“A Casa de Vidro”, Anna Fagundes Martino

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MARTINO, Anna Fagundes – A Casa de Vidro, Blumeau, Dame Blanche, 2016

Sinopse: Flores não crescem do nada – ou crescem? Para Eleanor, era o mistério que não conseguia responder: qual era o truque daquele jardineiro contratado para cuidar da estufa em sua casa e que transformara o lugar em uma floresta imaginária. Sebastian, o tal estranho, parece um homem como qualquer outro – exceto pelas perguntas desconcertantes que faz, ou pelo fato de que as plantas obedecem seus comandos de maneira muito intrigante…

Opinião: A Casa de Vidro é uma noveleta de romance e fantasia, desenvolvida numa narrativa que evoca delicadeza e beleza etérea, condizentes com a proposta de enredo. Focada no romance entre Eleanor e Sebastian, a linha temporal não é contínua, com avanços e recuos, transmitindo a ideia de um puzzle. Esta opção narrativa não confunde, não havendo dificuldade em acompanhar os acontecimentos, contudo, leva a que alguns eventos e sentimentos entre as personagens falhem em termos de desenvolvimento: são mostrados os indícios de que acontecerão, para logo a seguir já terem acontecido. Não vemos como decorreram, ficando subentendido e, nesse aspecto, a leitura fica a perder, pois seria algo que a enriqueceria.

De igual modo, também as personagens parecem etéreas: não são simplificadas e tampouco unidimensionais, mas sente-se-lhes uma falha na demonstração que é feito ao leitor de todo o seu desenvolvimento. Assim como os acontecimentos, grande parte da sua caracterização paira no ar.

O final, incomum a este género de tramas, permite a leitura independente da história deste volume, deixando, ao mesmo tempo, elementos para uma possível sequela.

 

O romance encontra-se disponibilizado gratuitamente pela editora na Amazon BR.

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“Amora”, Natália Borges Polesso

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POLESSO, Natália Borges – Amora, Porto Alegre, Não Editora, 2015

Sinopse: Seria pouco dizer que os contos de Amora versam sobre relações homossexuais entre mulheres. Também estão aqui o maravilhamento, o estupor e o medo das descobertas. O encontro consigo mesmo, sobretudo quando ele ocorre fora dos padrões, pode trazer desafios ou tornar impossível seguir sem transformação. É necessário avançar, explorar o desconhecido, desestabilizar as estruturas para chegar, enfim, ao sossego de quem vive com honestidade.

 

Opinião: Colectânea de contos – sendo os últimos bastante curtos – que em comum têm apenas o facto de uma ou mais personagens serem lésbicas: o foco que é dado à orientação sexual, todavia, varia. As histórias são mundanas e introspectivas, sendo o exterior quase uma interferência. A maioria segue a narração em primeira pessoa, sem que nem sempre a narradora coincida com a protagonista. Por si só, nada há a apontar a esta pessoa narrativa. Lendo os contos na sua colectividade, contudo, a ‘voz’ em todas elas é demasiado similar, atendendo a que pertenceria a personagens diversas. Apenas num ou outro se nota alguma diferença, resultante de um ‘molde’ diverso, de como é exemplo o conto ‘Não Desmaia, Eduarda’, onde, sem qualquer indicação gráfica, é perceptível ao leitor identificar o discurso directo e indirecto, ou a quem pertence a fala.

Uma colectânea que se ganhará mais a ser lida aos poucos, intercalando os contos com outras leituras, em vez de serem lidos de seguida. Deste modo, a sensação de similitude esbater-se-á, podendo-se tirar proveito tanto dos contos mediados quanto dos que se encontram muito bons.

“Atrás da Porta e Outras Histórias”, Teolinda Gersão

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GERSÃO, Teolinda – Atrás da Porta e Outras Histórias, Porto, Porto Editora, 2019

Sinopse: Atrás da porta há segredos. De beleza ou de horror, porque o mundo e a vida não são o que parecem. Por vezes a literatura consegue espreitar por uma frincha da porta, ou mesmo forçá-la a abrir-se. Essa tentativa, sempre renovada, é o objectivo da escrita.

Opinião: Catorze contos constituem esta colectânea de temas, formatos e narradores díspares. Uns melancólicos, outros esperançosos, outros que apenas são. Cada um, na sua singularidade, aborda uma faceta, uma consideração, uma pessoa. Todos eles narrativas de personagem, tomando esta a supremacia face ao enredo, e sendo o formato narrativo – diferente em cada conto – desenvolvido em sua função.

Uma leitura rápida, mas não superficial.

