conto que desconhecia e do qual gostou. Por conseguinte, e se gostei, porquê fazê-lo apenas uma vez ao ano? Decidi tornar as recomendações trimestrais, mantendo a mesma estrutura inicial: limitado às minhas leituras e gostos, e dividido por “nacionais”, “internacionais”, e “contos”: tanto em português quanto em inglês.

Sejam felizes.

NACIONAIS

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de – Luanda, Lisboa, Paraíso Lisboa, Companhia das Letras, 2018

“Chegados a Lisboa, Cartola e Aquiles descobrem-se pai e filho na desventura. Até que num vale emoldurado por um pinhal, nas margens da cidade mil vezes sonhada pelo velho Cartola, encontram abrigo e fazem um amigo. Será esta amizade capaz de os salvar? «Se o entendimento entre duas almas não muda o mundo, nenhuma ínfima parte do mundo é exactamente a mesma depois de duas almas se entenderem.» Luanda, Lisboa, Paraíso, o segundo romance de Djaimilia Pereira de Almeida, é o balanço tocante de três vidas obscuras, em que esperança e pessimismo, desperdício e redenção, surgem lado a lado.”

Opinião disponível aqui.

PINGUICHA, Diana – A Curse of Roses, Parker, Entangled, 2020

“With just one touch, bread turns into roses. With just one bite, cheese turns into lilies. There’s a famine plaguing the land, and Princess Yzabel is wasting food simply by trying to eat. Before she can even swallow, her magic — her curse — has turned her meal into a bouquet. She’s on the verge of starving, which only reminds her that the people of Portugal have been enduring the same pain. If only it were possible to reverse her magic. Then she could turn flowers…into food.

Fatyan, a beautiful Enchanted Moura, is the only one who can help. But she is trapped by magical binds. She can teach Yzabel how to control her curse — if Yzabel sets her free with a kiss. As the King of Portugal’s betrothed, Yzabel would be committing treason, but what good is a king if his country has starved to death?

With just one kiss, Fatyan is set free. And with just one kiss, Yzabel is yearning for more. She’d sought out Fatyan to help her save the people. Now, loving her could mean Yzabel’s destruction.”

Autora nascida e criada em Portugal. Obra ainda não disponível em português.

Opinião disponível aqui.

INTERNACIONAIS

ACEVEDO, Elizabeth – Clap When You Land, London, Hot Key Books, 2020

“Camino Rios lives for the summers when her father visits her in the Dominican Republic. But this time, on the day when his plane is supposed to land, Camino arrives at the airport to see crowds of crying people…

In New York City, Yahaira Rios is called to the principal’s office, where her mother is waiting to tell her that her father, her hero, has died in a plane crash.

Separated by distance – and Papi’s secrets – the two girls are forced to face a new reality in which their father is dead and their lives are forever altered. And then, when it seems like they’ve lost everything of their father, they learn of each other.

Papi’s death uncovers all the painful truths he kept hidden, and the love he divided across an ocean. And now, Camino and Yahaira are both left to grapple with what this new sister means to them, and what it will now take to keep their dreams alive.

In a dual narrative novel in verse that brims with both grief and love, award-winning and bestselling author Elizabeth Acevedo writes about the devastation of loss, the difficulty of forgiveness, and the bittersweet bonds that shape our lives.”

Ainda sem tradução em Portugal.

OSEMAN, Alice – Heartstopper: Volume 1, Lisboa, Cultura Editora, 2021

“Charlie e Nick estão na mesma escola, mas nunca se conheceram… até ao dia em que são obrigados a sentar-se lado a lado. Eles rapidamente se tornam amigos, e Charlie começa a apaixonar-se por Nick, embora ache que não tenha qualquer oportunidade.

Mas o amor funciona de maneiras surpreendentes e, por vezes, coisas boas estão mesmo ao nosso lado…

Este é o primeiro volume de Heartstopper, a banda desenhada premiada (Goodreads Choice Awards 2020) de Alice Oseman.”

