“Quatro Novelas”, Ana de Castro Osório

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OSÓRIO, Ana de Castro – Quatro Novelas, [s.l.], Projecto Adamastor, 2015

Sinopse: Chamo-me Raquel. Creio que este nome é hereditário na minha família, porque a minha avó e a mãe da minha avó eram também Raquel. Não sei. De genealogias, como de tudo mais, entendo pouco.

O mais longe que posso recordar na minha existência humana, vejo-me feliz. Era uma grande casa de aldeia, a nossa. Havia ali de tudo quanto pode desejar uma criança acostumada à simplicidade da vida campestre. Os pátios eram habitados por uma multidão de animais domésticos, que nos conheciam bem, de tanto milho que às escondidas lhes deitávamos.

Eu era a mais velha, e os meus quatro irmãozitos seguiam-me alegremente pelos campos fora, como um rebanho segue o pastor. Nada nos era defeso, nem parede que não tivéssemos escalado, nem árvore que não conhecêssemos como os nossos dedos. Os frutos eram vigiados desde que as árvores se cobriam de prometedoras flores, e antes, muito antes da família os ver em casa, já nós tínhamos feito a nossa primeira escolha. Quando a nossa pobre burrica descansava do fatigante trabalho da nora, íamos desamarrá-la da manjedoura, saltávamos-lhe para cima, e fazíamo-la trotar pelos caminhos pedregosos da aldeia como um pur-sang trotaria nas avenidas areadas dum luxuoso parque.

Felizes tempos!…

 

Opinião: Quatro noveletas/contos de escrita apelativa, onde a autora transmite o seus valores, faz uso de elementos da cultura portuguesa, e utiliza o campo tanto como contexto quanto valorização. O uso de travessões em “diálogos” que, na verdade, não o são poderá inserir-se no contexto da época, mas não faz sentido actualmente, podendo ter sido suprimidos na adaptação feita da obra.

Seguem as opiniões às noveletas:

“A Vinha” – Após uma década de afastamento para estudar, Luís é informado da mudança da família para Lisboa: a alegria de os ter perto de si altera-se ao saber tal se deve ao empobrecimento dos pais e consequente necessidade de vender as terras, bem como a moradia da sua infância. Ignorando o conselho da irmã de olhar o futuro, decide regressar à aldeia numa visita nostálgica. Aqui se encontra o cerne do conto: a comparação do que era, na sua memória, com o é que encontra; um contraste entre o idílico e a inocência da infância que recorda com o desejo pelo lucro e com as manifestações de novos-ricos que encontra, primeiro na casa – como introdução – e logo depois no quintal e na quinta, onde a vinha, símbolo da procura desenfreada do lucro e do produto que gera, tudo tomou.

“A Feiticeira” – A premissa inicia-se com um triângulo amoroso simples. O moçoilo mais cobiçado da aldeia encontra-se dividido entre duas meninas: Teresinha, letrada, de constituição frágil e delicada, de temperamento passivo, e educada pela madrinha fidalga; e Maria, morena e alegre, forte e activa, musculada pelo trabalho braçal. A escolha parece seguir determinado caminho, até ser desviada no sentido inverso por uma noite em que se mistura o demo e feiticeiras com uma grande variedade de criaturas do popular português. A veracidade dos acontecimentos é incerta para o leitor, mas deixa o jovem convicto da sua realidade. O final e o uso do singular no título levam, contudo, a considerar enganos e a crer que o visto nem sempre o é.

“Diário duma Criança” – Trata-se praticamente de uma ode ao campo e sua (suposta) simplicidade, e à preferência de se educar uma criança em casa dos pais. Em primeira pessoa, Raquel narra a sua infância feliz, seguida dos desprazeres ao ser levada por uma tia estrangeira que tudo criticava em Portugal, país onde apesar das críticas vivia, e “que impunha a todos sua vontade”. “Salva-a” das suas infelicidades a amizade com a menina da casa ao lado, sendo na interacção entre ambas que se desenrola o restante da narrativa. Não o sendo totalmente, apresenta influências do Romantismo Português do século XIX.

