“Kinshi na Karada: O Corpo Proibido”, Josiane Veiga

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VEIGA, Josiane – Kinshi na Karada: O Corpo Proibido, [s.l.], [Amazon], 2014

Sinopse: Japão, 2º Guerra Mundial.

Apesar do começo promissor, o exército japonês, um dos mais bem armados e fortes de sua época, viu-se acuado, pronto para a derrota. Na terra do Imperador, o medo parecia acompanhar, como um guardião, cada habitante do país. Nas ruas, a Kempeitai – Corpo de Soldados da Lei – impunha sua vontade com brutalidade e até a morte.

O Japão iniciava a década de 40 dividido entre a esperança e o medo dos dias vindouros.

Shiromiya Kazue cresceu nas ruas, órfão, acompanhado do irmão que o vendia a troco de arroz. Desde pequeno, sua aparência feminina contribuía para que o preço de sua carne fosse o bastante para que ambos pudessem sobreviver aos dias cruéis. Porém, num ambiente em que sobravam pessoas famintas e faltava dinheiro, ser jovem e bonito já não mais bastava. Foi assim que ele precisou se transformar em mulher.

Ryo era um poderoso comerciante, dono de uma frota de barcos pesqueiros. Viveu o período turbulento com relativa calma. Comprava a paz que necessitava, assim como o corpo daquelas com quem queria se deitar. Mas a vida ainda haveria de ensinar-lhe que, nem sempre, o coração de alguém está à venda e nem tudo é o que parece.

Kazue e Ryo se cruzam num momento difícil de suas vidas e não sabem o que fazer perante o que entre eles surge. Como Kazue, acostumado à dor e ao abuso, poderia entregar o coração a alguém que o via apenas como mercadoria? E como Ryo poderia amar um homem?

Kinshi na Karada pode ser traduzido como o Corpo Proibido para o português, e a história retrata a sociedade japonesa na primeira metade da década de 40.
A honra e a vergonha se cruzam, mostrando o que, de fato, existe em cada um de nós, humanos.

 

Opinião: Ambientado no Japão durante a 2º Guerra Mundial, o enredo pretende desenvolver o romance entre Kazue, um jovem resgatado da prostituição infantil das ruas, e Ryo, um comerciante rico e preconceituoso, tendo como secundário o romance entre Mamoru, dono de um prostíbulo, que acolheu Kazue, e Shin, poderoso familiar do Imperador. É uma premissa que atrai, não apenas pelo contexto histórico-social e cultural, como também pelo potencial empático que poderia advir das personagens. Infelizmente a prossecução ficou demasiado aquém para que esse potencial se cumprisse, falhando a vários níveis, os quais serão em seguida elaborados.

Começando pelo enredo, vemo-lo mantido à base de um ciclo de ofensas/mal-entendidos, seguido de perdão/reconciliação, que não avança e alterna de forma repentina e abrupta entre estes estados de espírito, sem um desenvolvimento adequado, que acaba por causar contradições nos comportamentos das personagens. Ademais as relações amorosas retratadas são notoriamente abusivas, com base numa concepção do amor enquanto força inalterável e acima de qualquer indivíduo: algo perigoso, pois fomenta a ideia de que por amor tudo se deve perdoar e aceitar. Apenas no final (aberto) vemos uma reacção de “chega” de um dos abusados, que por se tratar de uma duologia julgo que será revertida no volume seguinte. Já o andamento do enredo é demasiado parado e, volto a ressalvar, em círculos constantes em torno das mesmas questões. Assim como acontece com a sinopse, poder-se-ia reescrever cortando e reduzindo, sem que por isso se prejudicasse enredo ou personagens. Acrescenta-se, ainda, o “anzol” que durante grande parte da leitura foi sendo deitado e que não cumpriu com as expectativas causadas: de forma a manter o interesse, é quase desde o início indicado ter uma das personagens um segredo que lhe destruiria a vida. As expectativas goram-se quando o referido segredo é revelado (muito depois do que deveria ter sido), pois ainda que de facto perigoso e culturalmente de relevância, parece pouco credível que, face à relação profunda e duradoira com outra personagem, a reacção dessa personagem tivesse sido a narrada.