Tradução de Inês Montenegro.

SULLIVAN, Mark – Sob um Céu Escarlate, Lisboa, Cultura Editora, 2018

“Pino Lella não quer nada com a guerra ou com os nazis. Ele é um adolescente italiano normal – obcecado por música, comida, e miúdas, mas os seus dias de inocência estão contados. Quando a sua casa em Milão é destruída pelas bombas dos Aliados, Pino junta-se a uma via-férrea subterrânea ajudando judeus a escapar dos Alpes e apaixona-se por Anna, uma bela viúva seis anos mais velha do que ele. Numa tentativa de protegê-lo, os pais de Pino forçam-no a alistar-se como soldado alemão – julgando que assim o manteriam longe de combate.

Mas Pino é ferido e depois recrutado, aos dezoito anos, como motorista pessoal do general Hans Leyers, o caudilho de Adolf Hitler na Itália, e um dos comandantes mais misteriosos e poderosos do Terceiro Reich. Agora, com a oportunidade de espiar o Alto-Comando Alemão, Pino luta em segredo, suportando os horrores da guerra e da ocupação, tendo a sua coragem reforçada pelo seu amor por Anna e pela vida que ele sonha que um dia compartilhar.”

Tradução de Francisco Silva Pereira.

CONTOS

GILMAN, Charlotte Perkins – “O Papel de Parede Amarelo”, Vila Nova de Famalicão, Edições Humus, 2020

“Uma mulher fragilizada emocionalmente é internada, pelo próprio marido, em uma espécie de retiro terapêutico em um quarto revestido por um obscuro e assustador papel de parede amarelo. Por anos, desde a sua publicação, o livro foi considerado um assustador conto de terror, com diversas adaptações para o cinema, a última em 2012. No entanto, devido a trajetória da autora e a novas releituras, é hoje considerado um relato pungente sobre o processo de enlouquecimento de uma mulher devido à maneira infantilizada e machista com que era tratada pela família e pela sociedade.”

Edição sem informação de tradução.

GUEDES, Vanessa – “Suor e Silício na Terra da Garoa”, FROM Revista Mafagafo, [s.l.], [Mafagafo], 2020/Julho

“No ano de 2070, Lyna grava vídeos ensinando a burlar o software de reconhecimento facial que monitora a grande São Paulo. Seus vídeos ameaçam o trabalho de Jéssika, a programadora por trás da eficácia do sistema governamental. Quando manifestações eclodem, Jéssika se vê obrigada a sair da zona de conforto — por seus próprios motivos.”

Leitura disponível gratuitamente aqui.

JACOB, Benjamin Edgar – “Emitindo” FROM Revista Mafagafo, [s.l.], 2020/Agosto

“Pam é uma humana adotada por um casal de erianos, uma espécie alienígena de octópodes telepáticos que veio para a Terra há mais de dois séculos. Aos trinta e dois anos e sem nenhum contato com os pais e os irmãos, se vê numa situação inusitada quando recebe dezenas de mensagens do pai através de uma rede social pouco usada. Não haveria problema nenhum se não fosse por um detalhe: ele se matou há oito anos.”

Leitura disponível gratuitamente aqui.

MARTINO, Anna Fagundes – “Futebol, Magia e um Punhado de Sal” FROM Revista Mafagafo, [S.L.], 2020/Outubro

“1958: a Copa do Mundo de Futebol está para começar na Suécia. A seleção francesa conta com duas armas ótimas para conseguir, enfim, um título: Just Fontaine, um jogador excepcional, e Louis-Francis de Marseille, um misto de massagista, conselheiro espiritual e espião de times alheios. O que os franceses não sabem é que Louis-Francis não é exatamente quem (ou melhor, o que) ele diz que é — e quando ele trombar com Maria Severina, a misteriosa cozinheira da seleção brasileira, a vida dos dois mudará de maneira irreversível.”