“Sacrificada” – Arrojado para a época, é um apontar à situação dos filhos bastardos e das mães solteiras, aqui apresentados como vítimas e não como pecadores. Contextualiza-se, ainda, num convento moribundo, onde se aguarda apenas a morte das últimas irmãs ordenadas para reutilizar o edifício a outras funções. O convento do convento é o fim de um ciclo, representado também na vida de Manuela, em cujo tempo de vida se dá uma transição de valores. É, dos trabalhos desta colectânea, aquele onde mais evidente se encontra o carácter feminista da autora.

Este ebook encontra-se disponível gratuitamente aqui.

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“Escrito nas Estrelas”, Bárbara Norton de Matos

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MATOS, Bárbara Norton de – Escrito nas Estrelas, [s.l.], Caderno, 2010

Sinopse: No mundo fervilhante dos estúdios televisivos, dos flashes e paparazzi, há uma estrela que só quer ser amada. Entre a quinta em Ponte de Lima e a casa em Cascais, entre o passado e o presente, uma mulher vai descobrir que só o amor é mais forte que o destino. Escrito nas Estrelas é a surpreendente estreia de Bárbara Norton de Matos no romance, uma história de família, traições e equívocos, onde nada é o que parece e só o amor é real.

Carminho não foi uma menina feliz. Era o patinho feio da família, sempre comparada com Piedade, a irmã mais velha, tão deslumbrante como odiosa. E não foi fácil crescer com um pai sempre ausente, que só pensava no ténis e nos torneios, enquanto a mãe se deixava arrastar pela melancolia… Mas tudo isso é passado. O patinho feio tornou-se num cisne, é agora uma estrela da televisão, capa de revista, perseguida por flashes e paparazzi. E vai finalmente estrear-se, como protagonista, numa série histórica – o seu grande sonho. É um mundo quase perfeito.

Quase. Porque a vida está repleta de surpresas e, quando menos esperamos, o amor prega-nos partidas…

Opinião: Um enredo simples e previsível, além de já muitas vezes explorado. A narrativa é feita pela protagonista, em primeira pessoa, demonstrando um vocabulário e reacções mais esperados de uma adolescente que de uma adulta, sendo essas mesmas atitudes inadequadas a maior fonte dos conflitos do romance. Apresenta ainda falhas de pontuação, como por exemplo nos diálogos, ou a falha das vírgulas de vocativo, e alonga-se em demasia nas descrições de roupa e de comida, as quais são tão desnecessárias quanto aborrecidas.

O momento presente é frequentemente interrompido para falar do passado, e encontramos grandes saltos temporais entre vários episódios. Apesar de não confundir o leitor, sendo fácil compreender o momento da história em que a narrativa se encontra, quebra muitas vezes o clímax – chegando mesmo a evitá-lo –, enquanto gera algumas discrepâncias lógicas na linha temporal.

Também as personagens não se encontram bem desenvolvidas, sendo unidimensionais e superficiais. Há um grande apoio numa filosofia rasa e cliché. O final é deixado em aberto, e o título justifica-se por uma constante menção a estrelas que, mais uma vez, evoca uma idade mental mais da adolescência.

Em suma, uma leitura que não agradou.

“Lobo de Rua”, Jana P. Bianchi

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BIANCHI, Jana P. – Lobo de Rua, Blumeau, Dame Blanche, 2016

 

Sinopse: Essa é uma novela sobre homens, lobos e luas.

