“Na Sombra de João XXI”, Lourenço Pereira Coutinho

capa

COUTINHO, Lourenço Pereira – Na Sombra de João XXI, [Estoril], Prime Books, 2016

Sinopse: Romance histórico sobre o único Papa português e o seu aventuroso biógrafo frei Álvaro da Visitação ao serviço de sua eminência o cardeal D. Henrique.

 

Opinião: A obra interessou-me pela figura que se propõe abordar. Não há muito que se saiba sobre o único Papa português até ao momento, e é até pouco comum que se conheça a sua existência: além de o seu papado ter sido durante o século XIII, foi também extremamente curto (pouco mais de oito meses). A obra aborda a sua história – ou, melhor dizendo, as poucas informações que existem – inserindo o texto da sua hipotética biografia entre os eventos na vida de frei Álvaro da Visitação, o biógrafo. Há, por conseguinte, uma necessidade – de oportunidade – de contextualizar a sociedade portuguesa e europeia tanto do século XIII (referindo-se a João XXI) como do século XV (referindo-se a Álvaro da Visitação). Tanto em relação a um como a outro ficam evidentes os conhecimentos do autor, o qual não apenas transmite uma variedade de infirmações como, em relação a João XXI e aos eventos do século XIII, apresenta também suposições a partir dos factos históricos conhecidos, aventa sobre as obras desse Papa, e não esquece estudiosos e políticos que ou por contemporaneidade ou por influência se incluem na proposta da obra: Erasmo ou Maquiavel, por exemplo.

A nível estrutural, segue capítulos curtos, onde se destaca positivamente o detalhe decorativo das letras capitulares. O modo como apresenta a informação ao leitor, contudo, varia. Enquanto nos trechos referentes ao século XIII há um despejo de informação, o qual torna a sua leitura maçante, nos capítulos situados no século XV – e contemporâneos no que ao tempo narrativo diz respeito – verifica-se uma melhor exposição informativa. A narrativa inicia-se com o protagonista, frei Álvaro da Visitação, a caminhar pelas ruas de Lisboa, algo que é utilizado para a contextualização do tempo e espaço, através da descrição de lugares, pessoas, profissões existentes à época, hábitos, e comportamentos. Trata-se de uma descrição rica e detalhada que, por alternar com acções e movimentos da personagem, mantém o interesse. Este molde mantém-se durante os capítulos contextualizados no século XV, com o narrador autodiegético – o qual talvez fosse melhor conseguido com uma narração em terceira pessoa, dado que a exposição dos sentimentos e receios do protagonista se encontra demasiado objectiva para ser convincente numa narrativa em primeira pessoa.

Algo que falha no romance é a construção das personagens: a sua ideia-base é atractiva e adequada ao contexto do enredo, no entanto falham no seu desenvolvimento, não tendo mais que uma camada de caracterização, e fomentando relações sem motivo ou raízes: o romance entre Leonor e Álvaro, em particular, é extremamente raso e superficial, o que não se compreende dada a sua importância para o enredo. A própria personagem de Leonor não é mais do que um evidente instrumento de enredo, criado em função de Álvaro e não dela própria. Não ajuda a este desenvolvimento a artificialidade dos diálogos, cujo registo se aproxima mais do registo escrito que do oral.

Outro factor a apontar são as várias gralhas e a falha na revisão. Desde a inexistência de vírgulas de vocativo à oscilação gráfica entre maiúsculas e minúsculas (tanto “Índias” como “Papa” surgem ora em minúscula ora em maiúscula), falhas em acentuação (na página 49 encontramos um “fugir à” que seria “a”; na 53 um “E importante” que seria “é”), confusões com tempos verbais (“acabarão” na página 45 que seria “acabaram”), e mesmo erros ortográficos (“para puder ver”, sendo “poder”, na página 18, ou “conforto de dever comprido” quando se pretende “cumprido”, na página 88).

Em suma, trata-se de uma obra com potencial tanto pela temática como pelos eventos apresentados, e sem dúvida pelos conhecimentos históricos do autor, mas em grande necessidade de edição e revisão.