Leitura disponível gratuitamente aqui.

“Qual é o seu preço?”, Ton Borges

BORGES, Ton – Qual é o seu preço?, [s.l.], [Ailton Borges], 2020

Sinopse: Uma entrevista com um bem-sucedido empresário humano, em um mundo dominado por criaturas sobrenaturais. O relato de um pistoleiro que é contratado por um misterioso eremita, em um Centro-Oeste do século XXIV. O confronto entre um soldado papa-figo contra um grupo apelidado de Cobras, em um futuro alternativo do Brasil. Os dilemas de um ambicioso chefe de cozinha que, em plena pandemia de 2020, é convidado a trabalhar em um soturno restaurante nos entornos de Goiânia, cuja clientela ele desconhece e que vai mexer com seu senso de realidade.

Qual é o seu preço? é o conjunto destes quatro contos individuais que vão de gêneros de ficção científica a fantasia, abordam justamente as reflexões sobre essa pergunta. Afinal, qual é o preço de nossa ética? De nossos corpos? De nossa felicidade? Da nossa paz? De sermos aceitos? De sermos humanos?

Com quatro protagonistas de morais distorcidas ou até mesmo amorais, há quem diga que esses são contos pessimistas. Há quem diga que são apenas contos sarcásticos. O que se pode garantir é que não dá para sair dessa leitura sem ao menos refletir ao menos um pouco sobre como nós, humanos, somos seres muito mais próximos do caos do que nós naturalmente achamos.

Opinião: Nesta antologia de quatro contos o autor procura realizar uma experiência tanto narrativa quanto de publicação, tendo como fim o autoconhecimento: razão pela qual será uma obra que ficará disponível por tempo limitado, em ebook.

De um modo geral, todos os contos partem de excelentes premissas, cujas principais características são a crítica e o sarcasmo, mais negro que de humor negro. Falha, contudo, na edição e na revisão, e na inconstância com que encaminha os enredos, desenvolvendo em demasia determinadas partes, enquanto deixa mais rasas outras que necessitam de maior desenvoltura. Trata-se de algo mais ligado à edição/revisão do que à criação, como fica claro pela diferença entre o primeiro conto – editado e publicado por uma equipa – e os restantes.

“Recursos Desumanos”, o conto que abre a antologia, segue o formato de entrevista, caracterizando-se por uma ironia sobrenatural em torno do “coach” e da ideia exagerada de “empreendedor” que se disseminaram nos dias de hoje – pegando também num capitalismo levado ao extremo.

Já em “(Des)graça Ex-Machina” o leitor acompanha um pistoleiro contratado para uma missão de condições inéditas, num mundo cibernético. Não se espere, contudo, um enredo de acção: a narrativa torna-se em algo mais filosófico, onde em camadas se explora a busca da perfeição, bem como as respectivas consequências. A essência da história parece partir de três pontos (uma curiosidade, dado o misticismo atribuído ao número três no que a perfeição diz respeito): o conceito de ghostwritting, o poeta português Fernando Pessoa, e o trio de graças gregas – corpo, mente, e coração.

“Cobras em uma Nação Papa-figo” desenrola-se numa distopia futurística criada a partir de elementos e comportamentos actuais. Anti-vacinas e religiosos extremistas dominam a sociedade, e, apesar de a narrativa ser em terceira pessoa, é o seu ponto de vista, o seu entendimento, que o leitor acompanha. Tal leva a que o mote do conto seja compreendido gradualmente, através da interpretação do que é narrado, até culminar no evento final, onde a certeza dos acontecimentos já se instalou no leitor. O início alonga-se desnecessariamente, com a intenção de dar a conhecer a compreensão do mundo por parte “papa-figo”. Tal poderia ser feito aos poucos, inclusive levando a que o leitor demorasse mais tempo a compreender a reviravolta. Destaca-se ainda a ironia da concepção alterada do mundo.