Raul é um morador de rua, um homem invisível e desgraçado como tantos outros. Como se sua desgraça não fosse suficiente, Raul contrai a maldição da licantropia, tornando-se um lamentável lobo de rua. Tito Agnelli não compartilha do abandono de Raul, mas conhece muito bem a sensação de ser rasgado por dentro, todos os meses, pela coisa vil que se abriga nele. Assim, compadecido com o sofrimento do recém-transformado, Tito acolhe Raul na Alcateia de São Paulo, extinta até então por falta de lobisomens residentes na Pauliceia. Depois de décadas de contaminação, Tito conhece cada detalhe da maldição que o transforma em lobisomem. Além disso, conhece também a Galeria Creta, um lugar em São Paulo onde ele e outros dos seus são bem vindos nas noites de lua.

Basta pagar o preço.

 

Opinião: Apesar de não indicado na sinopse, a própria obra assume-se como um prólogo de algo maior, servindo de introdução ao universo criado, o que se nota pela estrutura do enredo, bem como por algumas indicações em relação a determinadas personagens. Trata-se de uma noveleta de fantasia urbana, onde se encontra uma crítica subtil, mas firme, à sociedade e ao modo como alguém (pessoa ou animal) “de rua” é tratado. Cada capítulo inicia-se com o trecho de um tratado fictício sobre licantropia, no qual vão sendo dadas informações “científicas” e “históricas” sobre a espécie ao leitor, transmitindo deste modo um conhecimento necessário, e que de outra maneira se poderia tornar maçudo.

O prólogo (ou capítulo 0) explora a mudança interior, fazendo uma separação muito interessante entre o menino e o lobo aquando a transformação: como se o espírito/alma/consciência de Raul se mantivesse presa no corpo, comandado pelo “outro”, mas tendo momentos em que se confundem entre si. A morte que logo ocorre não é gratuita nem apenas para chocar: indica a aleatoriedade da matança, a capacidade de compreender e recusar “comida podre”, e o mal que essas acções causam ao menino.

Já no capítulo 1, vemos uma maior exploração das alterações físicas e da dor que acarretam. É também apresentada a segunda personagem de maior interesse à trama, ainda que de forma vaga, sem se saber sequer o nome, pois apesar da narrativa em terceira pessoa, é seguida a perspectiva de Raul. Ao longo dos capítulos seguintes, é através das suas descobertas e conhecimentos que o leitor também descobre e conhece, salvo raras excepções.

É interessante a premissa da licantropia como sendo uma doença sexualmente transmissível, em que a mulher pode carregar o vírus sem sentir os seus efeitos, e transmiti-lo ao homem, o qual, uma vez contaminado, pode ou não tornar-se lobisomem, dependendo de uma predisposição genética. Há um grande foco na transformação, o qual foi bem conseguido, causando empatia ao mesmo tempo que cria imagens claras. A reviravolta final resulta, ainda, de um encadeamento lógico, não sendo aleatória.

Em relação à caracterização das personagens, é realizada tanto com descrição directa quanto indirecta. Encontram-se bem distintas entre si, havendo um maior foco nos protagonistas. Às restantes são atribuídas características suficientes para que se reconheçam, sem, contudo, serem aprofundadas. Aponto apenas a estranheza de se caracterizar alguém como “velha” aos quarenta anos, em particular quando é dito parecer ter trinta.

“Confidências”, Felipa Garnel

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GARNEL, Felipa – Confidências, Alfragide, Lua de Papel, 2019