Grão de Trigo: Parte 4

O ideal é uma recomendação ser feita atendendo à pessoa que a recebe, mas tratando-se de um público geral terei de ser eu o ponto de partida. E assim se resume o que será o Grão de Trigo: uma listagem por ordem alfabética de sugestões de leitura, obviamente limitadas pela minha experiência de leitora. Outras restrições foram feitas por escolha própria: todas as obras são de autores portugueses, ainda vivos. Serão deixadas cinco sugestões por cada vez.

Acompanham as obras a sua sinopse e locais online onde poderão ser adquiridas. Não serão os únicos, mas serão os principais.

 

Eliete: A Vida Normal, Dulce Maria Cardoso

Eliete é um romance construído em torno da protagonista homónima, e é o seu mundo que Dulce Maria Cardoso apresenta agora aos leitores. Estar a meio da vida é como estar a meio de uma ponte suspensa, qualquer brisa a balança. A vida da Eliete vai a meio e, como se isso não bastasse, aproxima-se um vendaval.

Mas este é ainda o tempo que será recordado como sendo já terrivelmente estranho, apesar de ninguém dar conta disso. Porque tudo parece normal. Deus está ausente ou em trabalhos clandestinos. De tempos a tempos, a Pátria acorda em erupções festivas, mas lá se vai diluindo. E a Família?

Onde comprar:

Tinta da China

Bertrand

Almedina

Fnac

Wook

 

Limões na Madrugada, Carla M. Soares

Ansiosa por regressar à Argentina, mas presa a Portugal, distante do homem que ama e da mulher com quem vive, Adriana está perante um dilema universal e intemporal: manter-se comodamente na ignorância ou desvendar o passado da família, como se de um caso policial se tratasse, enfrentando assim aquilo de que andou a fugir toda a vida, por mais doloroso que seja.

Num jogo magistralmente imaginado pela autora, entre a vida atual de Adriana e os ecos do Portugal antigo, machista e violento dos seus pais e avós, esta história, de uma família e dois continentes, é uma viagem entre o presente e o passado, uma ponte sobre o fosso cultural que separa as gerações, um tratado sobre tudo aquilo que a família pode fazer à vida de um só indivíduo.

Entre a sombra e a luz, deixando que por vezes os silêncios falem mais alto do que as palavras, Limões na Madrugada é um romance sobre o amor incomum, o poder da família e a necessidade da coragem.

Onde comprar:

Cultura Editora

Bertrand

Wook

Fnac

 

O Ano da Dançarina, Carla M. Soares

No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política.

No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista.

Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas. Este é um romance de grande fôlego, histórico, empolgante e profundo, sobre a superação pessoal e uma saga familiar num tempo de grande mudança e turbulência em Portugal.

Onde comprar:

Marcador

Wook

Bertrand

Fnac

 

O Cavalheiro Inglês, Carla M. Soares

PORTUGAL. 1892. Na sequência do Ultimato inglês e da crise económica na Europa e em Portugal, os governos sucedem-se, os grupos republicanos e anarquistas crescem em número e importância e em Portugal já se vislumbra a decadência da nobreza e o fim da monarquia. Os ingleses que permanecem em Portugal não são amados. O visconde Silva Andrade está falido, em resultado de maus investimentos em África e no Brasil, e necessita com urgência de casar a sua filha, para garantir o investimento na sua fábrica.

Uma história empolgante que nos transporta para Portugal na transição do século XIX para o século XX numa descrição recheada de momentos históricos e encadeada com as emoções e a vida de uma família orgulhosamente portuguesa.

Onde comprar:

Marcador

Wook

Fnac

 

O Diário Oculto de Nora Rute, Mário Zambujal

Nora Rute é uma personagem de romance e, ao escrever o seu diário, vai escrevendo, no desconhecimento do que virá a seguir, o seu próprio romance. Ao mesmo tempo, acrescenta-lhe o registo de acontecimentos e usos que marcaram um ano (1969) desde a chegada do Homem à Lua à moda da minissaia, das manifestações estudantis a guerras em África, aos bares e cafés de Lisboa.