Esta falta de credibilidade narrativa, que dificulta a suspensão da crença por parte do leitor, denota-se várias vezes ao longo do texto. Além dos momentos de infodump, a grande maioria dos episódios mais sensíveis são descritos quase com factualidade, falhando assim em causar empatia ou sentimento no leitor. Procura apoiar-se em episódios geralmente tidos como horror pela população em geral e não os desenvolve ou sensibiliza, tornando-os numa muleta ineficiente, de como são exemplos a descrição dos campos de trabalho/concentração, ou o assassínio de uma menina com uma bala na cabeça. Em ambos os exemplos há uma superficialidade que gera indiferença.

Também para esta falha de suspensão da crença contribuíram as contradições: uma personagem que se torna fluente em Alemão após alguns meses a ser ensinado por um amante; uma personagem traumatizada por ter violado (e ter deixado violar) uma mulher, e logo a seguir viola outra personagem; uma paixão assolapada que por anos é escondida a “despertar” num repente, sem qualquer desenvolvimento prévio a conduzir a esse despertar (refiro-me a Mamoru), e que, aliás, é revertido logo no capítulo seguinte, perdendo qualquer relevância que poderia ter tido; o grande alarido de Ryo por Kazue ser analfabeto, contradito pela sua consideração de ser perda de tempo, quando Kazue afirma ser seu sonho aprender a ler e a escrever; o facto de num parágrafo se afirmar que era como se a morte incomodasse cada vivente, e no seguinte se afirmar que era como se a guerra não incomodasse; etc. A estas contradições acrescentam-se ainda afirmações descabidas, se não mesmo preconceituosas, como “O sexo entre homens era muito mais carnal e intenso que entre um homem e uma mulher.”, “Gritou como uma mulherzinha.” ou “Mas você faz sexo como uma menininha.”

Denota-se também superficialidade em relação à cultura a que se pretende contextualizar o enredo: a gueixa é reduzida a uma dançarina, com afirmações de que “não trabalhavam”, e várias vezes é afirmado que a cidade (quando não o país) não sente os efeitos da guerra – quando o discursivo narrativo muda, passando a descrever em poucas linhas a pobreza advinda de bombardeamentos, pouco é sentido pelos protagonistas. A insinuação de um relacionamento homossexual entre Hitler e Speer (arquitecto-chefe do partido) não tem qualquer cabimento, nem o ditador nazi teve olhos claros (eram castanhos), e o ambiente histórico geral é raso, com situação nas datas mais importantes e menção aos eventos mais marcantes sem entrar em grandes detalhes, quer dos eventos em si, quer das consequências que deles advieram.

Em relação à narrativa, são frequentes as repetições de informação (“Haviam-se conhecido na infância aos nove anos. Ambos tinham a mesma idade.”; “Aquele final de janeiro terminava como[…]”); repetições próximas de palavras, causando cacofonia (“já haviam se passado […] e não haviam conseguido […] que haviam feito.”; “já que já fazia”); erros na utilização das vírgulas, colocando-a entre o sujeito e o predicado (“A proprietária da casa em que viviam, havia-lhes dito”; “as casas rústicas, pobres e feias eram a conjução”), seguindo o mas (“Mas, o mais certo era que”) ou o conector de adição (“e, era uma sorte que estava sendo acolhido em suas asas.”), e inexistindo no vocativo (“Não senhor…”; “Nós japoneses acreditamos”); confusão entre “sob” e “sobre”, entre “história” e “História” (“O dia 16 de Julho entraria para a história”), “que” e “quem” (“Mas era Nana que mais se irritava”), e entre “a”, “à” e “há” (“como a muito não fazia”; “existe um abrigo há uns dois quilómetros de aqui”; “À custo, Ryo assentiu”); uso do género masculino em vez de feminino (“Enfileirados, cerca de meia dúzia de mulheres”); mistura dos tratamentos “tu” e “você” numa mesma frase (“Mas você me ama! – persistiu. – Ensina-me a amá-lo – pediu” [a intenção da personagem seria dirigir esse pedido ao “você” da primeira frase, não a um terceiro, como poderá ser interpretado quando fora de contexto]); erros na colocação pronominal (“Quando o homem afastou-se” [o “quando” colocaria o pronome antes do verbo]); e diversas falhas em relação aos tempos verbais, desde o uso da conjugação correspondente à pessoa (“dois dias havia se passado”), à conjugação verbal no passado quando se pretende o futuro (“É questão de tempo para tudo ser bombardeado, muitos morreram dentro de suas casa”), ao uso do pretérito perfeito (ex: foi) quando a situação pediria pretérito-mais-que-perfeito (ex: fora), por se referir ao passado do tempo narrativo.

