“Peixeira&Macumba”, Pablo Amaral Rebello

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REBELLO, Pablo Amaral – Peixeira&Macumba, [s.l.], Edição de Autor, 2018

Sinopse: Depois que as bombas caíram. Depois que as cidades ruíram. Depois que os céus se escureceram. Quando os tiranos governavam impunemente e todas as esperanças pareciam perdidas. Testemunhe o nascimento de uma lenda. Um homem teimoso demais para morrer e um bruxo misterioso embarcam em uma movimentada jornada de vingança e justiça capaz de mudar a face do mundo onde vivem. Venha conhecer o sertão pós-apocalíptico de Peixeira & Macumba, onde faroeste e fantasia se misturam de forma explosiva e surpreendente! Do mesmo autor de Os Lugares do Meio e Deserto dos Desejos.

Opinião: História de vingança ambientada num faroeste semi norte-americano, semi-brasileiro, onde também elementos de fantasia se fazem presentes. Encontramos a repetição em ponto pequeno da economia injusta da ostentação bela e dispendiosa dentro de muros, restrita a poucos, mantida pelo sacrifício e pobreza de muitos. Os nomes acompanham a noção de identidade das personagens, indo além dos protagonistas. As descrições tanto directas quanto indirectas conseguem uma boa ambientação, e a narrativa mantém um bom fluxo, alternando com frases curtas ou mais compostas conforme o objectivo, sendo também o uso vocabular bem equilibrado. O facto de os capítulos se encontrarem subdivididos também facilita a leitura.

Em relação às personagens, têm bom potencial e não são superficiais; seguem, contudo, os clichés dentro do género de “Velho Oeste”, sendo que algumas têm episódios na trama que pouco contribuem para o enredo, deixando a questionar qual realmente a sua função narrativa – o caso da jornalista, por exemplo. Talvez haja a pretensão de fazer um maior uso da personagem em volumes futuros, visto que apesar de a presente obra não ter tido um final em aberto, deixou espaço para próximos.

Em relação à revisão, deixou-se escapar algumas falhas: maiúscula com verbos referentes ao discurso directo  (“ – Você aí! – Berrou um rapaz”); vírgulas mal colocadas (“Mas, o que isso significa?”); uso do Pretérito Perfeito em vez do Pretérito-Mais-que-Perfeito com descrição de eventos anteriores ao tempo narrativo; personagens femininas a dizer “obrigado” em vez de “obrigada”; falhas de singular/plural (“Os carrascos não lhe deram oportunidade de serem compreendidos”); pontuação nos diálogos (“ – Ei – chamou em voz baixa. –, tudo bem com você?”); e gralhas gerais como “não estava com presa de ir embora” ou “quaisquer ferimentos de o afligisse”.

Referi estas questões como falhas de revisão por, como já referido, a narração geral ser bem conseguida e desenvolvida, o que leva a crer ser de facto questão de gralhas e revisão, e não tanto de desconhecimento.

Num geral, um livro que se lê bem e que procura trazer algo de novo através da junção de géneros já conhecidos, ao mesmo tempo que lhe dá também alguns características da cultura do autor. Tem bastantes pontos em que se destaca pela positiva, mas também espaço para crescer e se desenvolver.

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“Carnificina: Contos das Cidades Malditas”, VVAA


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VVAA – Carnificina: Contos das Cidades Malditas, [s.l.], Projeto Carnificina, 2018

Sinopse: Muitos escrevem sobre aquilo que mais desejam na vida: amor, dinheiro, sexo, aventura, fantasia; uma jornada em busca de uma recompensa, uma batalha em nome de um bem maior. Mas poucos são aqueles que se lembram de que, além do “felizes para sempre”, há a morte e todos os elementos que compõem a finitude humana. Destes nasceu o medo, e do medo advieram o terror e o horror que poucos desejam saciar em suas gargantas sedentas pela escuridão.

Sob esta premissa, 12 autores se reuniram a partir de um convite singelo, a fim de que criassem contos de terror e horror com somente uma regra: escrever à vontade, sem amarras morais. Destarte, à procura da essência do sangue, do sobrenatural e das trevas, este grupo deu vida a uma antologia formada por histórias cruéis que se passam em cidades malditas, tal é a nossa realidade brasileira.