Narrativa de marcada originalidade, O Diário Oculto de Nora Rute coloca os leitores no caminho irrequieto de uma jovem que desafia as regras, as de uma sociedade machista de um pai austero. Predominam as personagens que são membros da família, não só uma misteriosa tia Nanda, a prima Mé mas um quase desconhecido que parece ter conquistado, em definitivo, o amor de Nora Rute. E um primo ribatejano que lhe revelará o reverso das luzes e sombras da cidade.

Ao colocar-se na sua mente de uma forma travessa, Mário Zambujal, sem abandonar o seu estilo próprio de escrita, incorpora-o no espírito e na conduta de uma jovem que descreve no seu diário a agitação dos seus dias.

Onde comprar:

Wook

Almedina

Fnac

 

Poderão verificar as restantes recomendações nas seguintes páginas:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

“Condessa de Barral: A Paixão do Imperador”, Mary del Priore

capa

PRIORE, Mary del – Condessa do Barral: A Paixão do Imperador, Rio de Janeiro, Objetiva, 2006

Sinopse: Luísa Margarida Portugal e Barros, a Condessa de Barral, manteve durante trinta anos um relacionamento lendário com o Imperador do Brasil, D. Pedro II, ocupante do trono brasileiro entre 1840 e 1889. Porém, muito mais do que uma simples amante, esta filha de um senhor de engenhos apaixonado pelas letras foi uma das figuras femininas mais originais e interessantes de seu tempo.

 

Opinião: Embora a narrativa se inicie com o nascimento de Luísa, futura Condessa do Barral, e termine com a sua morte, a sua biografia não é usada para lhe dar protagonismo, mas sim como um fio condutor dos eventos históricos e sócio-culturais que ocorreram no Brasil e na Europa durante os anos de vivência de Luísa. Há portanto uma contextualização constante política, social, e cultural, e, numa esfera mais pessoal, das personagens que de um modo ou outro se destacaram na vida da Condessa: Domingos, seu pai, cuja educação em muito a influenciou; a princesa Francisca de Joinville, em cujo casamento e adaptação às cortes europeias Luísa foi uma presença assídua; as princesas brasileiras Isabel e Leopoldina, de quem foi tutora e em cujas negociações de casamento teve mão; o Imperador Pedro II, de quem se crê ter sido amante, e se sabe ter tido uma relação muito próxima; entre outros exemplos. Tal apresentação em tão poucas páginas leva a que Luísa, protagonista no título e na sinopse, se torne uma sombra na própria biografia, frequentemente relegada como secundária a fazer de outrem. Em simultâneo, a imensidão de nomes, relações, e eventos, nem sempre bem expostos, levam a trechos que se tornam confusos para quem não detém um bom conhecimento histórico da época e país referidos.

Trata-se de um texto de não ficção, com uso recorrente a verbos de acção (X fez isto; achou aquilo, disse aqueloutro), pet words por parte da autora (“camaleoa” é uma constante, por exemplo), e uso de vocábulos que deixam em evidência as opiniões da autora sobre os eventos e personagens a que se refere, bem como quais as suas preferências.

Algo que auxilia a narrativa e as suas bases históricas é o uso de imagens de retratos da época – tanto de pessoas quanto de moradias e paisagens – e da inserção de poemas e cartas, em particular os trocados entre Luísa e Pedro. Não apenas é um modo de caracterizar as personagens históricas e suas relações, fá-lo pelas suas próprias palavras, e encontram-se bem inseridos na narrativa geral.

Por fim, apesar das críticas apontadas, chama atenção para a existência de uma figura e vida que não é geralmente conhecida entre o público europeu. Satisfaz como primeiro contacto, pois desperta a atenção e o interesse em relação à Condessa do Barral, enquanto informa sobre alguns dos eventos mais importantes do Brasil imperial.

Grão de Trigo: Parte 3

O ideal é uma recomendação ser feita atendendo à pessoa que a recebe, mas tratando-se de um público geral terei de ser eu o ponto de partida. E assim se resume o Grão de Trigo: uma listagem por ordem alfabética de sugestões de leitura, obviamente limitadas pela minha experiência de leitora. Outras restrições foram feitas por escolha própria: todas as obras são de autores portugueses, ainda vivos. Serão deixadas cinco sugestões por cada vez.