Trata-se, portanto, de uma obra que ficou por cumprir com as potencialidades que a sua premissa detém, beneficiando de uma revisão a vários níveis que a poderia levar a outro patamar.

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“O Legado de Eros”, VVAA

Eros

VVAA – O Legado de Eros, [s.l.], Fantasy&Co, 2013

Sinopse: Antologia (fantástica) de contos românticos e eróticos, com trabalhos dos escritores Carina Portugal, Carlos Silva, Inês Montenegro, Pedro Cipriano, Sara Farinha e Vitor Frazão.

 

Opinião: Publicada em 2013, a antologia reúne contos do que era então parte da equipa do Fantasy&Co. A temática, apesar do indicado na sinopse, prende-se mais com o romance que com o erótico. São seis os contos que perfazem a antologia, seguindo abaixo a opinião individual sobre cinco deles, visto que deixarei o meu próprio de fora.

“Rumo a Casa”, Sara Farinha: O enredo foca-se num momento de regresso a casa e de um pedido de perdão. Trata-se de um conto mais introspectivo, onde o núcleo seriam os sentimentos das personagens. Estas, todavia, são unidimensionais, reduzindo-se a sua função na história à materialização do sentimento do momento e falhando, por conseguinte, na empatia. É de notar a falha de pontuação nos diálogos, e também o final não causa surpresa, visto serem dados elementos ao longo da leitura que permitem ao leitor deduzi-lo. Destaca-se, pela positiva, a prosa aprazível.

“Carta para o Cosmos”, Carlos Silva: Mantendo-se na scifi, encontramos aqui uma mistura entre o sentimento e o artificial. O enredo é desenvolvido através de mensagens deixadas ao longo do tempo pela esposa ao marido astronauta, numa reformulação do epistolar. Apesar das emoções que se podem deduzir advir de tamanha situação, acaba por haver uma certa “mecanicidade” narrativa que as enfraquece. A reviravolta final dá uma nota de esperança onde já se esperava nada haver, ainda que se mantenham várias questões a lesar os protagonistas.

“Amor-Perfeito”, Vitor Frazão: O que inicialmente parece um lento romance de reencontro entre dois imortais desenvolve-se como um triângulo em que posse e desrespeito entram na equação. Uma boa escolha de tema e de questões a considerar, que no entanto teria beneficiado de maior desenvolvimento das relações entre as personagens.

“A Primavera”, Pedro Cipriano: Um dos muitos contos do autor que pertencem ao worldbuilding que durante anos esteve em desenvolvimento. Apesar de, sozinho, se poder valorizar a contribuição dada a novas perspectivas do referido worldbuilding, na totalidade torna-se cansativo, em particular por constantemente pegar no mesmo tema: os horrores da guerra.  Ressalta-se, apesar de deduzível, a ironia do final.

“Sementes de Fada”, Carina Portugal: O conto mais longo da antologia, trabalhando a fantasia com o romance. Inversamente à maioria dos restantes contos, que priorizam um momento, neste enredo temos uma maior sensação de princípio, meio e fim, tendo tido as personagens espaço para serem caracterizadas e amadurecer dentro da história. É possivelmente o conto melhor equilibrado da antologia. Considerei, contudo, a protagonista demasiado infantilizada no começo, em especial quando comparada ao que demonstra de si própria mais adiante. Também o final carece de uma maior claridade, deixando demasiado à uma interpretação dúbia.

