“A Toca das Fadas”, Clara Madrigano

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MADRIGANO, Clara – A Toca das Fadas, São Paulo, Draco, 2014

Sinopse:  Jack e seu irmão encontraram a toca das fadas. Ou é o que Jack acredita. Mas conforme sua obsessão cresce, as coisas deixam de ser divertidas, e as fadas talvez não sejam doces como o mel de que se alimentam.

Opinião: Dois rapazes encontram o que um acredita ser a toca das fadas – e, claro, não são capazes de as deixar sossegadas. A narração é levada a cabo pelo irmão de Jack, dirigindo-se a Jack, no que parece uma quase confissão: a explicação do que aconteceu ganha sentido pelo facto de parecer ser a primeira vez que o narrador admite tudo o que sabia, numa explicação ou justificação para as acções tomadas. O enredo é simples, estando a reviravolta na outra visão das fadas – não foi um revidar também do que lhes foi feito? –, mas bem aproveitado, com bom pacing e ritmo narrativo. Ainda que as peripécias sejam adivinháveis, tal não afecta o crescente da expectativa que a narrativa provoca, utilizando precisamente o referido ritmo.

São identificáveis, todavia, algumas gralhas  (“Jack, se foi ainda pude me escutar”, por exemplo) e falhas da pontuação dos diálogos (uso da maiúscula após a interrogativa “– E como você sabe que elas moram mesmo aí? – Perguntei”, por exemplo). Tanto um ponto como outro são facilmente colmatados com uma nova revisão.

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“Jacinta: A Profecia”, Manuel Arouca

Jacinta

AROUCA, Manuel – Jacinta: A Profecia, [Alfragide], Oficina do Livro, 2016

 

Sinopse: A história de Jacinta, uma criança tocada pelo divino que se sacrificou para que os nossos corações se transformassem.

“No convento de Pontevedra, Lúcia volta a pegar na fotografia da transladação de Jacinta. À mente vem-lhe uma sequência de imagens da prima com aquele seu sorriso e rosto radioso. Não se esquece, sente como se a tivesse presente, como ela, com os seus braços magros, a apertou contra o seu peito quando voltou de Ourém, repetindo várias vezes com aquela sua voz melodiosa “não contaste o segredo ao administrador, não contaste, pois não?” Lúcia em lágrimas sossegava-a, afagando-lhe os cabelos. As mesmas lágrimas que escorrem agora pela sua face enquanto segura a fotografia.”

 

Opinião: A premissa – e a capa, e o título e o marketing – gera a expectativa de um livro sobre os pastorinhos de Fátima, com foco em Jacinta, a mais nova, e não se pode dizer que não cumpre com essa expectativa. De facto o que aqui temos é a história dos pastorinhos, conforme o conhecimento que dela temos enquanto povo. Os poucos trechos da irmã Lúcia no “presente” tornam os muitos capítulos do “passado” em reminiscências que se centram no evento das Aparições, e dos interrogatórios que se seguiram. Pouco mais além dessas situações é abordado, não se ficando a conhecer muito mais sobre a vida das crianças que o já público, ou por o autor não o considerar de relevo – apesar do carácter informativo e do peso na ambientação que teria –, ou por desejar manter o foco no lado mais “público”. Qualquer que tivesse sido a motivação, acabou por gerar um romance semi-biográfico onde não se ultrapassa o superficial, e a repetição de dúvidas, situações, dilemas e antagonismos enfatiza a sensação de sobrar pouco da leitura quando espremida.

Outro ponto a destacar será o narrador: inicialmente entendido como em terceira pessoa, logo se torna evidente não se tratar de uma narração neutra. O narrador é omnipresente, mas é uma personagem por si só, com claros favoritismos, tendência a narrar os eventos conforme a sua própria opinião, e por vezes assumindo um “eu” cuja identidade não é perceptível, na medida em que nenhuma das existentes poderia ter todos os conhecimentos demonstrados na narração. Esta posição narrativa delimita, por conseguinte, a apresentação das personagens, que surgem ao leitor com os condicionalismos da opinião do narrador sobre elas.

O romance foi publicado ou reeditado aquando as celebrações do aniversário de Fátima. Atendendo ao público-alvo cujo interesse e gosto poderá despoletar, dificilmente poderia ter tido melhor altura – uma indicação de consciência dos leitores a que se dirige a louvar.

“A Sorte do Perdedor”, Renan Barcellos

A Sorte do Perdedor

BARCELLOS, Renan – A Sorte do Perdedor, Minas Gerais, Buriti, 2014

 Sinopse: Dick Randy, um exímio piloto e cara de pau, prometeu a se mesmo nunca retornar ao planeta de Valhalla. No entanto, o que ele descobre na carcaça de uma nave, acaba mudando tudo. Os rebeldes pretendem causar uma guerra entre as três raças que habitam aquele sistema e só Dick Randy pode impedir que isso aconteça. E, claro, arrancar alguma recompensa do exército. Porque, afinal de contas, um cowboy à moda antiga sempre pode usar uma grana extra.