Acompanham as obras a sua sinopse e locais online onde poderão ser adquiridas. Não serão os únicos, mas serão os principais.

 

Crónica dos Bons Malandros, Mário Zambujal

Uma quadrilha decide assaltar o Museu Gulbenkian, farta dos seus banais assaltos. Durante o livro fala sobre a vida de cada um dos elementos da quadrilha e como se conheceram. Mas o assalto ao museu não correu como esperavam…

Onde comprar:

Wook

 

D. Amélia, Isabel Stilwell

Uma rainha não foge, não vira costas ao seu destino, ao seu país. D. Amélia de Orleães e Bragança era uma mulher marcada pela tragédia quando embarcou, em Outubro de 1910, na Ericeira rumo ao exílio. Essa palavra maldita que tinha marcado a sua família e a sua infância. O povo acolheu-a com vivas, anos antes, quando chegou a Lisboa. Admirou a sua beleza, comentou como era alta e ficou encantado com o casamento de amor a que assistiu na Igreja de São Domingos. A princesa sentia-se uma mulher feliz. Mas cedo começou a sentir o peso da tragédia. O povo que a aclamou agora criticava os seus gestos, mesmo quando eram em prol dos mais desfavorecidos. O marido, aos poucos, afastava-se do seu coração, descobriu-lhe traições e fraquezas e nem o amor dos seus dois filhos conseguiu mitigar a dor. Nos dias mais tristes passava os dedos pelo colar de pérolas que D. Carlos lhe oferecera, 671 pérolas, cada uma símbolo dos momentos felizes que teimava em não esquecer. Isabel Stilwell, autora “best-seller” de romances históricos, traz-nos a história da última rainha de Portugal. D. Amélia viveu durante 24 anos num país que amou como seu, apesar de nele ter deixado enterrados uma filha prematura que morreu à nascença, o seu primogénito D. Luís Filipe, herdeiro do trono, e o marido D. Carlos, assassinados ao pleno Terreiro do Paço a tiro de carabina e pistola. De nada lhe valeu o ramo de rosas que tinha na mão e com o qual tentou afastar o assassino. Outras mortes a perseguiriam… D. Amélia regressou em 1945 a convite de António de Oliveira Salazar com quem mantinha correspondência e por quem tinha uma declarada admiração. Morreu seis anos depois em França, seu país natal, na cama que Columbano havia pintado para ela. Na cabeceira estavam desenhadas as armas dos Bragança.

Onde comprar:

Fnac

Bertrand

 

Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas, Ricardo Adolfo

Brito é imigrante ilegal numa cidade que não conhece e cuja língua não fala. Um domingo à tarde, depois da volta das montras, perde-se a caminho de casa com a mulher e o filho pequeno. E como acredita que para tomar uma decisão acertada tem de fazer o contrário daquilo que acha que está correcto, o regresso a casa revela-se impossível. Depois de uma noite na rua, Brito percebe que se não pedir ajuda pode ficar perdido para sempre, mas se o fizer pode arruinar o sonho de uma vida nova.

Em pouco mais de vinte e quatro horas, Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas explora o que é viver imigrado dentro de si mesmo – mais difícil do que qualquer exílio.

Onde comprar:

Wook

Fnac

Bertrand

 

Dormir com Lisboa, Fausta Cardoso Pereira

Lisboa engole aqueles que a pisam. A calçada abre buracos para depois os fechar, como se nada tivesse acontecido. O desaparecimento inexplicável de cidadãos comuns em Lisboa é o ponto de partida para várias dimensões ficcionais entrançadas, como se cidade e texto fossem uma coisa só: um labirinto.

Enquanto o desconforto e a desorientação instalam-se na capital e os personagens procuram entender e resolver o problema dos desaparecimentos, Lisboa revela-se enquanto sistema vivo, com vontade própria, impossível de controlar.

Dormir com Lisboa é uma história que em vez de contar, pretende ouvir o que a cidade tem para dizer. É um abraço a uma cidade velha num contexto económico que a transforma todos os dias.