 

A antologia pode ser lida gratuitamente aqui.

“As Boas Damas: Uma Novela de Sherlock Holmes”, Clara Madrigano

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MADRIGANO, Clara – As Boas Damas: Uma Novela de Sherlock Holmes, Blumeau, Dame Blanche, 2017

Sinopse: As boas damas é a aventura de Annabel Watson, filha do famoso doutor e parceiro de investigações de Sherlock Holmes. Anos depois da morte dos pais, Anna vive com Holmes, seu tutor legal, que está prestes a se aposentar, até uma última cliente aparecer: uma dama da sociedade, que confessa ter assassinado o próprio filho, desafiando o detetive a descobrir suas motivações. Holmes, com Annabel a tiracolo, vê-se diante de um mistério que parece encobrir um mundo sobrenatural.

 

Opinião: São muitas – e serão ainda mais – as adaptações e interpretações em torno de Sherlock Holmes. Tamanha popularidade traz sempre uma expectativa agridoce: por um lado a possibilidade de explorar mais um caminho, traço ou dinâmica de algo que já se conhece e gosta, por outro a hipótese de encontrar mais do mesmo, de saturação. As Boas Damas é das obras que consegue dar à personagem e à história uma nova faceta, trazendo elementos novos enquanto mantém os que evocam a familiaridade dos romances de Conan Doyle, como por exemplo o uso do grupo de miúdos de posses parcas como ajudantes. Além de trabalhar com novas personagens, dá ainda nova luz às já existentes, tornando-as distintas para a sua própria narrativa, mas sem as descaracterizar. Aplica, aliás, o interesse de Doyle no místico e no feérico, criando por conseguinte um eco também com o autor e não somente a obra.

Classificado como mistério e fantasia, a história é narrada em primeira pessoa por Annabel Watson, que assim como o pai é quem escreve e publica esta aventura de Sherlock. Contrariamente ao médico, contudo, que sempre foi mais observador e seguidor das ordens do detective, Annabel não se restringe ao papel de companheira de aventura, tomando para si um carácter mais activo e voluntarioso, adquirindo um papel no enredo que efectivamente o coloca em movimento. Ou seja, trata-se de uma personagem cujas acções despoletam consequências, e que se encontra longe da protagonista passiva a quem os acontecimentos sucedem sem movimentação prévia.

Pelo seu tamanho, poderá ser considerada como uma novela, a qual se lê muito rapidamente pela capacidade de manter o interesse, despoletado muito pelo pacing (calmo, mas não moroso), através do qual o mistério – não apenas o do “caso”, mas também o de Annabel – se vai desenrolando.

É de notar algumas gralhas que passaram despercebidas aquando a revisão (como exemplos: um “ela” referindo-se a Sherlock; uma troca entre “que” e “de” ou a inexistência de pontuaçãol no final de uma frase), falhas de pontuação dos diálogos (com maiúscula quando seria o caso de minúscula); e o uso de “-se” à frente do verbo em casos excepcionais, que o colocariam atrás (em frases negativas, por exemplo). No geral, contudo, denota-se uma escrita agradável à leitura, natural, e com bom uso vocabular.

Fórum Fantástico 2018

A próxima sexta-feira dia 12 será o primeiro dos três dias em que a biblioteca Orlando Ribeiro (Telheiras) volta a receber o Fórum Fantástico, evento que promulga a Fantasia e a Ficção-Científica em Portugal. À semelhança dos anos anteriores as actividades serão várias e variadas, desde debates e palestras a workshops, jogos, exposições, apresentação de curtas e, naturalmente, lançamentos. A programação pode ser verificada aqui, mas por motivos interesseiros, deixarei dois lançamentos em destaque:

Lisboa Oculta

Sinopse: “Já todos os turistas sabem o que devem visitar em Lisboa, mas saberão eles o que não devem visitar? No Guia Turístico – Lisboa Oculta (publicação bilingue em Português e Inglês) poderás encontrar as histórias de treze atracções lisboetas até agora ocultas. Jantares secretos, Institutos paranormais, estátuas falantes, sereias e sons divinos, tudo isto e muito mais nesta edição ricamente ilustrada pelos Credo quia Absurdum.”