“A Alma dos Ricos”, Agustina Bessa-Luís

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BESSA-LUÍS, Agustina – A Alma dos Ricos, Lisboa, Guimarães Editores, 2002

 

Sinopse: “Eu sou quem sou”, é a admirável expressão duma transcendência eterna à sombra da qual a mulher se abriga. São muitos os nomes da mulher, mas ela reserva para si um símbolo mais íntimo que ninguém conhece.

A personagem do romance A Alma dos Ricos está em constante estado de meditação que, na mulher, se chama curiosidade. É ao mesmo tempo submissa e rebelde, pagã e sentidamente em busca duma mitologia.

Os lugares estão ao alcance da vista, as pessoas são triviais. Mas a questão duma civilização, que considera a pessoa como parte duma fauna entregue ao homem para ser comandada por ele, está presente no livro. Alfreda é o nome da mulher, quer dizer princípio de todas as coisas, ou é esse o sentido desejado para o nome. Mas será esse o nome que ela conhece, ou só o que lhe foi dado?

Opinião: Apesar de ser o segundo de uma trilogia, é passível de ser lido de modo independente. A sinopse já deixa antever a introspecção do romance: a meditação não é apenas característica de Alfreda, mas também da narrativa em si, levando o próprio leitor a fazê-la, ainda que nem sempre de modo consciente. Devido a este carácter introspectivo, bem como à representação de um mesmo evento ou detalhe pela visão de mais do que uma personagem, há bastante repetição de ideias e informações.

O tempo não é contínuo, mas quase abstracto. Nota-se um avançar (ora lento, ora saltando períodos), todavia, não é directo, havendo uma junção entre passado e presente. As repetições já mencionadas ajudam a que tal não se torne confuso a leitor, sendo-lhe possível situar-se no contexto temporal.

A narrativa – a construção frásica, as escolhas vocabulares – acompanha este carácter meditativo, sendo desenvolvida com mestria. São de notar, todavia, algumas falhas de pontuação a nível das vírgulas, de que é exemplo o seu uso entre o sujeito e o predicado.

Apesar de a passagem entre o prólogo e o primeiro capítulo poder, pela sua aparente disparidade, induzir alguma confusão, esta é logo mitigada com o avançar da leitura. Alfreda, protagonista, é o foco do romance. Todas as restantes personagens estão-lhe relacionadas, e o enredo explora, inclusive, não apenas a imagem que cada uma tem sobre ela, como também o questionamento identitário da própria Alfreda, reflectido nas suas considerações sobre a Virgem Maria, à qual aventa riqueza e cultura, uma possível outra faceta que as tornaria, de certo modo, reflexo.

“Novas Cartas Portuguesas”, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa

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BARRENO, Maria Isabel, HORTA, Maria Teresa, COSTA, Maria Velho da – Novas Cartas Portuguesas, Alfragide, Dom Quixote, 2010

Sinopse: «Reescrevendo, pois, as conhecidas cartas seiscentistas da freira portuguesa, Novas Cartas Portuguesas afirma-se como um libelo contra a ideologia vigente no período pré-25 de Abril (denunciando a guerra colonial, o sistema judicial, a emigração, a violência, a situação das mulheres), revestindo-se de uma invulgar originalidade e actualidade, do ponto de vista literário e social. Comprova-o o facto de poder ser hoje lido à luz das mais recentes teorias feministas (ou emergentes dos Estudos Feministas, como a teoria queer), uma vez que resiste à catalogação ao desmantelar as fronteiras entre os géneros narrativo, poético e epistolar, empurrando os limites até pontos de fusão.»

Ana Luísa Amaral in «Breve Introdução»

Opinião: O conjunto de cartas, poemas, contos e monólogos são um coro de uma miríade de realides, não ‘apenas’ das autoras, mas também de todas as que fazem representar, notável não apenas pelas histórias e perspectivas, como também pelo reflexo que se encontra no vocabulário e ortografia. Trabalhando também a guerra e o colonialismo, a mulher é a temática principal, levantando-se questionamentos, avaliando-se papéis, lançando ao leitor o perturbante desafio da desconstrução do que o rodeia: ‘Pai’ é simultaneamente um murro no estômago e um dos melhores contos que já tive oportunidade de ler. O porquê não irei desenvolver por se tratar também do tipo de leitura em que o mínimo conhecimento prévio poderá enfraquecer o seu efeito. Retomando à obra no seu geral e ainda sobre a temática, assim como dito na sinopse, apesar de ter sido escrita durante os anos 70 mantém a sua actualidade, sendo muito dos seus questionamentos ainda actuais, quer se mantenham idênticos, quer se tenham reformulado sob outras máscaras.

As regras gramaticais e de pontuação são frequentemente ignoradas, com um propósito comunicativo que é bem sucedido. Graças a este manejar linguístico não apenas há uma caracterização da voz em causa, como também se dá uma aproximação à oralidade, de certo modo levando a uma aproximação à leitora. O uso de nomes como Ana, Maria, Joana e Mariana, tão comuns em Portugal, parecem reflectir uma unidade na pluralidade, ao mesmo tempo que dão um carácter anónimo à nomeação: são elas e simultaneamente somos nós.