Sinopse: Em busca de novas experiências, Felipa Garnel decidiu ser motorista da Uber por uns tempos. Ao volante, quase sempre de óculos escuros, começava os dias às seis da manhã. Viu um pouco de tudo. Como a senhora que a meio da viagem começa num pranto ao recordar a inimaginável violência de um sequestro. Ou o casal de franceses que levou para dentro do carro a discussão que já vinha de fora – com consequências dramáticas.  Felipa Garnel ouvia e registava todas as histórias. À noite, ao jantar, partilhava com o marido e com as filhas as peripécias do dia.  Sabia sempre onde começavam as viagens, mas nunca como acabavam: algumas terminavam ainda antes de chegar ao destino; outras deixaram-lhe marcas para sempre.  Na prosa enérgica da autora, conhecemos a enfermeira que perdeu a mãe, o casal gay que esconde das famílias o seu segredo, a mulher que afoga em álcool o seu desgosto de amor… O livro oferece-nos uma visão única, sem filtros, do que se passa realmente num Uber quando se fecham as portas – e começam as Confidências. São essas histórias de vida – todas reais – que a jornalista agora nos conta. Vamos pois entrar com ela no carro e acompanhá-la até ao fim da corrida – a rir, a chorar ou simplesmente incrédulos, porque dentro de um Uber, cabe o mundo.

 

Opinião: Os capítulos curtos e o tamanho de letra – grande – facilitam a leitura da narrativa em primeira pessoa, ainda que muito baseada em diálogos. Estes, infelizmente, não são credíveis, não tanto pelo conteúdo, mas sim pela formulação artificial. Naturalmente não seria possível para a autora apontar as conversas enquanto conduzia, sendo necessária a reconstrução mais tardia e de memória, o que leva a uma compreensível alteração superficial, bem como à necessidade de reajustar o oral ao escrito. Todavia, essa reconstrução não ficou bem conseguida: com frases gramaticalmente correctas, apesar de longas, e um encadeamento de falas demasiado ordenado e límpido, desapareceu a oralidade do diálogo. Ademais, foi-me impossível não desconfiar da veracidade de todas as histórias apresentadas, não tanto pelas histórias em si, mas pela facilidade e passividade com que os clientes se predispunham a particular detalhes íntimos e privados, de situações muitas vezes delicadas, com uma desconhecida.

O livro começa pela tentativa de apelar ao leitor através de uma história de cancro infantil, em que fica subentendida a morte da criança. Explica o processo de pensamento/decisão pelo qual Felipa Garnel decidiu desenvolver este projecto, bem como as acções que teve de tomar (a inscrição na plataforma, o contacto com a agência de alugar do automóvel, etc), e apenas então avança com as restantes histórias. A adicionar ao já dito em relação à narrativa, acrescenta-se ainda uma eventual purple prose, e uma repetição exagerada da afirmação de “não estar a fazer isto pelo dinheiro”, entendendo-se o “isto” como a condução de um Uber.

Quanto a gralhas, são raras (“Filipe Neto” em vez de “Felipe Neto”, por exemplo, em referência ao youtuber brasileiro), e de pouca consequência, estando a revisão bem conseguida no seu geral.

“O Último Cais”, Helena Marques

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MARQUES, Helena – O Último Cais, Alfragide, Dom Quixote, 2003

Sinopse: Marcos ama Raquel. Raquel ama Marcos. Casados há dezasseis anos, amam-se com a mesma paixão e ternura do princípio. Raquel é linda, serena, inteligente. Têm dois filhos adolescentes, André, parecido com o pai, e Benedita, fisicamente igual à mãe, mas sem a sua essência. Uma família de gente bela e feliz. Porque será então que Marcos continua a partir em missões de um ano, como médico da Armada? Fugirá do tédio de uma ilha, bela, sim, mas sempre a mesma, claustrofóbica, ou fugirá de algo mais importante, mais assustador, enterrado bem no fundo da sua mente?

Raquel espera. Como Penélope, espera com paciência, com amor, “É feliz, apesar de tudo”. Ensina a Benedita os preceitos, as regras, as tradições que tanto ama. Conta-lhe histórias da família, a tragédia da tia Constança, das primas Ana Adelaide e Maria dos Anjos. Mas Raquel sonha. Sonha em viajar, visitar ao lado de Marcos os lugares que ele conhece e, talvez, conhecer Malta, La Valleta, terra dos seus antepassados Villa, gostaria de saber se lá existem também mulheres como ela com “cabelos cor de vinho velho, pernas altas, olhos cinzentos e uma resoluta insubmissão”.