Onde comprar:

Urco Editora

Fnac

 

Ecologia, Joana Bértholo

Numa sociedade que se fundiu com o mercado – tudo se compra, tudo se vende – começamos a pagar pelas palavras. A estranheza inicial dá lugar ao entusiasmo. Afinal, como é que falar podia permanecer gratuito?

Há seis mil idiomas no mundo. Seis mil formas diferentes de dizer «ecologia», e tão pouca ecologia. Seis mil formas diferentes de dizer «paz», e tão pouca paz. Seis mil formas diferentes de dizer «juntos», e é cada um por si.

Onde comprar:

Caminho

Fnac

Wook

Bertrand

 

 

Poderão verificar as restantes recomendações nas seguintes páginas:

Parte 1

Parte 2

“Crónica dos Bons Malandros”, Mário Zambujal

capa

ZAMBUJAL, Mário – Crónica dos Bons Malandros, Amadora, Bertrand, 1980

Sinopse: Uma quadrilha decide assaltar o Museu Gulbenkian, farta dos seus banais assaltos. Durante o livro fala sobre a vida de cada um dos elementos da quadrilha e como se conheceram. Mas o assalto ao museu não correu como esperavam…

 

Opinião: Após iniciar-se com uma apresentação geral da quadrilha de Renato e das intenções do assalto ao Museu Gulbenkien, a obra avança apresentando cada personagem: os integrantes da quadrilha. Para cada um, um capítulo, e a abrir cada capítulo um resumo do que o leitor encontrará nele; torna-se curioso como o autor consegue que em todos esses resumos os eventos sejam expostos sem, contudo, entregar o enredo. Este método permite ao leitor adquirir uma ideia consiste das personagens, a sua personalidade, passado, motivações e modo de pensar, o que as torna complexas. É de notar que, quando se retorna à narrativa do assalto que dá mote à obra, todas agem nos conformes da respectiva caracterização. Não se pode, por conseguinte, dizer terem sido as reviravoltas surpreendentes.

Crónica dos Bons Malandros é uma leitura divertida. As personagens são peculiares, e o assalto engendrado é caricato. A narrativa é suficientemente envolvente para que a possibilidade ou não de resultar se torne indiferente: perde importância face aos restantes elemento que compõem o romance. A criar-se narrativas de golpes, tema tão comum, que contenham a criatividade aqui presente.

Grão de Trigo: Parte 2

O ideal é uma recomendação ser feita atendendo à pessoa que a recebe, mas tratando-se de um público geral terei de ser eu o ponto de partida. E assim se resume o Grão de Trigo: uma listagem por ordem alfabética de sugestões de leitura, obviamente limitadas pela minha experiência de leitora. Outras restrições foram feitas por escolha própria: todas as obras são de autores portugueses, ainda vivos. Serão deixadas cinco sugestões por cada vez.

Acompanham as obras a sua sinopse e locais online onde poderão ser adquiridas. Não serão os únicos, mas serão os principais.

 

 

Adeus, Princesa, Clara Pinto Correia

Neste romance de mistério, um jovem repórter e um fotógrafo experiente vão à região do Alentejo investigar um assassinato.

Onde comprar:

Wook

Almedina

Fnac

 

 

Antologia Ficção Especulativa Queer, VVAA

Seis histórias de ficção especulativa de jovens autores portugueses protagonizadas por pessoas queer. Porém, a orientação sexual ou género é apenas uma das muitas facetas que as personagens têm. Os protagonistas têm personalidade e agenda própria, não são estereótipos, ou um visto na lista de coisas que uma história tem de ter para ser inclusiva.

Afinal, cada uma destas pessoas é única, como todos e cada um de nós.

Com a liberdade que só a ficção especulativa dá, esta antologia atreve-se a construir histórias povoadas com sexos, sexualidades e géneros que hoje ainda se encontram sub-representados na ficção.

Um pequeno, mas importante, passo num mundo que por vezes parece querer guinar de volta para a intolerância.