Opinião: Antologia brasileira constituída por oito autores e quatro autoras, pretende-se dentro do género do Horror, com elementos da Ficção Especulativa em algumas das narrativas. A maioria dos contos procurou basear-se na visualização do horrendus como forma de inserção no género, sem demais factores. Na sua maioria, não foram bem sucedidos o que, aliado a uma má revisão geral, não abonou a favor da antologia. Conto como excepções apenas quatro contos.

Segue a opinião diferenciada a cada um dos contos:

“A Cidade dos Degenerados”, Alfredo Alvarenga: Narração em primeira pessoa de um agente que desmantela o culto de uma nova droga. O enredo é batido, apresentando vários furos (o protagonista sabe quem é o vilão meramente por intuição; as motivações do vilão não são credíveis; baseia-se em “verdades universais” que não o são [ONG’s a considerarem drogas como glamorosas e revolucionárias?]; reviravoltas fracamente justificadas como “sorte do destino” ou porque sim; nunca se explica de onde veio a droga, lançando-se o produto para o campo da ficção especulativa. A narração é monótona, desenvolvendo-se em descrições clichés, frases demasiado e desnecessariamente compridas, e repetições próximas do mesmo vocábulo, o que gera cacofonia. Também o infodump inicial desmotiva à leitura, e é de notar uma falha ou má colocação das vírgulas, como por exmeplo “O que testemunhei a seguir, mais parece o fruto”).

“A Cidade Machista”, Carli Bortolanza: Procura despertar a repulsa no leitor com o uso de sangue, intestinos, e bosta humanas; todavia, as descrições rasas e a aleatoriedade dos elementos produzem antes a indiferença, ou o riso. A nível narrativo, apresenta falhas de trocas de acentos (“Ás vezes”), na utilização de minúsculas quando seriam maiúsculas (“a igreja católica na santa inquisição”), e na utilização inconsistente de tempos verbais (“Jajá se sentiu frustrado e fora para casa”; “já com um curativo no pé e depois de Davi se banhou”), ou mesmo distracção na reformulação frásica (“Davi hoje está preso e ainda e lembrou das gargalhadas”) a evidenciar a falta de revisão.

Tem, contudo, frases satíricas de críticas bem conseguidas.

“A Cidade do Extermínio”, Bruno Wolff: Conto curto partindo de execuções levadas a cabo, a título pessoal, por quem pretende limpar o país da “escória” homossexual, sacrificando quem não o seja pelo caminho, para alcançar esse fim – ou apenas se divertir macabramente. A prossecução é fraca, mas tem uma boa ideia a desenvolver. Seria de mais valia aprofundar e desenvolver mais os sentimentos e emoções das vítimas, tornando-as mais complexas e profundas.

A nível narrativo denotam-se incongruências de género (“a arma de calibre 38 – tirado sob a camisa – disparou”) e construções frásicas inverosímeis ou excessivamente trabalhadas. Por exemplo, “e descobrimos que esse carinha de camisola de gola V com o tipinho meio mole de nome Flávio é bicha” não tem a naturalidade de um discurso directo.

“A Cidade Cristã”, D. A. Potens: Narração em primeira pessoa de um pai cristão que vinga o assassinato do filho homossexual. O facto de se ambientar na situação actual do Brasil, e o modo como procura usar os dizeres (“bons costumes”, “cidadão de bem”) e citações bíblicas numa reversão que expõe a crueldade e hipocrisia do seu uso actual leva ao entendimento de que se deseja uma crítica à sociedade. Perde-se, contudo, demasiado em considerações que não contribuem nem para o enredo para as personagens, tornando a narrativa desnecessariamente morosa, enquanto reflecte também um infodump e um desequilíbrio entre tell e show. Pesando este exagero introspectivo, as descrições são rasas e o final apressado.

“A Cidade do Ritual”, Lisa Hallowey: Mais uma história de vingança, desta vez gerada pelo abuso de uma menor. O uso do Presente do Indicativo na narrativa trouxe mais-valia ao texto, dando uma sensação de actualidade às descrições e emoções, apesar de por vezes a revisão ter deixado escapar um ou outro uso do Pretérito Imperfeito, gerando alguma inconsistência, aliadas a algumas falhas na utilização das vírgulas. O salto temporal entre a introdução e o restante da narrativa não contribui para a obra no seu geral: não é primordial ao enredo, nem se torna perceptível de imediato.

O final demonstra-se ambíguo, não ficando certa a identidade do abusador ao leitor, ainda que à protagonista o seja.