É um tempo sereno, mais tarde chamado época vitoriana, um Funchal do século XIX, onde passeamos pelas ruas, pelas quintas, entramos nas casinhas de prazeres, ouvimos as estórias contadas a meia voz pelas velhas criadas, juntas na cozinha, enquanto os patrões jantam no salão.

Conhecemos a história de Raquel, Benedita, Clara, com os olhos do pai e a alegria da mãe, Nicolau, Luciana, Catarina Isabel, Marta e Maria, Carlota, Marcos. Marcos que Raquel tanto ama, só ela podendo acender as pequenas manchas verdes nos seus olhos cor de mel. É uma história bela, de gente bela, numa época de tradições, regras, preconceitos, mas também de avanços nas ideias e na tecnologia.

Acompanhamos Marcos até ao fim, ouvindo Bach e Beethoven, “velho marinheiro na ponte de um navio ancorado, à espera de chegar ao seu último cais”, sabendo quem iria encontrar no Paraíso.

Opinião: A contextualização sócio-cultural é feita logo no primeiro capítulo, através de diálogo: decorre o século XIX, com os movimentos abolicionistas, a guerrilha com os Zulus, e, em Inglaterra, as sufragistas – questões que serão o pano de fundo. São também apresentadas algumas das linhas caracterizadas das personagens, em particular Marcos e a necessidade que sente em sair constantemente da ilha da Madeira, apesar da família e da paixão pela esposa, que deixa para trás ao fazê-lo.

Marcos será uma personagem constante na novela, começando com ele, e terminando com a sua morte, todavia, a narrativa vai mais além: cada capítulo é a história de uma personagem, um fio que contribui para a tapeçaria, que acabam por se explicar e complementar umas às outras. Crítica, ainda, o todo da sociedade, através da representação do detalhe, num aprofundamento que exige reflexão, ainda que nem sempre do negativo. Encontramos um grande – mas não exclusivo – foco na mulher, nas expectativas e no papel que delas se espera, o que delas se presume, ou o que elas driblam.

Em termos narrativos, o que se poderia considerar como despejo de informação torna-se numa leitura atractiva pelo manejo da prosa e pela precisão das informações. Sem se perder em introspecção, aborda o ser humano, em particular as questões femininas, e a solidão/saudade dos que ficam.

“Agrião!”, Clara Pinto Correia

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CORREIA, Clara Pinto – Agrião!, Lisboa, Relógio D’Água, 1989

 

Sinopse: “Contava sempre aos cachopinhos, que sorviam as suas histórias como goles de vinho doce aquecido com mel e gema de ovo nas vésperas frias de Natal, o caso daquele filho cruel que esfaqueara a mãe para lhe retirar da camisa os magros tostões que ela ganhara com tanto esforço enquanto ele estava na taberna, e depois, enlouquecido, desatara a correr com o coração dela na mão.

– Depois tropeçou numa fraga, ficou de borco na terra, e o coração da mãe foi a rebolar por ali fora. Sabeis o que disse então o coração?

Cresciam de ansiedade os olhos atentos, redondos, dos meninos.

– Disse assim, muito baixinho, que já não lhe cresciam forças para mais: «Magoaste-te, meu filho?»”

Opinião: Um romance curto e geracional, focado numa família pobre de periferia que a conta gotas vai tentando a sorte na capital dos anos 70. Cada capítulo dá atenção a um membro, que logo cede protagonismo a outro, numa sequência temporal irregular. Assiste-se ao trabalhar do contraste dicotómico subúrbio/cidade e expectativa/realidade – um par de dicotomias que estão, aliás, interligadas. Quase discreta, mas presente, há a exposição do sexismo social, com as mulheres da família a sofrerem rejeições, humilhações e desilusões sem que uma queixa se faça e com uma aceitação que leva a crer ser também o esperado. Pelo contrário, tudo voltam a aceitar nos braços – a excepção, talvez, desponta já na bisneta Pachacha (Maria Carla), mais contestatária e rebelde, e a geração mais nova.