Onde comprar:

Convergência

Fnac

Almedina

 

 

As Luzes de Leonor, Maria Teresa Horta

Um romance sinfónico sobre a Marquesa de Alorna, Leonor de Almeida Portugal, neta dos Marqueses de Távora, uma figura feminina ímpar na história literária e política de Portugal. A grande escritora Maria Teresa Horta, persegue-a e vigia-a nos momentos mais íntimos, atraída pela desmesura de Leonor, no seu permanente conflito entre a razão e a emoção. Acompanha-a no voo de uma paixão, que seduz os espíritos mais cultos da época, o chamado “século das luzes”, e abre as portas ao romantismo em Portugal. Um maravilhoso e apaixonante romance sobre a extraordinária e aventurosa vida da Marquesa de Alorna.

Onde comprar:

Leya

Wook

Bertrand

Almedina

Fnac

 

 

Atrás da Porta e Outras Histórias, Teodolinda Gersão

Atrás da porta há segredos. De beleza ou de horror, porque o mundo e a vida não são o que parecem.

Por vezes a literatura consegue espreitar por uma frincha da porta, ou mesmo forçá-la a abrir-se.

Essa tentativa, sempre renovada, é o objectivo da escrita.

Onde comprar:

Porto Editora

Wook

Bertrand

Fnac

Almedina

 

 

Comandante Serralves: Despojos de Guerra, VVAA

Depois da invasão Pahoehoente, a Aliança Humana trouxe paz e prosperidade ao Sistema Solar. Contudo trouxe também a supressão da cultura, a opressão e a padronização dos povos.

Existe, porém, uma lenda que há várias gerações traz esperança a todas as nações livres. O seu nome é: Comandante Serralves.

Suba a bordo da nave Maria e deixe-se levar por um universo de relatos de resistência e luta. Conheça as muitas caras e corpos do Comandante e deixe-se maravilhar pelas comunidades que colonizaram os planetas de Mercúrio a Urano.

Que despojos de guerra contra os Pahoehoentes são esses que ainda hoje trazem perigo às nações livres? Que artefactos se escondem em torno do Sol que podem desiquilibrar o braço de ferro entre Serralves e a Aliança?

Onde comprar:

Convergência

 

Poderão verificar as restantes recomendações nas seguintes páginas:

Parte 1

“A Mestiça”, Camila Deus Dará

capa

DEUS DARÁ, Camila – A Mestiça, PenDragon, 2017

 

Sinopse: Melane, uma garota de 16 anos que vive com a avó, descobre não apenas ser uma mestiça de bruxa e dragão, como também uma princesa em um mundo chamado Ninho de Fogo.

Com ajuda de seu fiel guardião David, e o pequeno Jack, o garotinho de quase 300 anos de idade, ela volta para sua terra natal, descobrindo que o lugar está se despedaçando.
Em um mundo de dragões, fadas e sereias, Melane terá que ser forte para a batalha que colocará em risco o mundo onde nasceu, enquanto tenta descobrir a quem pertence seu coração.

Uma mistura de romance, aventura, guerra e salvação é o que te espera em Ninho de Fogo!

 

Opinião: A Mestiça é o primeiro de uma trilogia, onde a autora introduz o mundo de Ninho de Fogo bem como a protagonista, Melane, uma jovem cuja mãe era uma bruxa e o pai um dragão (num wordbuilding onde dragões podem assumir forma humana). Inicialmente a estrutura parece ser a da Jornada do Herói, começando por apresentar a protagonista no seu dia-a-dia, para logo um evento exterior a arrancar do mundo que conhece e a forçar a começar a aventura. Mas rapidamente deixa de ser assim: os eventos do enredo arrastam-se, sem que nada de peso ocorra até à batalha final. As poucas altercações que acontecem entre Melane descobrir ser uma princesa de um mundo onde criaturas fantasiosas são reais e entrar numa batalha para salvar esse mundo (ou seja, entre o início e o final da obra) não têm consequências quer na história quer nas personagens, sendo por conseguinte narrativamente inúteis.