Há muito que queria ler esta obra – tendo lido apenas excertos até ao momento. Sobre escrever uma opinião, contudo, hesitei: trata-se de uma das obras mais importantes da literatura portuguesa, e bastante estudada. Todavia, o receio de que se mantenha apenas em determinado ciclos literários ou académicos levou-me a fazê-lo: uma opinião curta e concisa, de fácil leitura.

“Fazes-me Falta”, Inês Pedrosa

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PEDROSA, Inês – Fazes-me Falta, Alfragide, Dom Quixote, 2007

Sinopse: O leitor que abre este romance de Inês Pedrosa depara com um dispositivo narrativo de extrema simplicidade: duas vozes apenas, que, ao longo de cinquenta blocos textuais, a que, pela sua episódica brevidade, não chegaremos a chamar capítulos, se cruzam numa espécie de diálogo espectral. Uma dessas vozes é feminina, e é a ela que cabe a iniciativa de convocar os temas. A outra voz, que viremos a saber que é mais velha, pertence a um homem. Poderíamos pensar, segundo as convenções de leitura para que estamos preparados, que entre estas duas personagens existe sobretudo uma relação passional. Mas aquilo que as une é de uma outra ordem – e de certo modo o livro não faz mais do que ir à procura do nome exacto para essa ordem, o nome apropriado para esse tecido de palavras que une, enreda, compromete, envolve estas duas vozes.

Opinião: Narrado em primeira pessoa, o romance vai alternando entre a voz dela e a voz dele, após a morte dela, elucidando sobre a sua relação, mas principalmente desenvolvendo-os enquanto personagens. O desenrolar do luto é, aqui, um crescimento do conhecimento do leitor sobre as duas personagens – tão diversas – sobre as quais lê. A maioria dos quase monólogos abrange o mesmo acontecimento ou tema, usualmente levantado por ela, que vão desde discussões íntimas a opiniões sobre amigos em comum, demonstrando a visão de ambos e deixando a nu a diversidade de percepções.

É um romance – não confundir com “romântico” – essencialmente de personagem, onde o descascar das suas complexidades e vidas se sobrepõe a algum tipo de enredo.

“As Pupilas do Senhor Reitor”, Júlio Diniz

as pupilas do senhor reitor

DINIZ, Júlio – As Pupilas do Senhor Reitor, Lisboa, Círculo de Leitores, 1992

Sinopse: As Pupilas contam-nos a história de duas irmãs, filhas de casamentos diferentes do mesmo pai, que, estimando-se profundamente, são dotadas de maneiras de ser inteiramente opostas. Clara e Margarida, ambas generosas e de bom espírito, encaram a vida por forma diferente: a primeira, expansiva e alegre, por vezes estouvada, feliz de si própria e dos outros; a segunda, fechada numa reserva natural, dominando as reminiscências dum idílio infantil com Daniel na discrição e na saudade das horas idas – sentimento bem português de que neste livro se faz, por vezes, uma síntese expressiva.

Opinião: Inicialmente publicado em periódicos, tal nota-se não apenas no tamanho dos capítulos (médio-curtos), mas também na sua estrutura narrativa, desenvolvida de modo a relembrar os eventos anteriores, e terminando cada um como um “episódio”, sem que deixe de haver uma espinha dorsal no enredo. A narrativa destaca-se por uma mescla bem conseguida entre o “dramático” esperado do Romantismo – de que Margarida é um dos frutos mais evidentes –, e um humor satírico-crítico, mais frequentemente encontrado no Realismo.

As personagens são mais um conjunto de características de personagens-tipo de época: o trabalhador árduo e honesto; a jovem alegre e estouvada, mas de bom coração; a jovem melancólica e angelical; o jovem estudado que tremelica nos maus-caminhos para ser “resgatado” pela bondade e amor femininos, etc. Todavia, não são falhas de desenvolvimento, conseguindo cumprir o seu propósito narrativo: fica-me apenas a ressalva que, apesar do título e da sinopse, o protagonista será Daniel, a ponta masculina do triângulo, e não Margarida ou Clara.

A contextualização do romance na ruralidade da época do autor encontra-se bem conseguida, sendo fácil ao imaginário do leitor, visto que Dinis recorre tanto à caracterização directa quanto indirecta, e maneja para inserir explicações na trama – provavelmente tendo os leitores urbanos em vista – sobre tarefas e eventos que não só elucidam como não se tornam maçudas, ou desajustadas. Este é, junto com o estilo narrativo, uma das principais razões pelas quais valerá a pena a leitura.