Lançamento: sexta-feira 12/10, às 17h45.

o resto é paisagem

Sinopse: “É certo e sabido que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem.

Entrar neste Portugal implica esvaziar o espírito, atravessar a barreira da compreensão, ir além do além. Descobrir as histórias que se escondem entre as linhas das histórias banais. Desconfiar que no olhar manso do gado se esconde um mal antigo e inteligente à espera do momento certo. Descodificar a mensagem insistente, repetitiva e enlouquecedora dos grilos quando cai a noite. Hesitar diante da cerca derrubada e aparentemente esquecida.

Tentar sempre, e antes de tudo, partir… se possível.”

Lançamento: sábado 13/10, às 18h00.

“As Esganadas”, Jô Soares

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SOARES, Jô – As Esganadas, São Paulo, Companhia das Letras, 2011

Sinopse: O delicioso núcleo narrativo está nas tentativas aparvalhadas da polícia de encontrar um criminoso que, além de muito esperto e de não despertar suspeita nenhuma, possui uma rara característica física que dificulta sobremaneira a utilização dos novos “métodos científicos” da polícia carioca.

Para investigar os crimes, o famigerado chefe de polícia Filinto Müller designa um delegado ranzinza, assessorado por um auxiliar obtuso e medroso, e que contará com a inestimável ajuda de um sofisticado e culto ex-inspetor. Na perseguição ao criminoso, os três investigadores ganham a desejável companhia de uma jovem linda, destemida, viajada e moderna, que é repórter e fotógrafa da principal revista ilustrada do país.

Opinião: Trata-se de uma leitura fácil, sem grandes exigências, dentro do policial cómico, onde o leitor, ao invés de acompanhar as personagens nas descobertas, sabe logo desde o início todos os elementos contidos na narrativa – incluindo a identidade do assassino. Deste modo, o objectivo da leitura afasta-se do acompanhar progressivo da descoberta, enquanto se aproxima da visualização do desenrolar de acontecimentos que levarão as personagens a adquirir os conhecimentos já entregues ao leitor. A narrativa serve este propósito, não tendo aspirações de maior, mas nem por isso lhe é adequado o tom errático com que desenvolve os acontecimentos, ou mesmo a existência de eventos sem qualquer utilidade quer ao enredo quer às personagens, como foi o caso da corrida de carros, que não espelhou nada sobre as personagens que já não se soubesse, e muito menos contribuiu para o enredo, ou criou um sub-enredo de interesse.

É ainda com foco neste cómico “fácil” que também temos a concepção das personagens. Distintas umas das outras pelo ressalvar de características peculiares e que a narrativa não deixa que o leitor esqueça, são também estereótipos que facilmente se reconhecem: a smurfette bela, corajosa e competente, o subalterno da autoridade a dar para o burro, mas boa pessoa, o vilão com mommy issues, o ex-inspector com grandes capacidades dedutivas que, não fazendo parte das autoridades, presta um auxílio excepcional…

No que respeita à trama em si, pouco mais há a acrescentar ao que é indicado na sinopse: de facto tudo se resume a um grupo de personagens-tipo a procurar apanhar um assassino em série sem que para isso sucedam grandes reviravoltas, ou âncoras que levem o leitor a sentir a insaciabilidade de continuar a ler para descobrir o mistério: mistério que, como indicado, não existe aqui, na medida em que o leitor é omnipresente. Destacam-se, contudo e positivamente, as descrições dos assassinatos e a actuação levada a cabo pelo vilão.

Uma leitura indicada para espairecer, mas sem demais expectativas.

“A Toca das Fadas”, Clara Madrigano

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MADRIGANO, Clara – A Toca das Fadas, São Paulo, Draco, 2014

Sinopse:  Jack e seu irmão encontraram a toca das fadas. Ou é o que Jack acredita. Mas conforme sua obsessão cresce, as coisas deixam de ser divertidas, e as fadas talvez não sejam doces como o mel de que se alimentam.