Por fim, “Olhos Famintos”, com uma piscadela crítica à “meritocracia”, é essencialmente a ambição e a fome de reconhecimento do protagonista e narrador: características que o levam a, um degrau de cada vez, ir abandonando os seus (já poucos) escrúpulos. Embora inicialmente dê a ideia de mistério, cumpre com as indicações que vai sendo dadas ao longo da narrativa, mostrando-se como fantasia de horror. Neste caso, julgo que teria beneficiado caso o leitor compreendesse o que sucedia ao mesmo tempo que o protagonista o compreende, e não antes. Apresenta, também, algumas incongruências internas, como a questão de a empresa/restaurante se manter completamente anónimo, quando existe contrato laboral a deixar rasto legal.

Trata-se, por conseguinte, de uma antologia de ficção especulativa e horror, cujas premissas partem de elementos da sociedade actual e os desenvolvem com cinismo crítico, tendo beneficiado de uma edição/revisão exteriores.

“Luanda, Lisboa, Paraíso”, Djaimilia Pereira de Almeida

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de – Luanda, Lisboa, Paraíso, Lisboa, Companhia das Letras, 2018

Sinopse: Chegados a Lisboa, Cartola e Aquiles descobrem-se pai e filho na desventura. Até que num vale emoldurado por um pinhal, nas margens da cidade mil vezes sonhada pelo velho Cartola, encontram abrigo e fazem um amigo. Será esta amizade capaz de os salvar? «Se o entendimento entre duas almas não muda o mundo, nenhuma ínfima parte do mundo é exactamente a mesma depois de duas almas se entenderem.» Luanda, Lisboa, Paraíso, o segundo romance de Djaimilia Pereira de Almeida, é o balanço tocante de três vidas obscuras, em que esperança e pessimismo, desperdício e redenção, surgem lado a lado.

Opinião: Numa narrativa lírica, bonita, sem cair no exagero ou no pomposo a autora cria uma leitura íntima, onde vários elementos se entrelaçam. Fá-lo através de um evento relativamente comum: a vinda a Portugal de cidadãos dos PALOPS (no caso, Angola) para aceder a determinados tratamentos ou cuidados de saúde. Ao fazê-lo, Cartola e o filho são deslocados do seu ambiente de origem e forçados a, gradualmente, se inserirem numa nova realidade, numa nova vida, na qual a anterior se mantêm agarrada por ganchos “enfiapados”, seja nas recordações, seja – e principalmente – pelas cartas, telefonemas, e pedidos da esposa de Cartola.

Tanto Cartola, já homem adulto, como Aquiles, que de criança cresce em jovem adulto, lidam com a sua própria identidade: as suas facetas, o que a constrói, desenvolve, ou altera. O tema da identidade e as questões que levanta foi aos meus olhos a faceta principal da obra, contudo, como já referido, são vários os elementos que encontramos na narrativa, como a ambiguidade e dicotomia das relações familiares ou de amizade, bem como a respectiva influência, e os elementos positivos e negativos que consigo acarretam; ou a depressão e a falta de rumo, levando a uma queda espiralada, onde a incapacidade de agir coloca as personagens num ambiente desarrumado, sujo, e endividado, apesar do momento de ar fresco que a visita da filha de Cartola significa. A sua aparição, ainda que breve, demonstra o que poderia ser, talvez que o pode ainda vir a ser, e é um dos momentos mais altos de luz e esperança.

O título não poderia ser mais adequado. De facto, há uma sensação de que o romance se encontra tripartido em momentos-chave, representados na mudança de residência das personagens. Que o último se chame Paraíso parece, inicialmente, uma ironia: no entanto, chega-se ao final a questionar se de facto o é.

Uma leitura pejada de camadas, capaz de dizer muito nos seus detalhes, que tanto agrada ao lazer, como seria de interesse a um estudo académico.