“A Cidade Alcoólica”, Gustavo Paiva: Zé, gostando de visualizar acidentes e mortes macabras na internet, descobre por essa via a morte dos pais num violento acidente rodoviário. A visão marca o então adolescente, seguindo-se uma vida de álcool e pesadelos. O conto desenvolve-se no acompanhar da degradação de Zé, que se vai espiralando até à fatalidade final. Embora seja necessário um desenvolvimento neste tipo de narrativa, nota-se aqui um exagero monótono que torna a leitura morosa. Ainda dentro da estrutura narrativa, creio que a descrição da morte dos pais teria causado mais impacto caso tivesse sido realiza não logo no início, mas mais tarde, após se mencionarem os pesadelos do protagonista.

Sobre a narrativa em si, notam-se falhas como discordância de singular/plural (“um casal caminhando abraçados”), uso erróneo do “-se” (“quando Vanda suicidou-se”) e troca entre os porquês (“era bom apenas por que se trata de gente”; “ele mencionara a fome por que algo dentro dele”).

“A Cidade Boçal”, Humberto Lima: Ao roubar uma “cruel” crítica gastronómica no momento da sua (quase cartoonish) morte, um ladrão não sabe ainda que anos depois ela retornará no inferno para recuperar o que é seu. O enredo simples, a unidimensionalidade das personagens, e a falta de desenvolvimento levam a que não haja um suspensão de crença por parte do leitor, o que por sua vez leva a que os eventos tendam mais para o ridículo que para o horror. Apresentação ainda falhas de revisão como “não como a três dias”, “justificando-se justificando para Maitrês”, e um automóvel Hr-V que inicialmente é descrito como prata para uns parágrafos a seguir ser descrito como preto.

“A Cidade das Bonecas”, Jean Gabriel Álamo: O autor pega no mito urbano das “bonecas humanas” da deepweb para desenvolver o que é uma mistura de fantasia, detectivesco, e denúncia social – realizada, essencialmente, através da construção da protagonista. A narrativa encontra-se bem desenvolvida e com bom ritmo. Nota-se, contudo, a mesma falha de revisão que é geral à antologia, como por exemplo “um cachorro de grande porta” e trocas no uso dos porquês.

“A Cidade dos Esquecidos”, Jessé Diniz: Insere-se na linha dos hotéis/alojamentos sobrenaturais, onde os desaparecimentos ficam por explicar. Não sendo excepção, o protagonista encontra o diário de uma menina desaparecida no quarto onde se aloja, sendo a narrativa essencialmente a leitura desse diálogo, até que o protagonista vivencia um final similar ao da menina. As razões para os ditos desaparecimentos e o destino de ambos ficam em aberto. Tanto enredo quanto personagens falham em termos de desenvolvimento, o que torna o primeira superficial e as segundas unidimensionais. Em termos narrativos, apresenta falhas nas conjugações verbais (trocando os usos entre o pretérito perfeito e o pretérito imperfeito) e nas pontuações, o que por vezes leva ao alongamento desnecessário e moroso da frase, assim como gralhas (“nada mais é do que, com pouca bagagem, o mochileiro viaja(r)”.

“A Cidade da Carnificina”, Raquel Pagno: Mais um conto que parte de um mito urbano, e do qual se pode retirar uma crítica social. A narrativa encontra-se bem encaminhada e as descrições – equilibradas – tornam-se o centro da história, visto que o enredo é simples e as personagens são construídas em sua função. A reviravolta é expectável, mas não deixa de ser uma boa jogada, e a maior incongruência (o pressuposto de que se não se é capaz de matar a animais, também não se é capaz de matar seres humanos) é colocada em questão pelo próprio protagonista, deixando a suposição de ser ou crença ou parte da armadilha.

“A Cidade do Bullying”, Tatianie Kiosia: Por um incidente durante a infância, Daniel descobre o seu gosto por carne humana. O conto aborda a sua primeira tentativa de sequestro de modo a dar azo à refeição que por anos almejou. Ainda que o narrador seja heterodiegético, é a visão de Daniel que predomina, o que leva a uma maior intimidade com o seu pensamento e ambiguidades já a pender para o psiquiátrico. A alimentação que faz a partir da vítima é desenvolvida num crescendo bem conseguido que obtém o clímax final. Fica, contudo, por explicar o como e porquê da aparição da polícia quando ninguém saberia das tendências de Daniel, do paradeiros da vítima, ou que teriam sequer uma conexão. Em suma: nada tinha que os ligasse, e os vizinhos que poderiam denunciar são mencionados exactamente para referir que estavam afastados.

