“Mar Liberal”, Jaime de Oliveira

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MARTINS, Jaime de Oliveira – Mar Liberal, Barcarena, Marcador, 2017

Sinopse: Logo após as Invasões Francesas, Portugal entra numa profunda crise. Assassinatos, conjuras, revoluções e contra-revoluções são parte da vida de muitos portugueses. Num cenário de guerra civil, Teodoro e Rufino, dois jovens e grandes amigos de infância, partem de Leiria à conquista dos seus sonhos, com o fim de conhecer o mundo a bordo de navios da marinha mercante.

Mas esbarram nas dissonâncias de um conflito que os vai colocar em lados opostos da barricada. Com um enredo cativante, Mar Liberal é um retrato da nossa História, cheio de reviravoltas, humor, acção e desenlaces surpreendentes.

Opinião: Ambientado durante a Guerra Civil – inicia-se com a prisão de Gomes Freire de Andrade e termina com o fim da guerra –, o enredo descreve o que acontece a um punhado chave de personagens fictícias, das quais se destacam o doutor Tiago, Teodoro e Rufino. Apesar de acompanhar estas personagens e de lhes atribuir ainda eventos/mistérios passados, não consegue transmitir um propósito evidente, parecendo o enredo algo errático. Há pouco desenvolvimento dos acontecimentos que são apresentados, bem como do psicólogo das personagens, apostando-se demasiado num tell que ignora o show, e caindo-se por vezes num infodump, disfarçado em diálogos.

As personagens encontram-se ainda pouco desenvolvidas e de facetas parcas, sendo que às personagens “negativas” nada é dado de redentor, enquanto as “positivas” são demonstradas de forma inversa, possuindo apenas falhas falsas: aquelas que a bem ver se revelam como qualidades.

No que respeita à escrita, é cuidada e bem utilizada, com um detalhe ou outro a tornar um punhado de diálogos mais artificial, mas no geral agradável à leitura, e o ponto mais positivo da obra.

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“Lua de Prata”, Alex Rodrigues

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RODRIGUES, Alex – Lua de Prata, [Lisboa], Escrytos, 2015

Sinopse: Eva Wolf não imagina o que ira descobrir no submundo de Nova Iorque. Dylan James não imagina o que ira encontrar fora do seu mundo. Dois destinos que se cruzam numa historia onde a união entre o real e o sobrenatural poderá ser a resposta as vidas solitárias de ambos. Mas poderá uma história de amor sobreviver a uma guerra que não lhes pertence?

Opinião: Um romance paranormal entre uma humana que acredita em lobisomens, e um lobisomen que é o último da sua estirpe, apanhado num master plan que pretende despoletar uma guerra entre vampiros e lobisomens. Tudo decorre, contudo, demasiado rápido e com um desenvolvimento muito pobre. Os acontecimentos seguem a uma celeridade que não permite que sejam absorvidos e aprofundados, dados a conhecer através de descrições básicas, que se mantêm na superficialidade estritamente essencial. As personagens são ocas, de descrição essencialmente física e personalidade rasa, com relações de igual modo ocas e pouco credíveis, na medida em que nascem sem razão para isso: os protagonistas, por exemplo, apaixonam-se no primeiro momento, sem ter havido qualquer oportunidade para realmente se conhecerem. É uma paixão puramente plot driven, à base do “porque sim”.

A narração assemelha-se mais a um texto académico que a ficção, não despoletando qualquer envolvimento no leitor, mas não querendo dizer que se encontra também sem falhas ao nível linguístico: destacam-se as falhas de pontuação, em particular nos diálogos, na inexistência das vírgulas de vocativo, e no seu uso depois de “mas”, em vez de antes, como seria o correcto, por exemplo; a mistura do tempo verbal narrativo, alternando entre o Presente do Indicativo e o Pretérito Imperfeito, sem que haja razão gramatical para o fazer; e a cacofonia narrativa, gerada por repetições aproximadas, em especial de advérbios terminados em “-mente”.

Diria tratar-se mais de um primeiro rascunho a partir do qual se desenvolveriam os próximos processos de reescrita do que de um produto final, pronto para o mercado.