A estrutura desfasada não é, contudo, a única falha na obra. O enredo é simples, o que não seria problemático caso se encontrasse bem desenvolvido. No entanto, levanta demasiadas questões que se tornam “furos” na história: como ninguém estranha que o seu monarca, o qual reconheciam como bondoso, se tenha tornado tirânico literalmente de um dia para o outro? Se Melane se encontra escondida, como é tão facilmente encontrada pelos dragões e mais tarde pelos goblins? E porquê enviar forças tão pequenas em vez de um exército mais capaz de a capturar? É o vilarejo onde ela se esconde a única povoação de Ninho de Fogo? Cada vez que as personagens se referem ao seu mundo parecem tratá-la desse modo, e não há outra explicação para os soldados do rei abordarem apenas a população daquele vilarejo – ou, a haver, não se encontra explícito no livro. Os inconvenientes e problemáticas que surgem são, ainda, solucionados com o uso de deus ex machina, ou seja, por sorte ou por alguma coisa, evento, ou personagem que surge de repente naquele momento.

Às falhas de enredo entrelaçam-se as falhas de construção de personagens. Todas as personagens são descritas de forma directa, com o texto a fornecer as informações (nome, aspecto, etc), mas sem descrição indirecta (acções, posicionamentos, etc) que concedam consistência a essa informação. A grande maioria é, ademais, a representação de um cliché, sem outro factor que a distinga: o vizinho bonitão com um segredo e que é o melhor amigo da protagonista; a melhor amiga bonita e preocupada com a imagem a contrastar com a protagonista; o grupo de meninas cujo único propósito é fazer bullying com a protagonista; a mulher sábia que auxilia; a protagonista com sonhos que são profecias; entre outros. Ainda em relação às personagens, não é de ignorar o triângulo amoroso: este é constituído pela protagonista de dezasseis anos e dois homens-dragão de trezentos anos. Um é o vizinho/melhor amigo que além de ter sido amigo do pai ajudou no parto da protagonista; o outro é apresentado primeiro como uma criança, apesar da idade, tendo posteriormente forçado o próprio crescimento no espaço de uma noite. O único motivo para o detalhe de “trezentos anos” não ser tão problemático durante a leitura é o facto de as personagens não se comportarem, agirem, ou falarem como tal, mas sim como adolescentes.

Com excepção de um par de trechos, Melane é também o narrador. Ao optar pelo narrador em primeira pessoa, a autora teria oportunidade de explorar e expor os sentimentos e pontos de vista da protagonista. No entanto, esta vantagem não é aproveitada: é dada prioridade às descrições, mas ignorados os pensamentos e sensações da protagonista em momentos em que estariam à flor da pele. Um exemplo que ocorre logo no início da narrativa é quando Melane vê David, o vizinho e um dos interesses amorosos, transformar-se em dragão pela primeira vez, estando a carregá-la às costas. Fala muito pouco, praticamente nada, das emoções que a situação lhe traz, focando na descrição do acontecimento.

No que se refere à escrita, demonstra uma boa base vocabular e gramatical, mas também a necessidade de uma revisão que a torne mais enxuta: abusa nos advérbios e nos adjectivos, o que torna a leitura desnecessariamente morosa; apresenta algumas gralhas (ex: “o fogo passa poucos centímetros”) ou mesmo faltas de sentido no que é dito (ex: “escuto o pequeno som de um sorriso”); insere parágrafos onde não se justificam, assim como negritos e itálicos sem qualquer necessidade; desconhece o uso da vírgula do vocativo (ex: “Quem te mandou aqui Jack?” ou “Não diga bobagens querida”); não utiliza a pontuação pedida («) para demarcar um parágrafo durante o discurso directo; apresenta falhas em relação à pontuação nos diálogos, desconhecendo a diferença de quando se trata de um verbo referente à fala ou de acção independente (ex: “⸺ Não é por isso que cumpro minha promessa, Melane ⸺ viro o rosto em sua direção.”); e, acima de tudo, é extremamente repetitiva, tanto em relação aos vocábulos utilizados como no que se refere às informações transmitidas: um exemplo encontra-se na repetição palavra por palavra no início de um capítulo de um diálogo que acabara de ser lido no final do capítulo anterior, apenas por se alterar a personagem narrador. Algo que se justificaria caso essa repetição acrescentasse algo ao enredo ou à construção de personagens, mas não se trata do caso.

Em suma, uma obra de fantasia centrada numa personagem concebida como “a escolhida” que infelizmente se encontra ainda mal formulada e desenvolvida.