“A Cidade da Morte”, Thainá Christine: Também este conto pega numa ideia já familiar ao leitor: a cidade ignorada, tida com asco, visitada por três adolescentes com o intento de filmar um documentário. Tanto a premissa quanto a descrição da vila evocam as criações norte-americanas. A introdução é morosa, podendo ter sido reduzida, e a frase inicial cliché; todavia, o restante do conto desenvolve-se a um bom ritmo. O Museu de Estrutura Escravocrata torna-se o palco de reviravolta, e as questão raciais são abordadas sem serem forçadas pela goela do leitor.

“O Último Cabalista de Lisboa”, Richard Zimler

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ZIMLER, Richard – O Último Cabalista de Lisboa, Porto, Porto Editora, 2013

 

Sinopse: Em abril de 1506, durante as celebrações da Páscoa, cerca de dois mil cristãos-novos foram mortos num pogrom em Lisboa e os seus corpos queimados no Rossio. Reinava então D. Manuel, o Venturoso, e os frades incitavam o povo à matança, acusando os cristãos-novos de serem a causa da fome e da peste que flagelavam a cidade.

Berequias, sobrinho e discípulo de Abraão Zarco – iluminador e membro respeitado da célebre escola cabalística de Lisboa –, vai encontrar o tio e uma jovem desconhecida mortos na cave que servia de templo secreto desde que a sinagoga fora encerrada pelos cristãos-velhos. Um valioso manuscrito iluminado também desapareceu do seu esconderijo. Estarão os dois incidentes relacionados? Terá sido um cristão ou um judeu, como os indícios fazem crer, a assassinar o tio? Quem será a rapariga morta?

Publicado originalmente em Portugal, O Último Cabalista de Lisboa é um extraordinário romance histórico, que catapultou o seu autor para um sucesso internacional, tendo sido publicado em toda a Europa, nos Estados Unidos e Brasil, onde depressa se tornou um bestseller.

Opinião: Com contexto de romance histórico e enredo de policial/mistério, a obra é uma bem-conseguida mescla de géneros. Através do narrador autodiegético, o leitor segue as reminiscências do protagonista até um dos momentos mais negros do povo português enquanto ser humano, frequentemente esquecido sob o manto da ladainha de “brandos costumes”: o Massacre de Lisboa de 1506, onde centenas de judeus foram perseguidos, torturados, e assassinados pelos seus contemporâneos citadinos, que os culpavam da situação de seca, peste e fome do país. A matança prolongou-se por dias e o autor não se acanha nas descrições: estas são violentas, vívidas, e detalhistas, não constando na narrativa pelo horror por si próprio, mas pelo peso contextual que acarretam, bem como pelo momento de viragem que marcam tanto no desenvolvimento do enredo, quanto no crescimento e autopercepção do protagonista.

Determinante é a obsessão que Berequias, o protagonista, desenvolve na resolução do mistério que cobre a morte do tio: assassinado junto com uma mulher desconhecia, ambos despidos, na cave fechada à chave pelo interior. Apesar dos perigos, da mortandade, e do irmão desaparecido, descobrir o assassínio do tio torna-se numa prioridade egoísta, que o leva a vários pontos da cidade e da comunidade – através dessas movimentações são também dados a conhecer ao leitor detalhes da vivência judaica lisboeta da altura, não apenas referentes às tradições e modos de vida, como também às relações entre si e com a população não-judaica. Não é uma personagem por quem se sente grande empatia, embora se possa compreender – nem sempre concordar com – as suas acções. É, contudo, uma das que se encontram com maiores camadas de desenvolvimento, visto que as restantes estão condicionadas à visão que Berequias tem delas e à importância que lhes atribuiu no seu próprio entendimento. De salientar é ainda o melhor amigo muçulmano, que parece compreender a realidade com um certo misticismo ou realismo mágico, tornando-se por isso auxílio ocasional, mas primordial.