“Tereza Batista Cansada de Guerra”, Jorge Amado

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AMADO, Jorge – Tereza Batista Cansada de Guerra, Mem Martins, Europa-América, 1990

Sinopse: Publicado em 1972, “Tereza Batista Cansada de Guerra” é a história da luta de uma mulher num ambiente quase sempre áspero e hostil, poderosamente hostil. Mundo de sofrimento, miséria e violência que Tereza começa a conhecer muito cedo – primeiro, com a orfandade; segundo, quando é vendida pela tia, ainda menina, a um certo capitão Justo. Sob o açoite do seu dono, ela vai experimentar, à flor da pele e ao fundo de si mesma, o sentido da palavra «servidão».

No entanto, apesar de viver desde a infância a privação da liberdade e a crueldade de não ter controlo sobre a própria vida, para Tereza Batista só a alegria é importante. Fortalecida pela consciência do seu valor como mulher, irá usar todo o seu poder de sedução como forma de marcar a sua presença na sociedade, de afirmar a sua força, de dar resposta ao mundo que a oprime.

A luta de Tereza Batista é a metáfora da luta de milhões de mulheres em todo o mundo, e brota com grande riqueza da narrativa de Jorge Amado, que de novo nos presenteia com uma personagem fascinante: uma mulher cuja personalidade indomável e muitas vezes imprevisível choca com as convenções e se rebela contra o destino que lhe tentam impor.

 

Opinião: Tereza Batista Cansada de Guerra recordou-me A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós, apesar das diferenças de estilo, premissa, época e autor: ambas têm o seu núcleo numa personagem que se revela como a encarnação do seu país. Tereza é, portanto, a complexidade do Brasil, e as suas vivências a vivência do seu país – e o que não é um país se não o seu povo? Inevitavelmente tudo no romance gira em volta da personagem: dá-la a conhecer. Não é por menos que começamos por saber das alcunhas atribuídas a Tereza, cada uma delas gerada de um período da sua vida, todas tão diferes que parecem pertencer a personalidades diferentes. O seu desenvolvimento, contudo – realizado numa estrutura que se assemelha a noveletas dentro do romance –, leva a que o leitor passe do rumor ao facto, do incerto ao conhecimento, e, por conseguinte, conheça e compreenda a personagem, encarando o que inicialmente pareciam personalidades distintas como facetas que se harmonizam numa só personalidade.

É repetir o que foi dito, mas Tereza é, de facto, uma personagem que se destaca na literatura pela sua criação e desenvolvimento, ao ponto de ofuscar as personagens secundárias, não por estas se encontrarem rasas (têm entre si diferentes graus de desenvolvimento, alterando também em personagens individuais e personagens colectivas), mas por se assemelharem a planetas orbitando o sol.

A narração – na sua maioria em terceira pessoa, interrompida apenas aqui e ali pela primeira, e curiosamente sempre com personagens que nem secundárias são – segue a cadência e o ritmo reconhecíveis do autor, aliadas à crueza factual com que expõe o melhor e o pior lado a lado.

No final, Cansada de Guerra, chegamos a um círculo, iniciado pelo título – um dos poucos que, felizmente, permite novo começo.

“Mulheres Fora da Lei”, Anabela Natário

 

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NATÁRIO, Anabela – Mulheres Fora da Lei, São Pedro do Estoril, Desassossego, 2017

Sinopse: Conheça as maiores criminosas dos últimos três séculos em Portugal.

Cuidado com elas! São 23 mulheres, desde assassinas a vigaristas e gatunas. Uma desfez-se do marido, servindo-lhe um prato de arroz temperado com arsénio ao jantar. Outra, seguindo um plano mais elaborado, temperou um clister com a mesma intenção. Uma terceira ia buscar crianças para adotar e desfazia-se delas, asfixiando-as com uma tira de pano. Menos violentas, mas não menos criminosas, são as larápias de mão leve, algumas verdadeiras figuras públicas, cujas aventuras nos dão a conhecer o Portugal de outros tempos. Mulheres Fora da Lei convida-nos a viajar pela vida das maiores criminosas dos últimos três séculos. E só o facto de já estarem todas enterradas no passado nos deixa alguma tranquilidade.