“Alice do Lado Errado do Espelho”, Pedro Rodrigues

RODRIGUES, Pedro – Alice do Lado Errado do Espelho, Lisboa, Cultura Editora, 2021

Sinopse: E se um dia acordássemos do outro lado do espelho? E se a maçã vermelha de Eva fosse a mesma que a Branca de Neve trincou? Será que a Rapunzel cortou o cabelo para evitar o contacto social? E o Lobo: porque é sempre ele o mau da fita? Estaria a profecia da Bela Adormecida certa? E a Cinderela: precisaria, ela de ir ao baile para ser feliz? De uma coisa devemos estar certos: o mundo pode ruir com um póquer de ases — mas voltará a erguer-se como um castelo de cartas.

Opinião: Pedro Rodrigues reescreve nesta colectânea seis contos-de-fadas, não apenas adaptando-os a uma realidade moderna, como também dando-lhes como contexto de fundo a vivência portuguesa ao Covid-19: o bicho. Trata-se de um elemento que em vez de “prender” a obra ao momento actual, a tornará numa leitura também de interesse no futuro, dada a naturalidade com que é feito, bem como as diversas facetas demonstradas.

No entanto, o foco encontra-se nos contos-de-fadas: as suas personagens e o modo como os elementos de cada conto (sendo todos dos mais conhecidos) são inseridos no novo ambiente e contexto social. Para quem como eu não resiste a um conto-de-fadas (e às suas releituras), rapidamente se torna numa actividade ligeira e agradável, onde a curiosidade de como os elementos mais emblemáticos e reconhecidos serão integrados se torna num incentivo a não pousar o livro.

A obra facilita a leitura rápida – ou aos poucos, caso se tenha pouco tempo ou vontade, e se opte por ler uma história por dia, por semana, o que se quiser – através da sua própria estrutura narrativa. Os contos-de-fadas são curtos, sem se alongarem mais do que o necessário ao seu objectivo, e cada um é precedido de um poema que funciona como resumo. A quem prefira não ter indicações do que irá encontrar, é aconselhável ler os referidos poemas no final do conto.

Por fim, é de ressalvar o trabalho de design, tanto na capa quanto no interior do livro, o qual é francamente excelente, e em consistência com o conteúdo da obra.

“A Curse of Roses”, Diana Pinguicha

PINGUICHA, Diana – A Curse of Roses, Parker, Entangled, 2020

Sinopse: With just one touch, bread turns into roses. With just one bite, cheese turns into lilies. There’s a famine plaguing the land, and Princess Yzabel is wasting food simply by trying to eat. Before she can even swallow, her magic — her curse — has turned her meal into a bouquet. She’s on the verge of starving, which only reminds her that the people of Portugal have been enduring the same pain. If only it were possible to reverse her magic. Then she could turn flowers… into food.

Fatyan, a beautiful Enchanted Moura, is the only one who can help. But she is trapped by magical binds. She can teach Yzabel how to control her curse — if Yzabel sets her free with a kiss. As the King of Portugal’s betrothed, Yzabel would be committing treason, but what good is a king if his country has starved to death?

With just one kiss, Fatyan is set free. And with just one kiss, Yzabel is yearning for more. She’d sought out Fatyan to help her save the people. Now, loving her could mean Yzabel’s destruction.

Opinião: A Curse of Roses é um romance sáfico de fantasia histórica, jovem adulto, cuja premissa parte da lenda da transformação do pão em rosas, o milagre da Rainha Santa Isabel, esposa de D. Dinis. Apesar de escrito em inglês – sem tradução em Portugal – e publicado nos EUA, a autora não apenas é portuguesa, como a sua terra natal está estreitamente ligada à figura histórica que se tornou na protagonista deste romance. Desengane-se quem espera por um romance histórico: não o é. Trata-se de um re-contar, onde Isabel é uma jovem a definhar por conta de um dom que não compreende e com o qual não sabe lidar; um re-imaginar onde uma futura rainha liberta uma moura encantada, iniciando-se um processo difícil de autodescoberta e aceitação.