O estilo de escrita é trabalhado, por vezes algo floreado, mas não prejudicial à leitura, sendo inclusive de extrema capacidade na projecção das descrições. Primeiro de um ciclo de quatro livros – The Sephardic Cycle –, O Último Cabalista de Lisboa pode também ser lido como história independente, apesar da ponte que o final (um quase epílogo onde o tempo narrativo acelera e se descreve o destino das personagens ao longo de vários dos anos seguintes, retomando ao período temporal onde nos encontrávamos quando se iniciou a reminiscência) constrói para o volume seguinte.

“Kinshi na Karada: O Corpo Proibido”, Josiane Veiga

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VEIGA, Josiane – Kinshi na Karada: O Corpo Proibido, [s.l.], [Amazon], 2014

Sinopse: Japão, 2º Guerra Mundial.

Apesar do começo promissor, o exército japonês, um dos mais bem armados e fortes de sua época, viu-se acuado, pronto para a derrota. Na terra do Imperador, o medo parecia acompanhar, como um guardião, cada habitante do país. Nas ruas, a Kempeitai – Corpo de Soldados da Lei – impunha sua vontade com brutalidade e até a morte.

O Japão iniciava a década de 40 dividido entre a esperança e o medo dos dias vindouros.

Shiromiya Kazue cresceu nas ruas, órfão, acompanhado do irmão que o vendia a troco de arroz. Desde pequeno, sua aparência feminina contribuía para que o preço de sua carne fosse o bastante para que ambos pudessem sobreviver aos dias cruéis. Porém, num ambiente em que sobravam pessoas famintas e faltava dinheiro, ser jovem e bonito já não mais bastava. Foi assim que ele precisou se transformar em mulher.

Ryo era um poderoso comerciante, dono de uma frota de barcos pesqueiros. Viveu o período turbulento com relativa calma. Comprava a paz que necessitava, assim como o corpo daquelas com quem queria se deitar. Mas a vida ainda haveria de ensinar-lhe que, nem sempre, o coração de alguém está à venda e nem tudo é o que parece.

Kazue e Ryo se cruzam num momento difícil de suas vidas e não sabem o que fazer perante o que entre eles surge. Como Kazue, acostumado à dor e ao abuso, poderia entregar o coração a alguém que o via apenas como mercadoria? E como Ryo poderia amar um homem?

Kinshi na Karada pode ser traduzido como o Corpo Proibido para o português, e a história retrata a sociedade japonesa na primeira metade da década de 40.
A honra e a vergonha se cruzam, mostrando o que, de fato, existe em cada um de nós, humanos.

 

Opinião: Ambientado no Japão durante a 2º Guerra Mundial, o enredo pretende desenvolver o romance entre Kazue, um jovem resgatado da prostituição infantil das ruas, e Ryo, um comerciante rico e preconceituoso, tendo como secundário o romance entre Mamoru, dono de um prostíbulo, que acolheu Kazue, e Shin, poderoso familiar do Imperador. É uma premissa que atrai, não apenas pelo contexto histórico-social e cultural, como também pelo potencial empático que poderia advir das personagens. Infelizmente a prossecução ficou demasiado aquém para que esse potencial se cumprisse, falhando a vários níveis, os quais serão em seguida elaborados.

Começando pelo enredo, vemo-lo mantido à base de um ciclo de ofensas/mal-entendidos, seguido de perdão/reconciliação, que não avança e alterna de forma repentina e abrupta entre estes estados de espírito, sem um desenvolvimento adequado, que acaba por causar contradições nos comportamentos das personagens. Ademais as relações amorosas retratadas são notoriamente abusivas, com base numa concepção do amor enquanto força inalterável e acima de qualquer indivíduo: algo perigoso, pois fomenta a ideia de que por amor tudo se deve perdoar e aceitar. Apenas no final (aberto) vemos uma reacção de “chega” de um dos abusados, que por se tratar de uma duologia julgo que será revertida no volume seguinte. Já o andamento do enredo é demasiado parado e, volto a ressalvar, em círculos constantes em torno das mesmas questões. Assim como acontece com a sinopse, poder-se-ia reescrever cortando e reduzindo, sem que por isso se prejudicasse enredo ou personagens. Acrescenta-se, ainda, o “anzol” que durante grande parte da leitura foi sendo deitado e que não cumpriu com as expectativas causadas: de forma a manter o interesse, é quase desde o início indicado ter uma das personagens um segredo que lhe destruiria a vida. As expectativas goram-se quando o referido segredo é revelado (muito depois do que deveria ter sido), pois ainda que de facto perigoso e culturalmente de relevância, parece pouco credível que, face à relação profunda e duradoira com outra personagem, a reacção dessa personagem tivesse sido a narrada.