 

Opinião: Trata-se de um conjunto de vinte e duas histórias sobre vinte e três mulheres (uma das histórias aborda um duo) que de comum têm o serem portuguesas e o serem criminosas – com crimes a variar do furto ao homicídio. Algumas causam pena (com outro contexto sócio-económico, quiçá o desfecho não fosse díspar), outras nem tanto. Cada uma destas histórias pode ser lida de modo independente, não tendo mais que oito ou dez páginas, o que leva a que se torne uma leitura passível de ser feita com vagar e espaçadamente.

Além da história do crime propriamente dito também são acrescentados à narrativa outros detalhes: a maioria contribui para o contexto sócio-cultural do tempo de vida da fora-da-lei em apreço, o que não apenas situa e ambientaliza o leitor, como também leva a alguma compreensão – se não pelo crime, pelas razões externas à criminosa que levaram ao dito. Alguns, contudo, ainda que curiosidades, são rapidamente esquecidos e pouco se vê da utilidade à narrativa em causa, acrescentando apenas “palha”.

Funciona, enfim, como uma introdução bem conseguida a um lado da História portuguesa que passa usualmente despercebido aos canais de conhecimento e aprendizagem habituais.

“Os Loucos da Rua Mazur”, João Pinto Coelho

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COELHO, João Pinto – Os Loucos da Rua Mazur, Alfragide, Leya, 2017

Sinopse: Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.

Paris, 2001. Yankel – um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama – recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se veem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram – e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk – hoje um escritor famoso – está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há de redimir. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira.

Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne – a editora que não diz tudo o que sabe –, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era.

Na senda do extraordinário Perguntem a Sarah Gross, aplaudido pelo público e pela crítica, o novo romance de João Pinto Coelho regressa à Polónia da Segunda Guerra Mundial para nos dar a conhecer uma galeria de personagens inesquecíveis, mostrando-nos também como a escrita de um romance pode tornar-se um ajuste de contas com o passado.

Opinião: Este livro é uma manta de retalhos. Inicialmente segue uma estrutura mais ou menos linear, em que o presente demonstra assuntos por resolver, mas que é, no seu essencial, uma razão para retornar ao passado, onde aí sim o enredo central se desenrola. O desenvolver da narrativa reformula, contudo, estes conceitos, e, sem nunca deixar de ir dando a conhecer o passado – com um ou outro detalhe que fica em questão ter sido real ou invenção de Eryk –, as linhas começam a cruzar-se e a intercalar-se, acabando por, na sua mescla, formar o bordado final. Através desta (des)construção narrativa, o autor constrói um livro dentro de um livro, dando ao leitor os segmentos que constituem a narração.

O segundo factor que se destaca são as personagens. O trio principal – Yankel, Eryk e a rapariga –, caracterizado tanto directa quanto indirectamente, começa por despertar a curiosidade não apenas pelas suas peculiaridades, mas pela comparação passado/presente com que ao início nos deparamos (não apenas pela sua personalidade, mas essencialmente no respeitante à relação que têm entre si). O seu crescimento é visível com o avançar narrativo, bem como a sua construção, que se revela contínua. As demais personagens, contudo, interpretei-as enquanto personagens-tipo, representantes de algo ou alguém (uma classe, uma ideologia, um comportamento, uma função, etc), não sendo a sua representação inteiramente fiável, na medida em que é deixado claro que Yankel não é imparcial no modo como as escreve.

Vale ressalvar, por fim, a temática. Sabendo do contexto histórico, imaginamos não ser bom o que espera esta cidade polaca. Mas nem esse conhecimento, nem a sinopse e a publicidade, preparam para o final com que nos deparamos: sendo pior o saber-se ser baseado em acontecimentos verídicos. Numa actualidade que já esteve mais afastada de repetir erros passados, é um relembrar assombroso das consequências a que patamar a patamar se corre o risco de ir chegando.

“O Culto: A Origem da Cabra Preta”, D. A. Potens

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POTENS, D. A. – O Culto: A Origem da Cabra Preta, [s.l.], Produções Black Goat, 2017

 

Sinopse: Meu nome não será dito. Você não verá meu rosto. Só peço que escute e não respire. Não tire seus olhos de mim e não disperse seus pensamentos, pois minha atenção é sua, somente sua, para que conheça aquilo que me persegue; de onde ela veio e quem a criou. Por quê? Porque ela pode estar na sua casa e, se estiver, tenha certeza de que precisará de ajuda.