 

Resenha: Noveleta scifi, a narração começa com o background do protagonista, Dick Randy, e, por conseguinte, com a construção da personagem. Apesar de este início pender mais para o tell que para o show, o facto de não ser expositivo e de utilizar a construção frásica e os vocábulos a favor de uma construção vívida dos pontos importantes do passado de Dick faz com que não se torne aborrecido, ao mesmo tempo que cria um interesse imediato, seguido por empatia para com a personagem.

Após estabelecer o background e a construção do protagonista, o autor avança demonstrando ao leitor qual a situação actual. Informações sobre as raças alienígenas e as suas relações entre si, necessária à contextualização do enredo e do worldbuilding, são expostas através de conversa e interacção de bar, dando-lhe um travo das narrativas do Velho Oeste. Para aqueles leitores mais atentos e de melhor memória será fácil aperceberem-se, já no final do conto, terem tido os primeiros indícios de foreshadowing a bailar neste episódio narrativo.

O enredo encontra-se bem planeado e estruturado, com uma sequência de acontecimentos onde até o mais banal demonstra importância para o encadeamento da linha da história. Não são raras as vezes em que o protagonista, tropp do anti-herói com esperteza de sobra e falta de filtro na língua, se vê em posições difíceis – criadas ou pioradas por si próprio. Procurar saber como escapa delas torna-se numa sensação de antecipação durante a leitura. Alerto, no entanto, que atendendo ao cardápio que vemos da sorte do Perdedor, o twist final pode tornar-se previsível.

 

Esta opinião também se encontra disponível no blog Liga dos Betas.

“O Pequeno Herói”, Carina Portugal

O Pequeno Herói

PORTUGAL, Carina – O Pequeno Herói, [s.l.], Smashwords, 2018

Sinopse: Ruaer é um rapaz que pertence a uma família rica, contudo ele não é nada do que os pais gostavam que fosse. A sua energia fá-lo demasiado irrequieto e a sua imaginação não tem limites. No entanto, há algo que Ruaer quer mais do que tudo: ser um verdadeiro herói.

 

Opinião: Ruaer é um fanglord, “algo como um meio-tigre… mas menos que meio”, que, tal como indicado na sinopse, é também um rapazinho que quer ser um verdadeiro herói. São as acções e características heróicas de Ru que movimentam o enredo deste pequeno conto, criando também uma “história de origem” onde não apenas se dá a conhecer o protagonista numa caracterização tão directa quanto indirecta, como também se explora a aquisição de novos poderes. Termina, contudo, em aberto, deixando a sensação de se tratar de uma introdução – a nota final, onde a autora informa que Ruaer é uma personagem de RPG, confirma essa indicação.

Pode, todavia, ser lido sem esse conhecimento prévio, não só em relação às personagens, mas também e principalmente em relação ao wordbuilding. O carácter fantasioso do mundo de Ruaer é evidente nas descrições fornecidas ao leitor. Seria fácil, atendendo à pequenez do conto, cair-se ou no infodump ou na falha de informações. A autora é bem sucedida, contudo, a detalhar a sociedade do protagonista quanto baste para a ambientação, sem se tornar morosa ou despejar informação de uma assentada.

Tanto as ilustrações que acompanham o conto quanto o tom utilizado na narração sugerem tratar-se de uma história infanto-juvenil: nesse quesito, e apesar de na sua maioria ter-se mostrado adequada, há que salientar serem alguns vocábulos excessivos, em termos de exigência e conhecimento, para o público-alvo (“esclerótica”, por exemplo).

“O Legado de Avalon: O Garoto, o Velho e a Espada”, Luiz Fabrício de Oliveira Mendes

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MENDES, Luiz Fabrício de Oliveira – O Legado de Avalon: o Garoto, o Velho e a Espada, Paracatu – Minas Gerais, Buriti, 2014

Sinopse: Quando a lenda termina, a aventura começa. Desde que a feiticeira Morgana Le Fay passou a perseguir e aniquilar os poucos descendentes do Rei Arthur, a Ordem de Excalibur encarregou-se de espalhá-los pelas colônias e países amigos do antigo Império Britânico incluindo o Brasil do Segundo Reinado. Mais de 150 anos mais tarde, Aurélio Britto, garoto morador da periferia do Rio de Janeiro fã de futebol de botão e games de estratégia, é atacado na casa do avô por um misterioso homem-onça. O dono do antiquário da esquina, senhor Campbell, revela-se na verdade o milenar mago Merlin, prestes a apresentá-lo a uma arriscada jornada de herói: sobreviver às investidas dos seguidores de Morgana e reencontrar a espada Excalibur, desaparecida nas mãos da Dama do Lago há mais de mil anos. Junto com a implicante Gui (e ai de quem chamá-la pelo nome inteiro, Guilhermina!), o fã de rock Gabriel, o pessimista Bruno e o primo deste, Junior, além do avô Genaro é formado um pacto em torno de uma mesa de parquinho redonda visando o objetivo de restaurar o sonho de Camelot na pessoa de seu último herdeiro.