Esta falta de credibilidade narrativa, que dificulta a suspensão da crença por parte do leitor, denota-se várias vezes ao longo do texto. Além dos momentos de infodump, a grande maioria dos episódios mais sensíveis são descritos quase com factualidade, falhando assim em causar empatia ou sentimento no leitor. Procura apoiar-se em episódios geralmente tidos como horror pela população em geral e não os desenvolve ou sensibiliza, tornando-os numa muleta ineficiente, de como são exemplos a descrição dos campos de trabalho/concentração, ou o assassínio de uma menina com uma bala na cabeça. Em ambos os exemplos há uma superficialidade que gera indiferença.

Também para esta falha de suspensão da crença contribuíram as contradições: uma personagem que se torna fluente em Alemão após alguns meses a ser ensinado por um amante; uma personagem traumatizada por ter violado (e ter deixado violar) uma mulher, e logo a seguir viola outra personagem; uma paixão assolapada que por anos é escondida a “despertar” num repente, sem qualquer desenvolvimento prévio a conduzir a esse despertar (refiro-me a Mamoru), e que, aliás, é revertido logo no capítulo seguinte, perdendo qualquer relevância que poderia ter tido; o grande alarido de Ryo por Kazue ser analfabeto, contradito pela sua consideração de ser perda de tempo, quando Kazue afirma ser seu sonho aprender a ler e a escrever; o facto de num parágrafo se afirmar que era como se a morte incomodasse cada vivente, e no seguinte se afirmar que era como se a guerra não incomodasse; etc. A estas contradições acrescentam-se ainda afirmações descabidas, se não mesmo preconceituosas, como “O sexo entre homens era muito mais carnal e intenso que entre um homem e uma mulher.”, “Gritou como uma mulherzinha.” ou “Mas você faz sexo como uma menininha.”

Denota-se também superficialidade em relação à cultura a que se pretende contextualizar o enredo: a gueixa é reduzida a uma dançarina, com afirmações de que “não trabalhavam”, e várias vezes é afirmado que a cidade (quando não o país) não sente os efeitos da guerra – quando o discursivo narrativo muda, passando a descrever em poucas linhas a pobreza advinda de bombardeamentos, pouco é sentido pelos protagonistas. A insinuação de um relacionamento homossexual entre Hitler e Speer (arquitecto-chefe do partido) não tem qualquer cabimento, nem o ditador nazi teve olhos claros (eram castanhos), e o ambiente histórico geral é raso, com situação nas datas mais importantes e menção aos eventos mais marcantes sem entrar em grandes detalhes, quer dos eventos em si, quer das consequências que deles advieram.

Em relação à narrativa, são frequentes as repetições de informação (“Haviam-se conhecido na infância aos nove anos. Ambos tinham a mesma idade.”; “Aquele final de janeiro terminava como[…]”); repetições próximas de palavras, causando cacofonia (“já haviam se passado […] e não haviam conseguido […] que haviam feito.”; “já que já fazia”); erros na utilização das vírgulas, colocando-a entre o sujeito e o predicado (“A proprietária da casa em que viviam, havia-lhes dito”; “as casas rústicas, pobres e feias eram a conjução”), seguindo o mas (“Mas, o mais certo era que”) ou o conector de adição (“e, era uma sorte que estava sendo acolhido em suas asas.”), e inexistindo no vocativo (“Não senhor…”; “Nós japoneses acreditamos”); confusão entre “sob” e “sobre”, entre “história” e “História” (“O dia 16 de Julho entraria para a história”), “que” e “quem” (“Mas era Nana que mais se irritava”), e entre “a”, “à” e “há” (“como a muito não fazia”; “existe um abrigo há uns dois quilómetros de aqui”; “À custo, Ryo assentiu”); uso do género masculino em vez de feminino (“Enfileirados, cerca de meia dúzia de mulheres”); mistura dos tratamentos “tu” e “você” numa mesma frase (“Mas você me ama! – persistiu. – Ensina-me a amá-lo – pediu” [a intenção da personagem seria dirigir esse pedido ao “você” da primeira frase, não a um terceiro, como poderá ser interpretado quando fora de contexto]); erros na colocação pronominal (“Quando o homem afastou-se” [o “quando” colocaria o pronome antes do verbo]); e diversas falhas em relação aos tempos verbais, desde o uso da conjugação correspondente à pessoa (“dois dias havia se passado”), à conjugação verbal no passado quando se pretende o futuro (“É questão de tempo para tudo ser bombardeado, muitos morreram dentro de suas casa”), ao uso do pretérito perfeito (ex: foi) quando a situação pediria pretérito-mais-que-perfeito (ex: fora), por se referir ao passado do tempo narrativo.