Meus sonhos me trouxeram até aqui para enxergar o que a magia, a igreja e seitas ocultistas podem fazer em tempos de caos e escuridão. No Acre, em 1921, o mal que eu conheci teve início a partir do nascimento de cinco crianças com cabeças de cabras pretas que foram perseguidas pelo Vaticano. O que aconteceu após isso somente os fortes de coração podem ouvir. Você é um deles? Uma delas?

O grito de louvor será dado. Conheça a história da besta consagrada. A Cabra Preta lhe espera soltar gritos de pavor. Já eu… Bom… Eu espero que você tenha coragem de conhecê-la. 

 

Opinião: Este curto livro de terror centra a sua trama naquilo que tanto o título quanto a sinopse indicam: a figura da Cabra Preta, desde a sua criação, aos usos que lhe são dados, aos seus poderes e capacidades, e às intenções “maiores” que a rodeiam. Esse enredo, contudo, é errático, com episódios que se desviam demasiado da espinha dorsal do romance e, por consequência, dão a ideia de ali se encontrarem apenas para dar mais algum enchimento – o que chamamos de “dar palha” –, e com um encadeamento errático, marcado por constantes alterações temporais desnecessárias que prejudicam a narrativa ao torná-la gratuitamente confusa.

Por sua vez, as personagens encontram-se rasas e subdesenvolvidas: a sua idealização e apresentação ao leitor baseia-se apenas numa dicotomia bem/mal, não lhes sendo atribuído mais do que um determinado desejo ou objectivo, ou mesmo uma personalidade que vá além de um nome e de um sentimento do momento. Numa ficção que pretende fazer uso tanto de elementos místicos quanto do psicológico, o desenvolvimento das personagens – permitindo até mesmo um acompanhamento de um estado de espírito para outro, preferencialmente de degradação – torna-se algo basilar a considerar.

Também a própria narrativa possuiu bastantes pontos a melhorar. Superficial, desenvolvendo pouco o ambiente e as descrições, apoia-se demasiado no abuso de parágrafos – utilizando-os quando não necessário com o objectivo de criar ênfase, mas acabando por inutilizar esse próprio objectivo por conta do abuso ao recurso – e à tentativa de criação de “nojo” com que procura implementar o horror: a arbitrariedade e, mais uma vez, o abuso do recurso acabam por levar a um lugar-comum ao invés de criar o efeito desejado.

Em suma, uma ficção que necessita ainda de ter o seu desenvolvimento mais planeado, estruturado, e, por fim, concretizado.

“A Pirata”, Luísa Costa Gomes

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GOMES, Luísa Costa – A Pirata, Lisboa, Dom Quixote, 2006

Sinopse: A história aventurosa de Mary Read, pirata das Caraíbas. A Pirata é uma biografia ficcionada da célebre Mary Read, uma das poucas mulheres-pirata e que há memória. Conhece-se a história de Mary Read pela breve descrição que dela faz o capitão Charles Johnson na História Geral dos Piratas. Sabe-se que nasceu em Inglaterra, que foi soldado na Flandres e que foi capturada na Jamaica com a tripulação do famoso capitão Calico Jack Rackam e a sua amante, a terrível Anne Bonny. Condenadas à morte na forca, Mary Read e Anne Bonny viram a sentença adiada por estarem grávidas. Mary Read veio a morrer na prisão, em Abril de 1721.

 

Opinião: Considerar a obra como uma biografia, ainda que ficcionada, é puxar a brasa à sardinha. Em capítulos curtíssimos, cada qual começando com uma “sinopse” indicando os acontecimentos do capítulo em questão, é adoptado um tom informal, mais próximo ao de um conto tradicionalmente oral, com intervenções directas do narrador, ainda que o dito não seja uma personagem. Há um desequilíbrio enorme entre o show e o tell, a pesar para este último, que torna a história morosa. Os eventos não são aprofundados, nem as personagens desenvolvidas, levanto a uma falta de empatia.

Em suma, um livro que ficou aquém das expectativas, desiludindo pelo modo como escolheu apresentar a proposta escolhida.