Resenha: Virado para um público juvenil, O Legado de Avalon destaca-se no uso dos mitos, da acção e da aventura. Ao longo da sua leitura, são notados dois elementos muito comuns à literatura de fantasia: o jovem “Escolhido”, e a estrutura da “Jornada do Herói”. Clichés, talvez, mas nem por isso negativos. O autor não só demonstra ter conhecimento sobre os mesmos (inclusive inserindo “Mr. Campbell” na narrativa), como uma capacidade em os utilizar a favor da sua narrativa.

Uma outra área em que o conhecimento do autor vem ao de cima é a histórica. Não são raras as ocasiões em que informações sobre a História brasileira são contextualizadas. Abrangendo locais, pessoas ou acontecimentos, os detalhes são inseridos de forma credível no enredo, ligando-se de alguma forma ao protagonista, ou à lenda de Arthur. Deste modo, o que poderia tornar-se num infodump apresenta-se como um dosagem moderada de curiosidades, que ascendem a necessidades pelo contexto. Esta capacidade de contextualização e ligação encontra-se ainda em evidência numa outra área: a fusão, chamemos-lhe assim, dos mitos arturianos com o folclore brasileiro. Torna-se difícil alongar muito nesta questão sem entregar spoilers, mas não haverá problemas em afirmar que o autor pegou nos elementos que existem em comum e os trabalhou de forma a que o leitor não estranhe a presença de mitos da Inglaterra de séculos passados no Brasil contemporâneo.

Como referido no início da resenha, o público-alvo do romance é o juvenil. Em consonância com essa faixa etária, a narrativa é acessível e perceptível sem, contudo, infantilizar os possíveis leitores. Um reparo a fazer prende-se, no entanto, com a pontuação: o excesso de reticências. Estas são usadas com uma abundância desnecessária, e que passou despercebida na revisão.

Apesar de o enredo apresentar um arco completo – princípio, meio e fim –, o livro acaba deixando mistérios e questões suficientes para o conectar com uma continuação, se não mesmo pedir por ela. O Legado de Avalon é, portanto, o primeiro de uma série, da qual já se encontra também disponível o segundo volume.

Esta opinião encontra-se também publicada no blog Liga dos Betas.

“O Ano Sabático”, João Tordo

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TORDO, João – O Ano Sabático, Alfragide, Dom Quixote, 2013

Sinopse: Depois de treze anos de vida desregrada no Québec, Hugo, um contrabaixista de jazz, decide tirar um «ano sabático» e regressar a Lisboa, onde espera reencontrar o equilíbrio junto da família. Porém, logo numa das primeiras noites, assiste ao concerto de Luís Stockman – um pianista que se tornou recentemente famoso -, e a almejada paz transforma-se no pior dos pesadelos: Stockman toca um tema inédito que Hugo conhece bem demais, pois é o mesmo que vem escrevendo há anos na sua cabeça… Quando o começam a confundir na rua com o pianista – e a própria mãe lança a dúvida sobre a sua identidade –, Hugo encetará uma busca obsessiva da verdade e do seu duplo, entrando num labirinto de memórias e contradições que o conduzirá a um destino muito mais funesto do que imaginara ao deixar Montreal.

É nessa mesma cidade que Stockman desaparecerá, curiosamente, mais tarde, segundo nos conta o seu melhor amigo – o narrador deste romance – a quem cabe agora desmontar os acontecimentos, destrinçar fantasia e realidade e enfrentar as assustadoras e macabras coincidências que unem, como num espelho, a vida dos dois músicos.

«O Ano Sabático», construído em crescendo e com páginas de tirar literalmente o fôlego, é um magnífico romance sobre a identidade e o outro, mas também sobre o amor fraternal e a amizade que perdura mesmo quando tudo o resto parece ter ruído.