Trata-se, portanto, de uma obra que ficou por cumprir com as potencialidades que a sua premissa detém, beneficiando de uma revisão a vários níveis que a poderia levar a outro patamar.

“O Legado de Eros”, VVAA

Eros

VVAA – O Legado de Eros, [s.l.], Fantasy&Co, 2013

Sinopse: Antologia (fantástica) de contos românticos e eróticos, com trabalhos dos escritores Carina Portugal, Carlos Silva, Inês Montenegro, Pedro Cipriano, Sara Farinha e Vitor Frazão.

 

Opinião: Publicada em 2013, a antologia reúne contos do que era então parte da equipa do Fantasy&Co. A temática, apesar do indicado na sinopse, prende-se mais com o romance que com o erótico. São seis os contos que perfazem a antologia, seguindo abaixo a opinião individual sobre cinco deles, visto que deixarei o meu próprio de fora.

“Rumo a Casa”, Sara Farinha: O enredo foca-se num momento de regresso a casa e de um pedido de perdão. Trata-se de um conto mais introspectivo, onde o núcleo seriam os sentimentos das personagens. Estas, todavia, são unidimensionais, reduzindo-se a sua função na história à materialização do sentimento do momento e falhando, por conseguinte, na empatia. É de notar a falha de pontuação nos diálogos, e também o final não causa surpresa, visto serem dados elementos ao longo da leitura que permitem ao leitor deduzi-lo. Destaca-se, pela positiva, a prosa aprazível.

“Carta para o Cosmos”, Carlos Silva: Mantendo-se na scifi, encontramos aqui uma mistura entre o sentimento e o artificial. O enredo é desenvolvido através de mensagens deixadas ao longo do tempo pela esposa ao marido astronauta, numa reformulação do epistolar. Apesar das emoções que se podem deduzir advir de tamanha situação, acaba por haver uma certa “mecanicidade” narrativa que as enfraquece. A reviravolta final dá uma nota de esperança onde já se esperava nada haver, ainda que se mantenham várias questões a lesar os protagonistas.

“Amor-Perfeito”, Vitor Frazão: O que inicialmente parece um lento romance de reencontro entre dois imortais desenvolve-se como um triângulo em que posse e desrespeito entram na equação. Uma boa escolha de tema e de questões a considerar, que no entanto teria beneficiado de maior desenvolvimento das relações entre as personagens.

“A Primavera”, Pedro Cipriano: Um dos muitos contos do autor que pertencem ao worldbuilding que durante anos esteve em desenvolvimento. Apesar de, sozinho, se poder valorizar a contribuição dada a novas perspectivas do referido worldbuilding, na totalidade torna-se cansativo, em particular por constantemente pegar no mesmo tema: os horrores da guerra.  Ressalta-se, apesar de deduzível, a ironia do final.

“Sementes de Fada”, Carina Portugal: O conto mais longo da antologia, trabalhando a fantasia com o romance. Inversamente à maioria dos restantes contos, que priorizam um momento, neste enredo temos uma maior sensação de princípio, meio e fim, tendo tido as personagens espaço para serem caracterizadas e amadurecer dentro da história. É possivelmente o conto melhor equilibrado da antologia. Considerei, contudo, a protagonista demasiado infantilizada no começo, em especial quando comparada ao que demonstra de si própria mais adiante. Também o final carece de uma maior claridade, deixando demasiado à uma interpretação dúbia.

 

A antologia pode ser lida gratuitamente aqui.

“As Boas Damas: Uma Novela de Sherlock Holmes”, Clara Madrigano

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MADRIGANO, Clara – As Boas Damas: Uma Novela de Sherlock Holmes, Blumeau, Dame Blanche, 2017

Sinopse: As boas damas é a aventura de Annabel Watson, filha do famoso doutor e parceiro de investigações de Sherlock Holmes. Anos depois da morte dos pais, Anna vive com Holmes, seu tutor legal, que está prestes a se aposentar, até uma última cliente aparecer: uma dama da sociedade, que confessa ter assassinado o próprio filho, desafiando o detetive a descobrir suas motivações. Holmes, com Annabel a tiracolo, vê-se diante de um mistério que parece encobrir um mundo sobrenatural.