A narração avança com orações longas, informais, e de cariz oral. Salta de tema em tema na mesma frase, possivelmente com a intenção de mimicar a corrente do pensamento. Não é um recurso que desgoste, mas de algum modo não se coadunou com a generalidade da obra.

Agrião, cujo nome dá título ao romance, é o cão semi rafeiro semi adoptado de Violante, a matriarca da família. Juntos criam simbolismo, e juntos tornam a história num romance circular.

“A Gorda”, Isabela Figueiredo

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FIGUEIREDO, Isabela – A Gorda, Alfragide, Caminho, 2016

Sinopse: Maria Luísa, a heroína deste romance, é uma bela rapariga, inteligente, boa aluna, voluntariosa e com uma forte personalidade. Mas é gorda. E isto, esta característica física, incomoda-a de tal modo que coloca tudo o resto em causa. Na adolescência sofre, e aguenta em silêncio, as piadas e os insultos dos colegas, fica esquecida, ao lado da mais feia das suas colegas, no baile dos finalistas do colégio. Mas não desiste, não se verga, e vai em frente, gorda, à procura de uma vida que valha a pena viver.

 

Opinião: A estrutura é curiosa: em vez da divisão por capítulos propriamente ditos, temos partes da casa. Cada secção começa por descrever, numa mancha gráfica distinta à do restante texto, qual a posição do compartimento em questão na planta geral da casa. Penso ter sido a intenção que, nas secções que lhe correspondem, o espaço da casa naquela divisão textual seja usado, recordado, ou encarado como o local de evento importante e /ou com algum hábito que ali se marcou, e que a protagonista recordará, mas nem sempre essa ligação é evidente ou perceptível na narrativa geral.

A linha temporal não é contínua, com constantes avanços e recuos na vida de protagonista, possíveis apenas de ir acompanhando pela existência de detalhes que ajudam o leitor a contextualizar-se. Assim, o leitor acompanha a vinda da protagonista, ainda em criança, para Portugal em 1975 devido à instabilidade que a descolonização despreparada causou em Moçambique; a adolescência passada entre um colégio religioso e as casas de parentes; as relações ora atribuladas ora carinhosas com os pais; a morte de ambos, em momentos díspares; e uma paixão assolapada sem futuro. Ainda que a falta de linearidade leve à amálgama destes acontecimentos – num momento fala da morte do pai (já adulta), no outro encontra-se a observar (e a desaprovar) uma guerra de comida entre as colegas internas do colégio –, os acontecimentos-chave que ancoram as fases da vida da protagonista existem e são usados, auxiliando o leitor.

O plano sócio-político de fundo varia de 1975 à crise da Troika, com um ponto em comum: o tratamento que a protagonista recebe, interioriza e devolve pela sua gordura, a qual é simbolicamente diminuída (desaparecida?) logo no início do romance – que é, em verdade, o fim – por conta de uma lipoaspiração. A consciencialização que a personagem tem de si própria e que julga ser-lhe feita – ou que de facto lhe é – é particularmente evidente por se tratar de uma narração em primeira pessoa.

Considero a protagonista, contudo, como fraca geradora de empatia, essencialmente pela sua incapacidade, ou falta de desejo, de abandonar um relacionamento psicologicamente tóxico, mesmo quando as circunstâncias e os envolvidos lhe dão todas as facilidades em o fazer. Submete-se, ainda, a quem não a merece enquanto desconsidera com mereceria melhor.

Tal não significa que não é uma personagem bem construída, com a complexidade das virtudes e defeitos, tratando melhor ou pior aqueles que lhe são mais próximos conforme o humor ou as disposições. Trata-se de uma personagem cinza, um ser humano e, por isso mesmo, bem elaborada.