Opinião: Dividido em duas partes (e um epílogo) sem capítulos, a estrutura reforça a sensação de “duas faces de uma moeda” produzida pelo enredo. Na primeira parte temos um narrador heterodiegético a dar a conhecer um músico – instrumentista – falhado que, ao ouvir um músico famoso tocar a melodia que ele próprio tem vindo a compor há anos sem nunca terminar, conclui ser o outro o seu gémeo, morto pouco horas depois do nascimento. Essa percepção é ainda reforçada pelas semelhanças físicas, atestadas por terceiros desconhecidos. Obcecado, persegue essa ideia, procurando compreendê-la e, talvez assim, compreender-se a si próprio. O facto de não o conseguir leva a uma fatalidade que se torna no pontapé para a segunda parte, logo diferenciada pelo narrador, que se torna homodiegético. A perspectiva demonstrada é, agora, a do músico famoso: ao mesmo tempo que se aprofunda a personagem, ele é também colocado na mesma situação de ter uma melodia existente apenas no seu pensamento colocada em pauta pelo outro, o instrumentista falhado. A procura na resolução do mistério é, mais uma vez, a procura de identidade.

Trata-se, portanto, de um romance introspectivo, com um ritmo calmo e bastante parado, que deixa ao leitor a escolha de interpretação entre a loucura das personagens ou o carácter fantasioso do enredo; não são fornecidas respostas, esperando-se que cada um retire a sua. As próprias personagens são apresentadas como parcialmente ficcionais dentro da própria construção, o que não impede a sua bem conseguida caracterização – tanto directa como indirecta. É notável, no entanto, o male gaze em relação às personagens femininas, representadas mais por ideias masculinas sobre o feminino que por outros elementos.

“O Cônsul Desobediente”, Sónia Louro

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LOURO, Sónia – O Cônsul Desobediente, [Lisboa], Saída de Emergência, 2009

 

Sinopse: A História de Aristides de Sousa Mendes. O homem que, para salvar 30.000 inocentes, desobedeceu a Salazar e foi perseguido. Há pessoas que passam no mundo como cometas brilhantes, e as suas existências nunca serão esquecidas. Aristides de Sousa Mendes foi uma dessas pessoas. Cônsul brilhante, marido feliz, pai orgulhoso, teve a sua vida destruída quando, para salvar 30.000 vidas, ousou desafiar as ordens de Salazar. Cônsul em Bordéus durante a Segunda Guerra, é procurado por milhares de refugiados para quem um visto para Portugal é a única salvação. Sem ele, morrerão às mãos dos alemães. Infelizmente, Salazar, adivinhando as enchentes nos consulados portugueses, proibira a concessão de vistos a estrangeiros de nacionalidade indefinida e judeus. Sob os bombardeamentos alemães, espremido entre as ameaças de Salazar, as súplicas dos refugiados e sua consciência, Aristides sente-se enlouquecer. E então toma a grande decisão da sua vida: passar vistos a todos quantos os pedirem. Salvará 30.000 inocentes mas destruirá irremediavelmente a sua vida.

 

Opinião: Aristides de Sousa Mendes tornou-se num dos seres humanos mais meritórios no percurso de Portugal ao sacrificar a sua carreira e bem-estar pelo grande número de desconhecidos que, fugindo do extermínio, lhe pediu vistos de passagem por Portugal: vistos que foram concedidos, à revelia das ordens expressas do Governo. Sónia Louro volta a pegar no que terá sido a realidade e tece-a em formato de romance, demonstrando grande capacidade de escolha sobre a “personagem” elegida. Como se a decisão que o imortalizou não se bastasse, Aristides levou uma vida capaz de manter o interesse do leitor, e que a autora dá a conhecer, não lhe ocultando também os defeitos, e tomando por base uma pesquisa que se nota no próprio texto, sem necessidade das constantes notas de rodapé, a indicar de onde se adquiriu esta ou aquela informação, e que acabam por se tornar morosas pela sua quantidade, sendo uma interrupção frequente à leitura.

A narrativa não é linear, com os capítulos alternando entre episódios da vida anterior e os momentos de acção em Bordéus que o tornaram conhecido. Apesar de se tratar de um mecanismo que por si só não é negativo, acaba aqui por ter esse efeito, na medida em que é desnecessário à narração, e acaba por lhe criar rupturas. Outro ponto negativo prende-se com a revisão, que deixou passar falhas de pontuação – em particular nos diálogos – e gralhas como uma ou outra troca entre os nomes dos filhos da personagem.

O maior ponto positivo, por outro lado, prende-se com o desenvolvimento gradual das acções em Bordéus: não sendo demasiado apressada nem demasiado lenta, a autora conseguiu uma apresentação realista e emocional do que terá sido uma decisão feita pouco a pouco, com as dúvidas e hesitações que além de humanizarem a personagem, tornam ainda mais louvável a decisão da pessoa.

Trata-se, portanto, de uma leitura que permite um maior conhecimento sobre o homem, não esquecendo que ainda que biografia, não deixa de ser um romance.