 

Opinião: São muitas – e serão ainda mais – as adaptações e interpretações em torno de Sherlock Holmes. Tamanha popularidade traz sempre uma expectativa agridoce: por um lado a possibilidade de explorar mais um caminho, traço ou dinâmica de algo que já se conhece e gosta, por outro a hipótese de encontrar mais do mesmo, de saturação. As Boas Damas é das obras que consegue dar à personagem e à história uma nova faceta, trazendo elementos novos enquanto mantém os que evocam a familiaridade dos romances de Conan Doyle, como por exemplo o uso do grupo de miúdos de posses parcas como ajudantes. Além de trabalhar com novas personagens, dá ainda nova luz às já existentes, tornando-as distintas para a sua própria narrativa, mas sem as descaracterizar. Aplica, aliás, o interesse de Doyle no místico e no feérico, criando por conseguinte um eco também com o autor e não somente a obra.

Classificado como mistério e fantasia, a história é narrada em primeira pessoa por Annabel Watson, que assim como o pai é quem escreve e publica esta aventura de Sherlock. Contrariamente ao médico, contudo, que sempre foi mais observador e seguidor das ordens do detective, Annabel não se restringe ao papel de companheira de aventura, tomando para si um carácter mais activo e voluntarioso, adquirindo um papel no enredo que efectivamente o coloca em movimento. Ou seja, trata-se de uma personagem cujas acções despoletam consequências, e que se encontra longe da protagonista passiva a quem os acontecimentos sucedem sem movimentação prévia.

Pelo seu tamanho, poderá ser considerada como uma novela, a qual se lê muito rapidamente pela capacidade de manter o interesse, despoletado muito pelo pacing (calmo, mas não moroso), através do qual o mistério – não apenas o do “caso”, mas também o de Annabel – se vai desenrolando.

É de notar algumas gralhas que passaram despercebidas aquando a revisão (como exemplos: um “ela” referindo-se a Sherlock; uma troca entre “que” e “de” ou a inexistência de pontuaçãol no final de uma frase), falhas de pontuação dos diálogos (com maiúscula quando seria o caso de minúscula); e o uso de “-se” à frente do verbo em casos excepcionais, que o colocariam atrás (em frases negativas, por exemplo). No geral, contudo, denota-se uma escrita agradável à leitura, natural, e com bom uso vocabular.

Fórum Fantástico 2018

A próxima sexta-feira dia 12 será o primeiro dos três dias em que a biblioteca Orlando Ribeiro (Telheiras) volta a receber o Fórum Fantástico, evento que promulga a Fantasia e a Ficção-Científica em Portugal. À semelhança dos anos anteriores as actividades serão várias e variadas, desde debates e palestras a workshops, jogos, exposições, apresentação de curtas e, naturalmente, lançamentos. A programação pode ser verificada aqui, mas por motivos interesseiros, deixarei dois lançamentos em destaque:

Lisboa Oculta

Sinopse: “Já todos os turistas sabem o que devem visitar em Lisboa, mas saberão eles o que não devem visitar? No Guia Turístico – Lisboa Oculta (publicação bilingue em Português e Inglês) poderás encontrar as histórias de treze atracções lisboetas até agora ocultas. Jantares secretos, Institutos paranormais, estátuas falantes, sereias e sons divinos, tudo isto e muito mais nesta edição ricamente ilustrada pelos Credo quia Absurdum.”

Lançamento: sexta-feira 12/10, às 17h45.

o resto é paisagem

Sinopse: “É certo e sabido que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem.

Entrar neste Portugal implica esvaziar o espírito, atravessar a barreira da compreensão, ir além do além. Descobrir as histórias que se escondem entre as linhas das histórias banais. Desconfiar que no olhar manso do gado se esconde um mal antigo e inteligente à espera do momento certo. Descodificar a mensagem insistente, repetitiva e enlouquecedora dos grilos quando cai a noite. Hesitar diante da cerca derrubada e aparentemente esquecida.

Tentar sempre, e antes de tudo, partir… se possível.”

Lançamento: sábado 13/10, às 18h00.