Opinião: Dois rapazes encontram o que um acredita ser a toca das fadas – e, claro, não são capazes de as deixar sossegadas. A narração é levada a cabo pelo irmão de Jack, dirigindo-se a Jack, no que parece uma quase confissão: a explicação do que aconteceu ganha sentido pelo facto de parecer ser a primeira vez que o narrador admite tudo o que sabia, numa explicação ou justificação para as acções tomadas. O enredo é simples, estando a reviravolta na outra visão das fadas – não foi um revidar também do que lhes foi feito? –, mas bem aproveitado, com bom pacing e ritmo narrativo. Ainda que as peripécias sejam adivinháveis, tal não afecta o crescente da expectativa que a narrativa provoca, utilizando precisamente o referido ritmo.

São identificáveis, todavia, algumas gralhas  (“Jack, se foi ainda pude me escutar”, por exemplo) e falhas da pontuação dos diálogos (uso da maiúscula após a interrogativa “– E como você sabe que elas moram mesmo aí? – Perguntei”, por exemplo). Tanto um ponto como outro são facilmente colmatados com uma nova revisão.

“Jacinta: A Profecia”, Manuel Arouca

Jacinta

AROUCA, Manuel – Jacinta: A Profecia, [Alfragide], Oficina do Livro, 2016

 

Sinopse: A história de Jacinta, uma criança tocada pelo divino que se sacrificou para que os nossos corações se transformassem.

“No convento de Pontevedra, Lúcia volta a pegar na fotografia da transladação de Jacinta. À mente vem-lhe uma sequência de imagens da prima com aquele seu sorriso e rosto radioso. Não se esquece, sente como se a tivesse presente, como ela, com os seus braços magros, a apertou contra o seu peito quando voltou de Ourém, repetindo várias vezes com aquela sua voz melodiosa “não contaste o segredo ao administrador, não contaste, pois não?” Lúcia em lágrimas sossegava-a, afagando-lhe os cabelos. As mesmas lágrimas que escorrem agora pela sua face enquanto segura a fotografia.”

 

Opinião: A premissa – e a capa, e o título e o marketing – gera a expectativa de um livro sobre os pastorinhos de Fátima, com foco em Jacinta, a mais nova, e não se pode dizer que não cumpre com essa expectativa. De facto o que aqui temos é a história dos pastorinhos, conforme o conhecimento que dela temos enquanto povo. Os poucos trechos da irmã Lúcia no “presente” tornam os muitos capítulos do “passado” em reminiscências que se centram no evento das Aparições, e dos interrogatórios que se seguiram. Pouco mais além dessas situações é abordado, não se ficando a conhecer muito mais sobre a vida das crianças que o já público, ou por o autor não o considerar de relevo – apesar do carácter informativo e do peso na ambientação que teria –, ou por desejar manter o foco no lado mais “público”. Qualquer que tivesse sido a motivação, acabou por gerar um romance semi-biográfico onde não se ultrapassa o superficial, e a repetição de dúvidas, situações, dilemas e antagonismos enfatiza a sensação de sobrar pouco da leitura quando espremida.

Outro ponto a destacar será o narrador: inicialmente entendido como em terceira pessoa, logo se torna evidente não se tratar de uma narração neutra. O narrador é omnipresente, mas é uma personagem por si só, com claros favoritismos, tendência a narrar os eventos conforme a sua própria opinião, e por vezes assumindo um “eu” cuja identidade não é perceptível, na medida em que nenhuma das existentes poderia ter todos os conhecimentos demonstrados na narração. Esta posição narrativa delimita, por conseguinte, a apresentação das personagens, que surgem ao leitor com os condicionalismos da opinião do narrador sobre elas.

O romance foi publicado ou reeditado aquando as celebrações do aniversário de Fátima. Atendendo ao público-alvo cujo interesse e gosto poderá despoletar, dificilmente poderia ter tido melhor altura – uma indicação de consciência dos leitores a que se dirige a louvar.