Apesar de, como referido, não ser um romance histórico – e de inclusive certos elementos terem sido propositadamente modificados, como é o caso da diferença de idades entre D. Dinis e D. Isabel –, a obra tem elementos caracterizadores suficientes para se encaixar na época onde decorre (o século XIII português), em particular no que respeita à ambientação e descrição dos locais, e à importância dada aos grandes flagelos da altura. A referência a elementos como a criação da Universidade (inicialmente em Lisboa) ou o pinhal de Leiria traz reconhecimento a quem já deles sabe, ao mesmo tempo que instrui o público não-português.

Trata-se de uma obra com um enredo bastante linear, avançando através do desenvolvimento e crescimento da protagonista, e focado num núcleo de personagens e locais. Não senti que necessitasse de mais, e embora o romance possa ser apontado como sendo amor à primeira vista (o que geralmente não é a minha preferência), a leitura levou-me mais a considerar uma atracção e encanto à primeira vista, que se foi consolidando à medida que Isabel e Fátima (ou Yzabel e Fatyan, a usar a ortografia da obra) se entreajudavam e conheciam mais uma da outra. No entanto, apesar deste desenvolvimento na relação entre as duas, considerei como de maior interesse a relação de camaradagem e altos e baixos entre D. Isabel e D. Dinis, bem como a relação de D. Isabel com ela própria. Isabel, jovem piedosa, percorre um caminho onde não apenas tem de aprender a reconhecer e a lidar com um dom que julga maldição, como também a equilibrar o seu bem-estar com o desejo extremo e imediato de ajuda ao próximo. Por fim, e acima de tudo, Isabel é obrigada, pela sua própria saúde e felicidade, a conhecer-se e a aceitar-se, bem como a compreender quem é e quem ama no contexto da sua fé e religião. Apesar de a obra já me ter agradado logo pela premissa, este acabou por se tornar, a meu ver, na sua maior qualidade, visto que é um processo (nem sempre a direito) que se encontra bem desenvolvido e demonstrado, capaz de criar empatia ou até mesmo identificação, qualquer a época em que se esteja.

No que respeita às personagens, como já referido existe um maior foco num determinado núcleo, fora do qual temos personagens-figurantes. Das que encontramos nesse núcleo, não é difícil adivinhar e acompanhar o seu papel no enredo, no entanto, não perdem complexidade na respectiva construção, sendo cada uma essencial à história. Dinis (Denis) destaca-se pela maior multiplicidade de facetas – o que não significa contradições –, enquanto Isabel e Fátima (Yzabel e Fatyan) o fazem pelo desenvolvimento de cada uma. Agradou-me em particular a caracterização de Isabel, na medida em que foge ao estereótipo da “mulher forte” sem deixar de o ser: se chora, tem motivos; quando chora, reergue-se. Não há receio em mostrar ao leitor os sentimentos e reacções das personagens, nem a narrativa as encara como “fracas” por conta desse factor, algo que me agradou muito. No entanto, tenho a apontar uma certa repetição nas referências, tanto directas quanto indirectas, à santidade de Isabel e à beleza de Fátima. Num e noutro caso, tornaram-se excessivas.

No que respeita à narrativa, considerei o inglês acessível ao não-nativos, e engracei com o uso das palavras em português, sem destaque gráfico: em particular nos encantamentos. Imagino o efeito num desconhecedor do idioma.

Em conclusão, trata-se de um romance que agradou tanto pelo enredo – bem encaminhado – como pelas personagens, cuja leitura já tinha começado com algumas expectativas, visto que parte de uma das minhas lendas favoritas. Ademais, responde às dúvidas que a sinopse inadvertidamente acaba por levantar, como é o caso de “como sobreviveu Isabel durante os anos em a ‘maldição’ não lhe permitia comer?”

Seria interessante que a obra ficasse disponível em português.